Era uma tarde agradável de inverno. Um frio ameno tomava o ar e nele liberava ventos uivantes. A cidade onde me encontrava sempre fora reconhecida pelo potencial turístico, de modo que pessoas se avolumavam na disputa pelas atracções das ruas.

Por Gabriel Bocorny Guidotti
Jornalista e escritor
Porto Alegre – Brasil

Carros, aos montes, lutavam para encontrar um espaço que pudesse tornar-se uma vaga. O cenário está montado. Vamos àquilo que realmente desejo falar.

Nas grandes metrópoles, sou um crítico contumaz da pressa. As pessoas estão sempre correndo de lá pra cá e de cá para lá. Parecem procurar de algo. Talvez um motivo que justifique a pobreza do açodamento. Lamentavelmente, nossa espécie tornou-se vítima de um ritmo histriónico criado pelo capitalismo. Invejo, nesse sentido, os poucos que vivem nas paragens verdes dos campos. Para estes, os ponteiros do relógio correm no tempo certo – nem lentos, nem rápidos.

A pressa, diz o ditado, é inimiga da perfeição. A pressa que mata no trânsito. A pressa da ansiedade, que afronta nossa razão e nos condiciona por caminhos impensados, mal planejados. Se existe um propósito na aventura humana na Terra, eis a verdade sobre ele: o segredo de uma vida plena está nos pequenos passos que levam a grandes conquistas. Passos maiores que a perna não desembocam em destinos. Não destinos prolíferos, ao menos.

Mas voltando à cidade em que me encontrava, devo admitir que fui vítima do que critico: a pressa. Um trânsito infernal atrasava o proveito de minhas férias. Uma multidão de pedestres invadia as vias, criando caos entre os carros.

Entretanto, a esperança renova-se nos menores gestos. Numa faixa de segurança, uma senhora pedia passagem. A idade avançada dela traduzia-se nos cabelos brancos. De soslaio, uma surpresa aconteceu.

A senhora atravessou a rua a passos módicos – irritantemente módicos -, mas havia uma boa razão para isso. No meio do trajecto, ela parou, empertigou-se para o carro e fez algo inusitado: mandou beijinhos de agradecimento, ostentando uma face de felicidade como poucas vezes vi na vida.

A pressa havia me pregado uma peça para me dar uma lição. Devolvi os beijinhos, sorrindo de orelha a orelha. Após o facto, agradeço por casa segundo “perdido”. A perfeição do momento me edificou para a vida inteira. Em outras palavras, valeu a pena esperar.

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