APELO PARA QUE O PAPA OUÇA O POVO

Organizações da sociedade civil angolana pediram hoje que o Papa apresente ao país mensagens de aproximação entre governantes e governados, de boa governação, combate à corrupção e que Leão XIV visite os sinistrados da província de Benguela. Ou seja, que o MPLA que está no Poder há 50 anos faça o que ainda não foi feito, desde logo transformar o seu reino num Estado de Direito Democrático.

O presidente da Associação Mãos Livres, Guilherme Neves, diz: “Espera-se do Papa uma mensagem de amor, de paz, de justiça e bem-estar, uma mensagem de conforto, de unidade, uma mensagem que vem apelar a todos nós a necessidade de cada vez mais estarmos reconciliados, de cada vez mais trabalharmos para o bem da nossa comunidade”.

À Lusa, no âmbito da visita de Leão XIV a Angola, que se inicia no sábado e decorre até 21 de Abril, o responsável augurou igualmente que o Papa traga mensagens que venham “reforçar e melhorar o diálogo e garantir maior aproximação entre governantes e governados”.

Esperam ainda que o líder da Igreja Católica visite as famílias desalojadas pelas cheias em Benguela, a célebre Califórnia prometida por João Lourenço, no âmbito da sua tese de que “o MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500”.

Mas, também, observou, uma mensagem que foque as questões da boa governação, a transparência na gestão da coisa pública, “que possa, então, concorrer para o bem-estar, uma mensagem de apelo ao combate à corrupção”.

“Numa altura em que boa parte dos africanos, em particular Angola, vivemos na pobreza, não porque não existem recursos para o efeito, mas muitas vezes tem a ver com as más opções políticas na distribuição da renda nacional”, referiu o líder as Mãos Livres, ONG angolana de defesa dos direitos humanos.

Também o director-executivo da Associação Omunga — organização não governamental de promoção dos direitos humanos — João Malavindele saudou a visita de Leão XIV considerando trata-se de “uma honra” o país receber pela terceira vez um Papa.

Enalteceu a “boa relação institucional” entre o Estado angolano e o Vaticano, realçando, que o país ainda enfrenta “grandes problemas” nos domínios sociais e económicos.

“É bem verdade que o Papa não vem para resolver estes problemas, mas há uma questão que é a bandeira da Igreja Católica: a paz, a reconciliação. E nesse quesito temos ainda muito caminho a percorrer relativamente à questão da reconciliação nacional”, notou.

João Malavindele espera mesmo que o Papa venha “confortar” os dirigentes angolanos: “Os nossos actores políticos e também os cidadãos, em geral, relativamente a esse desejo de reconciliação que há muito nós como angolanos desejamos”.

No sábado, após a sua chegada no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda, o Papa vai manter encontros com o Presidente do MPLA que – por inerência – é também Presidente da República, general João Lourenço, com a sociedade civil, diplomatas e políticos e depois com o clero angolano na Nunciatura Apostólica.

O Sumo Pontífice preside no domingo de manhã uma missa campal no Kilamba (Luanda), uma celebração eucarística ao fim da tarde na Vila da Muxima (Icolo e Bengo) e na segunda-feira viaja para Saurimo (Lunda Sul), onde vai presidir a uma missa e visitar um lar de idosos, conforme a agenda oficial.

O director-executivo da Omunga, ONG com sede em Benguela, defendeu igualmente a “alteração” da agenda papal para que este pudesse visitar para aquela província angolana — afectada pelas cheias de domingo que causaram 19 mortos, alguns desaparecidos e milhares de desalojados — e levar o seu conforto às famílias sinistradas.

“Gostaríamos também que se refizesse a agenda do Santo Padre para uma visita de conforto a essas famílias (…) para deixar também uma mensagem de esperança relativamente à situação que vivem neste momento”, indicou.

Cheias na província angolana de Benguela foram provocadas pelo transbordo do rio Cavaco, após fortes precipitações do fim de semana passado.

A visita do Papa Leão XIV a Angola é aguardada com “alegria e júbilo”, disse à agência Lusa o presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), Serra Bango que deseja ouvir mensagens de paz, amor, reconciliação.

“E, sobretudo, de esperança que fortaleça a Igreja e reconforte o povo angolano, isto é o que se espera. Todavia, há aspetos sociais e económicos de Angola que provavelmente o Santo Padre deverá já ter um conhecimento prévio que devem ser rebatidas, que têm que ver com fatores que estrangulam, manietem e violem o princípio da dignidade da pessoa humana”, descreveu.

Para o jurista angolano e responsável da AJPD, para além de falar da paz e da reconciliação, o líder da Igreja Católica deve abordar igualmente questões relacionadas com o “respeito da pessoa humana, da propriedade privada e pública (…) distribuição equitativa da riqueza e do combate à corrupção”.

Visitado 50 times, 50 visitas hoje

Artigos Relacionados

Leave a Comment