As principais seguradoras de crédito à exportação para Angola e Moçambique já se retiraram destes países, diz o director do seguro de crédito e caução da consultora Willis Towers Watson, Acácio Ferreira. Isto numa altura em que, por exemplo, as exportações portuguesas para Angola e Moçambique registaram quebras superiores a 30% no primeiro trimestre.

“A s seguradoras de crédito estão a retirar-se de Angola e Moçambique; podem não o assumir publicamente mas retiraram-se desses mercados”, assegurou o responsável, que enquanto consultor e mediador de empresas, trabalha com todas as seguradoras de crédito.

“Ninguém garante Angola e Moçambique”, vincou Acácio Ferreira em entrevista à Lusa, na qual deu conta de um “agravamento enorme da pressão sobre os seguros de crédito” devido às dificuldades destes países em pagarem as importações em moeda estrangeira, nomeadamente dólares.

“Os exportadores portugueses perderam estes mercados; nota-se claramente que a preocupação não é novos ‘plafonds’ de exportação, não é exportar, mesmo, é retirar os valores, receber o que falta receber destes mercados, porque o impacto não é só nos exportadores, há também um forte impacto nas empresas que venderam a outras empresas portuguesas que dependiam fortemente destes mercados africanos”, e que agora não conseguem pagar aos seus fornecedores nacionais, diz.

“A crise das transferências é o principal problema das empresas portuguesas, porque não conseguem tirar de lá os fundos e o mercado está a ficar cada vez mais pequeno” devido ao abrandamento das economias angolana e moçambicana, a primeira para 0,9% do Produto Interno Bruto e a segunda para 5,8%, este ano, segundo o Banco Mundial.

Apesar de não haver muitos sinistros, ou seja, situações em que as empresas os créditos dão como incobráveis, “não sabem quando é que podem receber o valor em causa, o que por sua vez coloca em causa a sobrevivência de muitas empresas portuguesas, que não conseguem pagar a fornecedores por serem valores importantes ou prazos dilatados”.

Em causa, diz este consultor que está no mercado dos seguros de crédito há 22 anos, “estão centenas de empresas que estão a ir para insolvências ou Processos Especiais de Recuperação (PER) por causa de Angola, o segundo maior destino das exportações portuguesas para fora da União Europeia, a seguir aos EUA.

“Os maiores sinistros de vendas [não pagamento da mercadoria entregue] são de clientes que vendem para Angola, porque muitas vezes as vendas até são feitas só no mercado português, mas o fornecedor vende a uma empresa que por sua vez exporta em Angola e quando entra em rotura, deixam incobráveis em Portugal”, diz Acácio Ferreira, que atua no mercado enquanto intermediário entre o exportador e a seguradora de crédito, na consultora Willis Towers Watson.

Na génese do problema está a incapacidade de as empresas em Angola fazerem os pagamentos em moeda estrangeira, a partir do momento em que o petróleo desceu de preço e diminuiu significativamente as receitas, e a excessiva dependência das empresas portuguesas na exportação para Angola, por causa da recessão em Portugal depois da crise das dívidas soberanas na Europa, no princípio da década.

“As empresas portuguesas começaram a dar crédito porque Angola era um mercado muito interessante e era preciso compensar o abrandamento da procura interna em Portugal, nos últimos anos, porque historicamente o país lusófono mais complicado de fazer seguros de crédito era Angola; ninguém trabalhava com crédito e todos exigiam ou pagamento antecipado ou cartas de conforto”, explica Acácio Ferreira.

“A partir do momento em que as empresas portuguesas deram crédito a clientes angolanos, a pressão sobre o mercado de seguros de crédito aumentou exponencialmente”, conclui.

Moçambique, diz, está a chegar à mesma situação de Angola: “Não é tão público por causa da dimensão, mas os exportadores portugueses para Moçambique estão confrontados com o mesmo problema de Angola, porque as empresas moçambicanas não pagam a Portugal, não conseguem fazer sair divisas”.

Moçambique, salienta, “não é tão evidente pela dimensão e por não aparecer nas notícias, mas tem exactamente os mesmo problemas” que Angola, agravados “pela retirada das ajudas do FMI e dos apoios internacionais, da questão política e da iminência de uma guerra civil”.

Para além destes problemas conjunturais em Angola e Moçambique, as empresas portuguesas enfrentam também o problema estrutural da “falta de credibilidade da informação financeira sobre as empresas” a quem vendem os seus produtos, que “sempre existiu e continua”.

Tsunami nas exportações portuguesas

As exportações de Portugal para Angola e Moçambique registaram quebras superiores a 30% no primeiro trimestre deste ano, demonstrando a vontade das empresas procurarem alternativas a estes mercados em crise.

“As Pequenas e Médias Empresas estão cada vez mais empenhadas na diversificação de mercados de exportação”, comentou o presidente da COSEC, uma das maiores seguradoras de crédito à exportação a operar em Portugal.

Miguel Gomes da Costa exemplifica com Angola, dizendo que está a perder peso no total dos pedidos de seguros de créditos contratados com esta seguradora especializada em garantir o pagamento dos produtos exportados.

“O que se tem notado este ano é que Angola está a perder peso; em 2015 valia 47% do total garantido, agora representa apenas 27%, o que significa que há outros países que estão a substituir esse mercado, designadamente Marrocos”, concluiu o responsável da COSEC, que gere uma linha de crédito dedicada às exportações, num valor que no ano passado chegava aos mil milhões de euros.

A tentativa das empresas portuguesas diversificarem os mercados encontra uma boa expressão nos números das exportações para Angola e Moçambique, os dois mercados africanos mais importantes para as empresas portuguesas.

As exportações de Portugal para Angola diminuíram 45%, para 303,2 milhões de euros, no primeiro trimestre deste ano, ao passo que as importações aumentaram 12,5% para 216,7 milhões, diminuindo o saldo positivo para 86 milhões.

De acordo com os números calculados pela Lusa através da base de dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) português, o saldo positivo da balança comercial entre Portugal e Angola encurtou-se em mais de 272 milhões de euros.

O saldo comercial positivo para Portugal passou de 359 milhões de euros, no primeiro trimestre de 2015, para 86,5 milhões de euros, nos primeiros três meses deste ano.

Por outro lado, as compras de Portugal a Moçambique subiram 106,4% entre Janeiro e Março deste ano, passando de 5 para 10,3 milhões de euros, ao passo que as exportações caíram 30%, de 90 para 63 milhões de euros.

Moçambique registou a maior subida nas vendas a Portugal por parte dos PALOP, só ultrapassado pela subida de 132% das vendas da Guiné-Bissau, mas que representam um valor muito mais baixo.

Moçambique vendeu a Portugal, no primeiro trimestre deste ano, o equivalente a 10,3 milhões de euros, o que traduz uma subida de 106,4% face aos pouco mais de 5 milhões vendidos no mesmo período do ano passado.

Em sentido inverso, Portugal exportou para Moçambique bens no valor de 63 milhões de euros, o que representa uma descida de 30,6% face aos 90,7 milhões de euros vendidos no primeiro trimestre do ano passado.

A balança comercial, por conseguinte, positiva para Portugal em 85 milhões no primeiro trimestre deste ano, degradou-se em 33,1 milhões, para terminar os primeiros três meses deste ano nos 52,6 milhões de euros, mantendo-se, ainda assim, positiva para Portugal.

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