Angola deverá produzir este ano menos de metade das quatro milhões de toneladas de cereais que necessita para consumo directo e industrial, indicou hoje o director-geral do Instituto Nacional de Cereais de Angola (INCER).

Benjamim Castelo referiu que, devido à crise provocada pela quebra da cotação do petróleo e pelas alterações climáticas, a produção anual de cereais este ano se cifre em apenas 1,8 milhões de toneladas, admitindo que o défice de cereais em Angola está a “agravar-se”, com a falta de meios de produção e a dificuldade de importações de material de apoio ou mesmo fertilizantes.

Nada disto era previsível, dirá com certeza qualquer especialista do regime. Tudo isto era previsível, dirão os especialistas da oposição. A verdade é que ninguém imaginava que o petróleo tivesse a coragem (ou lata) para contrariar as ordens de sua majestade o rei, José Eduardo dos Santos. Mas teve e baixou a sua cotação, pondo os pobres ainda mais pobres e os ricos ainda mais ricos.

“Há uma desmotivação ao nível do sector privado. Têm vontade para trabalhar, mas estão com as mãos atadas. Não têm insumos (meios de produção). Nos armazéns quase não encontramos adubo”, reconheceu Benjamim Castelo, em entrevista à rádio pública angolana.

Como exemplo, aponta os preços dos fertilizantes para o solo, que há um ano custavam 4.800 kwanzas (25 euros), por cada saco de 50 quilogramas. Hoje, o mesmo saco, custa 24.000 kwanzas (125 euros).

“A esse preço não se consegue produzir. E mesmo a produzir, não há mercado competitivo e seria melhor importar”, refuta Benjamim Castelo.

Numa produção em que o milho é o “rei”, seguindo-se o massango (milho-miúdo), massambala (sorgo) e o arroz, e em que começa a surgir também o trigo – Angola tem de importar anualmente mais de 700 mil toneladas deste cereal para produzir pão -, o director-geral do INCER admite que as estimativas de 2,5 milhões de toneladas de cereais para 2016 vão ficar cerca de 30% abaixo.

Quanto às necessidades globais de quatro milhões de toneladas anuais, o responsável admite que só dentro de cinco anos será possível atingir e ultrapassar esses níveis. Contudo, para tal, será necessário captar “capital estrangeiro para investir no país”, por exemplo na produção nacional de fertilizantes ou máquinas agrícolas, para reduzir as importações.

A comparticipação do Estado na aquisição de combustível para utilização agrícola é outra das medidas defendidas por Benjamim Castelo.

Angola vive desde meados de 2014 uma forte crise financeira, económica e cambial decorrente da quebra das receitas da exportação de petróleo.

O FMI anunciou a 6 de Abril que Angola solicitou um programa de assistência para os próximos três anos, cujos termos foram debatidos nas reuniões de primavera, em Washington, prosseguindo durante uma visita ao país, em Maio.

O ministro das Finanças, Armando Manuel, esclareceu entretanto que este pedido será para um Programa de Financiamento Ampliado para apoiar a diversificação económica a médio prazo, negando que se trate do que de facto se trata, um resgate económico.

Em Angola, depois do milho o arroz é o segundo cereal mais consumido, mas a sua produção interna, apesar dos esforços para o seu incremento, ainda não satisfaz as necessidades, obrigando a reforçar a sua importação.

Há muito que se sabe que quando o petróleo espirra Angola entra em estado de coma. Mesmo assim, os peritos dos peritos do regime olham sempre para o lado, não vão ser contaminados com essa epidemia da diversificação da economia.

As ligações económicas de Angola ao petróleo ilustram, aliás, um problema mais amplo em África; as nações produtoras que ligaram as suas fortunas exclusivamente ao crude encontram-se agora reféns da turbulência dos preços, correndo muitas o risco de um desastre colectivo de larga escala.

Como antídoto, o regime angolano esperava que novos empréstimos e investimentos da China, o maior parceiro comercial de Angola, conseguissem ajudar a conduzir a economia dependente do petróleo por entre as águas revoltas. Mas essa opção não está a resultar e o barco mete água por todos os lados.

Do ponto de vista da propaganda, Luanda e Pequim apresenta-se ao mundo como “irmãos e parceiros estratégicos de longo prazo”. No entanto, a verdade é que os importadores angolanos estão agora em dificuldades para pagar artigos básicos como medicamentos ou cereais.

Nesta altura, enquanto o FMI ainda está a tratar do passaporte, o certo é que sem os chineses, não há dinheiro. E não havendo dinheiro, o país entra mesmo em estado de coma. É onde está nesta altura. O ventilador mantém-no vivo, mas…

O comércio entre a China e os países de língua portuguesa caiu 23,03% no primeiro trimestre do ano, face ao período homólogo de 2015, indicam dados oficiais hoje divulgados.

Segundo as estatísticas dos Serviços da Alfândega da China, publicadas no portal do Fórum Macau, as trocas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa totalizaram 16,72 mil milhões de dólares entre Janeiro e Março.

Pequim comprou aos países de língua portuguesa bens avaliados em 10,88 mil milhões de dólares – menos 2,10% – e vendeu produtos no valor de 5,84 mil milhões de dólares – menos 44,95% comparativamente aos primeiros três meses de 2015.

O Brasil manteve-se como o principal parceiro económico da China, com o volume das trocas comerciais bilaterais a cifrar-se em 11,60 mil milhões de dólares, valor que traduz uma queda de 19,30% em termos anuais homólogos.

As exportações da China para o Brasil atingiram 4,24 mil milhões de dólares, traduzindo uma diminuição de 47,27%, enquanto as importações chinesas totalizaram 7,53 mil milhões de dólares, reflectindo, em sentido inverso, uma subida de 16,28%.

Com Angola, o segundo parceiro chinês no universo da lusofonia, as trocas comerciais caíram 39,37%, para 3,44 mil milhões de dólares. Pequim vendeu a Luanda produtos avaliados em 345 milhões de dólares – menos 75,36% face ao primeiro trimestre de 2015 – e comprou mercadorias avaliadas em 3,10 mil milhões de dólares, ou seja, menos 27,58%.

Com Portugal, terceiro parceiro da China no universo lusófono, o comércio bilateral ascendeu a 1,23 mil milhões de dólares – mais 17,94% -, numa balança comercial favorável a Pequim, que vendeu a Lisboa bens na ordem de 940,8 milhões de dólares – mais 38,01% – e comprou produtos avaliados em 296,3 milhões de dólares, menos 19,30%.

Em 2015, as trocas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa caíram 25,73%, atingindo 98,47 mil milhões de dólares, a primeira queda desde 2009.

Os dados divulgados incluem São Tomé e Príncipe, apesar de o país manter relações diplomáticas com Taiwan e não participar directamente no Fórum Macau.

A China estabeleceu a Região Administrativa Especial de Macau como a sua plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003, ano em que criou o Fórum Macau, que reúne ao nível ministerial de três em três anos.

A próxima conferência ministerial — que será a quinta desde 2003 — realizar-se-á este ano, mas ainda não há data marcada.

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