Os seres humanos e os carros têm muito em comum. Ambos necessitam constante manutenção para resistir ao futuro, de modo que um auxilia o outro.

Por Gabriel Bocorny Guidotti
Jornalista e escritor
Porto Alegre – Brasil

Sem pessoas, a roda sequer existiria. Sem carros, nossa sociedade estaria em patamar mais rudimentar. A velocidade é essencial ao desenvolvimento. E foi assim, explorando espaços, criando ruas e estradas, que nossa espécie chegou aonde chegou.

No trânsito e na sociedade, existem regras que regulam condutas. Em um cruzamento, por exemplo, você pode aguardar uma oportunidade para avançar sem atrapalhar motoristas que dirigem na pista perpendicular. Ou, simplesmente, você pode acelerar e trancar a rua, estendendo ao seu carro a sua incivilidade. Mas há exemplos mais claros nas relações humanas. Sabe aqueles colegas instáveis e chefes carrascos? Eis os cruzamentos trancados da vida.

O trânsito pode demorar a fluir, deixando o motorista frustrado. Para planos ousados, o mesmo acontece com os indivíduos, sobretudo quando a ansiedade atrapalha o alcance de objectivos.

Nós e os carros somos incrivelmente parecidos. A chuva bate em nossa carapaça e necessitamos de combustível – oleoso ou alimentício – para sobreviver. Uma noite – na garagem ou na cama – nos recupera para o dia seguinte.

Mas então acontece um acidente, um terrível acidente. Aí se difere a racionalidade humana da submissão veicular. Só quem pode causar um sinistro é o homem, que exerce controle sobre a máquina. Um farol queimado, por exemplo, pode matar. A sonolência ao volante também. O álcool só faz bem aos carros, colocando-os a andar. Para os motoristas, a mistura de bebida e direcção é o primeiro passo para grandes arrependimentos.

Em acidentes, pessoas e carros viram um só. Não há diferenciação entre carne e metal. Mas o carro possui uma particularidade: não haverá lamentação, afinal, ele não tem vida e pode ser reaproveitado em um ferro-velho. Inexiste segunda chance para o ser humano. O choro dos familiares não conseguirá trazer o falecido de volta.

Em suma, nossa sociedade selvagem encontra respaldo no trânsito. Um espelho irreflectido de máquinas e pessoas.

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