Por ordem do Titular do Poder Executivo, a praça António Agostinho Neto, localizada no centro da cidade do Huambo, foi hoje designada, oficialmente, como local de interesse histórico, com a categoria património cultural nacional.

Por Orlando Castro

T erá o dito “interesse histórico” algo a ver com o facto de aquela praça ter sido construída pela administração colonial portuguesa entre 1935 e 1945, tendo então o nome de praça Manuel de Arriaga?

De acordo com a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, esta nova designação (“interesse históricos”) enquadra-se nas comemorações do Dia da Cultura Nacional, que se assinala hoje.

Segundo a directora do Instituto Nacional Cultural e Histórico, Maria da Piedade, a praça construída no século XX e que ocupa o espaço onde convergem os principais eixos da cidade do Huambo, tem um lugar especial na memória dos seus cidadãos.

Referiu que a sua classificação como património nacional justifica-se pelo facto de ser um lugar único, marcado pela imponência da estátua em bronze do primeiro Presidente da República de Angola, António Agostinho Neto, de autoria do escultor Rui de Matos, que realça o seu papel em torno da luta de libertação nacional.

A consagração do monumento na categoria de património nacional foi emitida pelo decreto executivo 05/15, de 7 de Janeiro, do Ministério da Cultura, em conformidade com o artigo 137 da Constituição da República de Angola.
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A praça António Agostinho Neto, uma homenagem ao – na versão oficial – único fundador da nação, situa-se no centro da cidade do Huambo, à volta da qual foi construído (também durante a administração portuguesa) o palácio do governador, o edifício das direcções provinciais, o edifício do governo, a delegação das Finanças, da empresa de Correios e Telecomunicações e o Gabinete de Estudos e Plano.

Antes da cerimónia, testemunhada por várias entidades do governo da província do Huambo, políticos, deputados, autoridades policiais, religiosas, tradicionais, entre outras individualidades da sociedade civil, a ministra Rosa Cruz e Silva depositou uma coroa de flor no busto de António Agostinho Neto.

Interesse histórico é outra coisa

De acordo com o site do Heritage of Portuguese Influence/ Património de Influência Portuguesa (HPIP) – a evolução natural do projecto Património de Origem Portuguesa no Mundo: arquitectura e urbanismo que, sob a direcção de José Mattoso, a Fundação Calouste Gulbenkian desenvolveu entre 2007 e 2012:

“Ponto radiante do plano de Roma Machado, materializado (ou aperfeiçoado) a partir do desenho de João Aguiar, é constituído por uma rotunda, onde se ergueu até 1975 o monumento a Norton de Matos, um grande pilar isolado, ladeado por esculturas figurativas, articulando os principais edifícios administrativos (erigido depois da sua morte em 1955, da autoria do arquitecto Lucínio Cruz; depois da independência, a estátua foi retirada para junto da Biblioteca Provincial e mais recentemente substituída por outra, alusiva a Agostinho Neto); pelo Palácio do Governo, no topo norte, antigo edifício da intendência, construído nos anos 1940 e exemplar característico do modelo compacto de arquitectura classicizante, ao gosto do Estado Novo, neo-tradicional, que apresenta fachada de arcaria e varanda superior entre dois corpos laterais avançados, num todo com expressão pesada, de frontão central e remates por cornija e pináculos; nas restantes frentes localiza‐se o edifício da Câmara Municipal, construção de finais dos anos 1960, e destaca‐se a frente de acompanhamento, definida por arcada e colunata sobreposta, da antiga Fazenda Pública, no espírito original das propostas do plano Aguiar.”

Herói nacional há só um

O dito sistema de inclusão do regime é, de facto, caricato. Recordamo-nos de em tempos ouvir o então ministro da Educação, Burity da Silva, afirmar que “a construção da angolanidade deve ser edificada com a participação de todas as culturas existentes, sem critérios estereotipados de exclusão”.

E nada melhor para reflectir essa inclusão do que continuar a homenagear Agostinho Neto como único herói nacional. Único por enquanto. José Eduardo dos Santos já está na calha…

Mas é assim. Se o MPLA é Angola e Angola é o MPLA, herói nacional há só um, Agostinho Neto e mais nenhum. Quando o MPLA for apenas um dos partidos do país e Angola for um verdadeiro Estado de Direito, então haverá outros heróis.

Até lá, os angolanos continuarão sujeitos à lavagem do cérebro de modo a que julguem que António Agostinho Neto foi o único a dar um contributo na luta armada contra o colonialismo português e para a conquista da independência nacional.

O dia 17 de Setembro, instituído feriado nacional em 1980 pela então Assembleia do Povo, um ano após o seu falecimento, em 10 de Setembro de 1979 na antiga União das Republicas Socialistas Soviéticas, deve-se, segundo a cartilha do MPLA, ao reconhecimento do seu empenho na libertação de Angola, em particular, e do continente africano. Com alguma habilidade ainda vamos ver referências ao contributo para a libertação da Europa…

E tudo serve para idolatrar o regime, até mesmo considerar local de interesse histórico uma praça construída pelos portugueses, destruída por obra e graça do MPLA na sua luta contra a UNITA e que, de facto, nada significou para Agostinho Neto e para o regime.

Diz o MPLA que, fruto da entrega de Agostinho Neto à causa libertadora dos povos, o Zimbabué e a Namíbia ascenderam igualmente à independência, assim como contribuiu para o fim do Apartheid na África do Sul. Então não seria melhor mudar o nome do país para República Agostinho Neto?

Pelos vistos, desde 1961 e até agora, só existe Agostinho Neto. Se calhar até é verdade. Aliás, bem vistas as coisas, Holden Roberto e Jonas Savimbi, FNLA e UNITA, nunca existiram e são apenas resultado da imaginação de uns tantos lunáticos.

Agostinho Neto foi também, segundo uma cartilha herdada do regime de partido único (hoje em termos práticos assim continua), “um esclarecido homem de cultura para quem as manifestações culturais tinham de ser antes de mais a expressão viva das aspirações dos oprimidos, arma para a denúncia dos opressores, instrumentos para a reconstrução da nova vida”.

A atribuição do Prémio Lótus, em 1970, pela Conferência dos Escritores afro-asiáticos, Prémio Nacional de Cultura em 1975 e outras distinções são mais um reconhecimento internacional dos seus méritos neste domínio, com trabalhos tais como: Náusea (1952), Quatro Poemas de Agostinho Neto (1957), Com os olhos Secos, edição bilingue português-italiano (1963), Sagrada Esperança (1974), Renúncia Impossível (edição póstuma 1982) e Poesia (edição Póstuma 1998).

Cá para mim quem tem razão é José Eduardo Agualusa quando diz que “uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre”.

Continuemos, contudo, a ver a lavagem cerebral que o regime do MPLA pretende levar a cabo: “Dotado de um invulgar dinamismo e capacidade de trabalho, Agostinho Neto, até à hora do seu desaparecimento físico, foi incansável na sua participação pessoal para resolução de todos os problemas relacionados com a vida do partido, do povo e do Estado”.

Numa coisa a cartilha do MPLA tem toda a razão e actualidade: “como o marxistas-leninista convicto, Agostinho Neto reafirmou constantemente o papel dirigente do partido, a necessidade da sua estrutura orgânica e o fortalecimento ideológico, garantia segura para a criação e consolidação dos órgãos do poder popular, forma institucional da gestão dos destinos da Nação pelos operários e camponeses”.

Como se vê, os destinos da Nação estão entregues desde 11 de Novembro de 1975 aos operários e camponeses do tipo José Eduardo dos Santos & seus capangas.

Em reconhecimento da figura do (suposto único) fundador da Nação, estão erguidas em vários pontos do país estátuas, que simbolizam os seus feitos e legados, marcado pelas suas máximas “De Cabinda ao Cunene um só povo e uma só nação” e “O mais importante é resolver os problemas do povo”.

Pois! Nem Cabinda é Angola nem os problemas do povo foram resolvidos. Mas as estátuas aí estão para serem vistas por um povo que continua a ser gerado com fome, a nascer com fome e a morrer pouco depois com… fome.

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