O historiador francês Michel Cahen, considerado um dos maiores especialistas mundiais em colonialismo português, defendeu, em declarações à agência Lusa, que o poder em Portugal nunca afrontou Angola, com excepção do antigo Presidente da República Mário Soares.

M ichel Cahen, historiador do Instituto de Ciências Políticas de Bordéus, em França, antigo responsável do centro de investigação Les Afriques dans le monde, daquela instituição, fundador da revista “Lusotopie”, regressou recentemente a Portugal, para iniciar uma nova investigação de dois anos sobre o colonialismo português, no Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa.

Autor de “Mozambique, la révolution implosée” (Paris, 2000), Michel Cahen referia-se ao actual momento das relações entre os dois países, marcado por nova tensão, desta vez a propósito do caso do activista Luaty Beirão, cidadão luso-angolano, que se encontra em greve de fome, em Luanda, exigindo a sua libertação e a dos 14 jovens detidos em Junho na capital de Angola.

“O Governo de Lisboa tem sido acusado por partidos da oposição portuguesa, como o Bloco de Esquerda, e outras organizações, de ‘inacção’ perante a situação daquele activista. Mesmo assim, os círculos próximos do Governo de Luanda acham que há ‘ingerência'” a mais, disse Michel Cahen.

Na última semana, a embaixada de Luanda em Portugal emitiu um comunicado, no qual lamentou o envolvimento da Assembleia Municipal de Lisboa na polémica em torno de Luaty Beirão.

“Ao invés de estar preocupada com os seus problemas domésticos, a Assembleia Municipal de Lisboa dedica-se a envolver-se nos assuntos internos da República de Angola, estribando-se em informações jornalísticas emotivas e sensacionalistas, com expressa negligência em aprofundar, junto das legítimas instituições do Estado angolano, o conhecimento sobre os factos”, queixou-se a representação diplomática, citada pelo Pravda do regime, também conhecido por Jornal de Angola.

“Esta relação clássica de amor e ódio não tem impedido a elite angolana de vir às compras a Lisboa, nem Isabel dos Santos de comprar meio Portugal”, ironizou o historiador, para quem “Portugal não é nada importante para Angola”.

“Quanto mais Angola era dura e arrogante, mais os governos portugueses eram subservientes, e isto não tem nada a ver com petróleo ou com a nova emigração portuguesa, isto vem dos anos 1980”, afirmou.

“O único momento em que as relações de Portugal foram mais independentes [em relação a] Angola foi com Mário Soares, o que dificultou grandemente, aliás, a criação da CPLP”, prosseguiu Michel Cahen, lembrando que “as más relações entre o dois [estados] têm praticamente a idade do novo país”, independente desde 11 de Novembro de 1975.

Em 2013, numa entrevista à Revista Plural, da Universidade de São Paulo, Michel Cahen defendera o mesmo argumento: “Mário Soares tentou manter uma política equilibrada entre MPLA e UNITA, o que era inaceitável para o MPLA”, que, por sua vez, o acusava de “manter ligação com a UNITA, o que era verdade”.

“Angola foi sempre a pérola do império” português, recorda o historiador francês à agência Lusa.

“O general Spínola admitia perder a Guiné ou Cabo Verde, até mesmo Moçambique, mas nunca Angola”, assegura o historiador que cava mais fundo para encontrar as razões para o mal-estar quase permanente entre Luanda e Lisboa.

“Penso que deriva do sector da elite angolana que criou o MPLA. Historicamente, o MPLA é produto das trajectórias crioulas de Luanda”, afirma, esclarecendo estar “a falar de crioulo como conceito das ciências sociais, porque aquela elite sempre se vai recusar a reivindicar essa situação, ao contrário de Moçambique e Cabo Verde”.

“Enquanto em Cabo Verde o crioulo é motivo de orgulho, em Angola é muito ligado à tentativa de Portugal de controlar e às teorias do luso-tropicalismo do [sociólogo brasileiro] Gilberto Freyre. São meios socioculturais criados pelo próprio estado colonial que, muitas vezes, têm o português como língua materna”, mesmo numa fase precoce, como em 1950, meios “que são modernos, no sentido europeu do termo, o que ajuda à aproximação aos oficiais do MFA, quando chegaram a Angola”.

“Mas essas antigas comunidades eram violentamente anti-portuguesas”, conclui o historiador.

Apontado, por diferentes centros de investigação, como autor de referência no estudo da África de língua portuguesa, Michel Cahen soma quatro décadas de pesquisa sobre temas como a escravatura e os trabalhos forçados, o “salazarismo”, as lutas armadas de libertação e as questões pós-coloniais.

Entre os seus títulos contam-se, entre outros, “Os Bandidos. Um historiador em Moçambique” (Gulbenkian, 2002), “La nationalisation du monde. Europe, Afrique, l’identité dans la démocratie” (Paris 1999), “Ethnicité politique. Pour une lecture réaliste de l’identité” (Paris, 1994) e “Cidades na África lusófona” (Paris, 1989).

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