Ao fim da tarde, conforme notícia do Folha 8, a Polícia do regime invadiu a Igreja de São Domingos (situada na estrada de Catete junto à Vila Alice), interrompeu a missa e prendeu vários dos presentes, entretanto já libertados.

Por William Tonet e Orlando Castro

A o contrário do que o F8 noticiou, o pároco que presidia à missa, Padre Mário Zoca, não foi detido. Dezenas de crentes que assistiam à homilia fugiram, alguns com ferimentos diversos.

A acção policial foi justificada como sendo a resposta a uma violação da lei, já que a homilia foi transformada em vigília, acto que foi proibido pelo regime.

A única excepção, atendendo a que os peritos do regime entendem que “vigília” era e é o nome de código para golpe de Estado, diz respeito a iniciativas do MPLA que, essas sim – diz o regime – respeitam a exortação religiosa fundada não num ponto do Evangelho mas, antes, no articulado do programa do MPLA.

Em contacto com o Folha 8, o Padre Abel Martins, que exerceu o sacerdócio em Angola durante vários anos e que agora se encontra no Vaticano, afirma “que a Santa Sé acompanha com sérias preocupações o desrespeito pelos direitos humanos em Angola”, acrescentando que o que “se passou ontem junto à Igreja da Sagrada Família e hoje na Igreja de São Domingos é muito grave e deverá merecer – provavelmente pelos meios diplomáticos – uma séria crítica do Vaticano”.

“Hoje mesmo a Santa Sé recebeu directamente de Angola informações pormenorizadas sobre a situação, veiculadas por párocos locais, nelas constando já a situação vivida na Igreja de São Domingos”, especifica o Padre Abel Martins.

Ouvido pelo Folha 8, Paulo Morais, candidato à Presidência da República de Portugal, diz que tudo isto não espanta e é o resultado óbvio da política do presidente Eduardo dos Santos, “que instituiu um regime corrupto e cleptocrático”, em que “distribuiu, ao longo de décadas, de forma feudal, privilégios pelos seus apoiantes”, criando “uma oligarquia que lhe é agradecida e subserviente, a quem permitiu um enriquecimento obsceno”.

Paulo Morais, seja no caso de Luaty Beirão e dos outros activistas detidos, não espera qualquer intervenção de Portugal. Isto porque, diz, “Eduardo dos Santos domina a política portuguesa, começando pelo governo, cujo vice-primeiro-ministro visita frequentemente Luanda onde promove negócios; passando pelo Partido Comunista, que trata o MPLA como “partido irmão”; mas também pelo PS, parceiro do MPLA na Internacional Socialista”.

Neste contexto, perspectiva que Eduardo dos Santos “poderá nunca vir a ser julgado em vida por corrupção e pelos danos que infligiu ao seu país. Mas o julgamento da História está feito: ele é um líder que destruiu o seu país, porque nunca gostou do seu povo”.

Entretanto, a secção portuguesa da Amnistia Internacional vai estar presente na concentração e na vigília que se realizam quarta-feira em Lisboa (se fossem em Luanda iriam levar porrada a valer) de apoio aos activistas detidos em Luanda, entre os quais Luaty Beirão.

“Luaty Beirão inspira especiais preocupações uma vez que o seu estado de saúde se encontra debilitado devido à greve de fome que encetou em protesto contra a sua detenção e de outros 14 activistas. O activista está desde 9 de Outubro na Prisão Hospital de São Paulo, em Luanda, e durante três semanas ingeriu apenas água com sal e açúcar, providenciada por seus familiares. Aceitou a 11 de Outubro que lhe fosse administrada solução salina por via intravenosa”, indica um comunicado da Amnistia Internacional (AI).

Na quarta-feira, a concentração de solidariedade para com os activistas angolanos vai realizar-se frente ao Gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa, no Largo Jean Monet, ao que se segue uma vigília na Praça do Rossio, a partir das 18:30.

De acordo com o mesmo comunicado, outro dos activistas do grupo de prisioneiros de consciência, Nelson Dibango, entrou em greve de fome a 9 de Outubro.

A petição da Amnistia Internacional a favor destes 15 activistas conta já com mais de 24 mil assinaturas em Portugal, em pouco mais de uma semana.

Os 15 angolanos, detidos em Junho, foram formalmente acusados em Setembro de prepararem uma “rebelião” e “tentativa de golpe” e informados apenas a 5 de Outubro, pelo que, segundo a AI, “estiveram em detenção pré-julgamento e sem formulação de acusação mais de 90 dias, como é definido por lei”.

“As detenções e as acusações formuladas pelo Estado angolano contra os 15 activistas constituem um exemplo chocante do quão longe as autoridades do país estão dispostas a ir para suprimir a dissidência pacífica”, diz a AI.

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