O rapper angolano MCK foi hoje impedido de viajar para o Brasil, onde deveria apresentar um espectáculo há muito anunciado. Sem qualquer justificação legal, os Serviços de Migração e Estrangeiros do regime limitaram-se a impedir a saída, retendo o passaporte atá o avião levantar voo.

“P erguntei se havia alguma ordem judicial”, contou ao F8 MCK, acrescentando que os diligentes agentes migratórios, para além de manifestarem “simpatia pela minha música, disseram-me que estavam a cumprir ordens superiores, que não foram escritas e que eram apenas verbais”, acrescentando que devolveriam o passaporte logo que o avião levantasse voo.

“Lamento tudo isto pois não sei como é que os organizadores, depois de terem pago tudo, vão encarar isto que é um comportamento de ditadura”, diz MCK, referindo que vai apresentar queixa formal por danos materiais e humanos.

Entre os dias 23 e 26 deste mês, altura em que se comemoram os dias da cultura hip-hop e da consciência negra, oficinas, debates, mostra de filmes e shows exclusivos serão apresentados no Centro de Referência da Música Carioca Artur da Távola, na Tijuca. Ao todo, 16 artistas estarão envolvidos nas actividades, realizadas ao longo de quatro dias.

Entre os pontos altos do festival, está a homenagem ao legendário rapper paulistano Sabotage (1973-2003), feita através de uma performance ao vivo de spoken word (“palavra falada”, em tradução livre), com releituras de músicas do artista pelos rappers BNegão e Alexandre Diaphra, acompanhados por Donatinho ao piano.

Destaque também, segundo a organização, para a vinda de um dos dez rappers mais influentes da África: o angolano MCK, apresentado como “diplomado em Filosofia e estudante de Direito, MCK vêm trilhando uma carreira extraordinária e a sua música defende a construção de um mundo melhor”.

No dia 1 de Setembro, MCK actuou no Musicbox, em Lisboa, num concerto com a presença do cantor angolano Bonga, que foi descrito pelo músico como “um encontro de gerações”, em nome da liberdade de expressão.

Na altura, MCK explicou que já tinha feito curtas actuações em Lisboa, mas que considerava este como o primeiro concerto em nome próprio, numa sala lisboeta.

A razão de ser do concerto é a edição do álbum “Proibido ouvir isto”, de 2012, e que teve uma reedição aumentada neste Verão, com um par de temas novos, que é tido como uma referência da nova música de intervenção em Angola.

Para o concerto, convidou Bonga, “o símbolo maior da angolanidade e da liberdade de expressão”, um “músico de intervenção nos anos 1960 e 1970, que sofreu muitas perseguições”, disse MCK.

“MCK faz parte de uma nova geração de músicos activistas, que usam as letras como bandeiras contra a corrupção, a pobreza e a falta de emprego”, lê-se na apresentação do concerto.

O músico diz que o faz é um “exercício de consciência sobre tudo aquilo que o angolano produz, que é doce e salgado”. São “reflexões sobre o quotidiano” através do rap, com incursões também na música angolana e nos seus dialectos.

MCK diz que não é o único a fazer crítica social ao que se passa no país. Cita Ikonoklasta, nome artístico de Luaty Beirão, um dos jovens detidos pelas autoridades angolanas e com os quais MCK se mantém solidário.

O rapper e produtor admite que é preciso coragem para não ter medo da exposição mediática, e que o rap é “o modelo jovem de maior pressão política”, junto das instituições governamentais.

Afirma, no entanto, que, se “as eleições não derrubam regimes”, também o rap não conseguirá operar uma mudança a esse nível, mas é o que “movimenta mais os jovens”.

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