Como parte da estratégia de combate aos usuários da internet que criticam o presidente, a sua família e o seu regime, um general veio recentemente a terreiro sensibilizar a juventude sobre os males que aí vêm.

Por Rafael Marques
In: MakaAngola

Q uem avisa amigo é. O general Bento dos Santos “Kangamba” interveio publicamente para defender a ideia de que a internet não mais deve ser usada para criticar a sua pessoa, o presidente e os dirigentes.

Para o efeito, o nosso Kangamba apresentou apenas dois motivos defensáveis para recorrer à internet. Em primeiro lugar, para o estudo, ou seja, para aumentar os conhecimentos, na linha daquilo que o presidente defendeu no seu discurso de fim de ano. Em segundo lugar, para falar bem dos dirigentes, contribuindo para a tranquilidade emocional das suas famílias.

Nada melhor do que ouvir os principais trechos da intervenção de Kangamba, ele próprio membro da família presidencial, por casamento com Avelina dos Santos, a sobrinha e directora-adjunta do gabinete do presidente José Eduardo dos Santos.

“Jornalistas de bem e jornalistas de mau amor [humor], quando acordam, querem fazer caricaturas do presidente e dos dirigentes e falar mal na internet, lançar”, acusa o general. “É claro que é mau isso quando tivermos que falar de um dirigente temos de falar bem dos seus efeitos [feitos]. Nós não temos que falar contra. Isto é estarmos a atingir a sua família”, adianta Kangamba.

Em 1994, o presidente descreveu o modelo ideal da comunicação social para Angola, citando um órgão estatal. “O trabalho da Angop é o que é menos criticado. Às vezes parece que nem sequer existe, o que pode querer dizer que estão a fazer bem o seu trabalho.”

O Kangamba não entende bem de que modo a discrição total favorece o seu chefe, e por isso deixa o seu conselho: “Continuo a vos dizer que a internet veio, é aquilo que o presidente disse, a internet veio para as pessoas estudar, para investigar, melhorar o comportamento do seu estudo e aprender. Não é para entrar na vida das pessoas.”

Estudar também pode ser perigoso. Foi o que aconteceu aos 15 activistas. Estavam a estudar ideias contrárias ao poder do presidente e estão presos há sete meses. Há que definir aquilo que os jovens devem estudar através da internet.

“Se vocês verem, falam mais [na internet] do presidente, falam mais do Bento Kangamba, falam mais dos dirigentes de todo o tamanho”, lamenta o também secretário do MPLA para a Organização e Mobilização Periférica e Rural em Luanda.

Para si, a internet seria o meio ideal se os críticos “falassem daquilo que nós [dirigentes do MPLA] contribuímos no país. Era melhor, mas não falam”.

“Isso que nós fizemos, tanto tempo que nós fizemos, mas as pessoas falam daquilo que nós fizemos, inventam coisas, peças montadas, uma cabeça que o corpo não é meu. Mete a minha cabeça no corpo que não é meu. Cabeça que não é meu mete o meu corpo”, denuncia o dirigente.

Em parte por causa desses abusos contra a sua pessoa – “esse tipo de coisa” como diz – “é que o presidente falou [sobre a internet] na sua mensagem [de fim de ano]”.

Kangamba congratula-se com o discurso do presidente e espera que a juventude melhore o seu comportamento e use a internet apenas para estudar e falar bem dos dirigentes.

Da ficção à realidade

O general Bento Kangamba é uma personagem de ficção transposta para a realidade angolana. Em 2000, o Tribunal Supremo Militar condenou-o a dois anos e oito meses de prisão por conduta indecorosa, burla e falsificação de documentos. Passados dois anos, foi a vez de o Tribunal Supremo o condenar a quatro anos de prisão por burla e defraudação.

Depois de ter sido afastado do exército e expulso do MPLA, o presidente reabilitou-o, promovendo-o a general e concedendo-lhe outros poderes ao nível do MPLA e do aparelho do Estado.

Em 2013, a Interpol emitiu um mandado de captura internacional contra si, por suspeita de liderar uma associação de malfeitores envolvida no tráfico internacional de pessoas para exploração sexual. Apesar da ordem de prisão preventiva ter sido revogada no Brasil, o Superior Tribunal de Justiça do Brasil mantém as acusações de favorecimento de prostituição e tráfico internacional de pessoas contra Bento Kangamba.

Trata-se da Operação Garina, que expôs o negócio de prostituição do general através de uma rede de angariamento de cidadãs brasileiras para venda de sexo em Angola.

Não se conhecem “efeitos” militares de bravura do general Kangamba nas frentes de combate ou na rectaguarda. Sabe-se, no entanto, que o seu clube de futebol, o Kabuscorp F.C., serviu de cobertura para um grupo de milícias sob seu comando que raptava e torturava manifestantes e procurava corrompê-los, para pôr termo aos protestos anti-Dos Santos. Esses feitos, em defesa do presidente, têm sido reportados.

Como autodenominado empresário da juventude, sabe-se que tem apoiado muitas iniciativas para recrutar militantes para o MPLA. A origem da sua fortuna continua a ser um mistério, dando azo a problemas legais em Portugal e em França.

O que é estranho nesta campanha, de combate aos usuários da internet críticos do regime, é a escolha de Bento Kangamba como porta-voz para a defesa da vontade do presidente.

Recentemente, o Gabinete de Revitalização e Execução da Comunicação Institucional e Marketing da Administração (GRECIMA) da Presidência da República promoveu dois cursos, em Portugal e em Luanda, para todos os embaixadores angolanos e porta-vozes estatais, com o propósito de melhorar a sua capacidade de comunicação das políticas e vontades do regime.

De forma contraditória, os cursos foram ministrados por consultores portugueses, sobre cujo país o regime atira sempre as culpas dos males de comunicação sobre a informação que sai no exterior.

Para criticar o uso da internet pelos seus adversários, José Eduardo dos Santos opta por atribuir espaço mediático ao general Kangamba. Um homem cuja sobrevivência política só pode mesmo ser atribuída ao feitiço, à falta que qualquer explicação racional.

Viva o nosso Kangamba!

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