Aos 127 anos de serviço, depois de troços amputados durante décadas pela guerra civil, o Caminho de Ferro de Luanda (CFL) serve hoje, anualmente, quase 3,5 milhões de passageiros, mesmo que já não vá à cidade alta.

A actual linha liga Luanda à província de Malange, num percurso de 428 quilómetros reabilitado em 2011, após o fim da guerra civil, mas tudo começou em 1881, durante a ocupação colonial por Portugal. Viviam então em Luanda 15.000 pessoas, entre os quais cerca de três mil portugueses.

O primeiro troço do comboio, como recorda o livro “Uma história viva” lançado agora pela Administração do CFL, foi inaugurado a 31 de Outubro de 1888, através do então Caminho de Ferro de Ambaca, ligando Luanda à Funda, num percurso de 45 quilómetros.

A primeira estação, no Bungo, junto à marginal de Luanda, ainda mantém hoje a traça original e chegou a permitir a ligação à zona mais nobre da capital: a cidade alta.

Desconhecida das gerações mais novas, essa linha cruzava o centro da cidade, ligando ainda à então Câmara Municipal de Luanda, com dois comboios diários, até ser desactivada em 1958, “quando a expansão urbanística tomou conta da cidade”, recorda o livro publicado pelo CFL para assinalar os 127 anos.

Poucas memórias dessa linha ainda perduram pela zona antiga de Luanda, como o que sobra da traça arquitectónica da então estação na Maianga, ainda com a inscrição “Cidade Alta” numa das paredes. Sem carris por perto, está agora transformada numa loja, mas passa despercebida pelo quotidiano de Luanda, hoje com cerca de dois milhões de habitantes (cidade).

Recordações plasmadas no livro apresentado em Luanda pela Administração do CFL e que resultou da coordenação de Francisco Henriques, Tomás Leiria Pinto e Augusto Osório, como a da ponte da barroca precisamente no troço que ligava à cidade alta.

“Foi nessa ponte que o genial burlão Alves dos Reis ofereceu [atravessando-a de comboio] um espectáculo inolvidável aos luandenses. Com base num diploma falsificado que o confirmava como engenheiro de máquinas, conseguiu ser admitido para o posto de director do Caminho de Ferro de Ambaca”, recorda o livro.

“Do período colonial, para além do inegável mérito da introdução do caminho-de-ferro em Angola, aliada a uma marcante capacidade de planeamento, engenharia e decisão, ficará a visão integradora dos portos e respectivas linhas de caminho-de-ferro, numa abordagem premonitória da importância da logística moderna e dos actuais corredores de desenvolvimento”, destacou o presidente do Conselho de Administração do CFL, Celso Rosas, na apresentação do livro.

O comboio chegaria de Luanda a Malange, no interior norte de Angola, em 1909 (interrompido devido à guerra civil entre 1991 e 2011),para assegurar o transporte de passageiros e garantir o escoamento até ao porto da capital – e depois a exportação – da produção agrícola local, nomeadamente o café, mas também do ferro e manganés.

Editado pelo CFL e com uma nota de abertura feita por Adriano Moreira, enquanto antigo ministro do Ultramar durante o Estado Novo, em Portugal, o livro reúne informação sobre os dois períodos do comboio de Luanda – colonial, entre 1881 e 1975, e contemporâneo, entre 1975 e 2015 -, e apresenta ainda fotografias e anexos dessa evolução histórica.

O lançamento do livro contou com a apresentação do ministro dos Transportes angolano, que sublinhou os novos desafios que o comboio enfrenta na capital, desde logo a prevista duplicação de uma parte da via, desde a estação do Bungo, ou a nova linha que vai ligar o centro ao futuro aeroporto internacional em construção nos arredores de Luanda.

“Com seis novas estações, a última das quais dentro do próprio aeroporto”, apontou o ministro Augusto da Silva Tomás, garantindo que também está em curso a aquisição de novo material circulante.

Os CFL transportaram em 2014 quase 3,5 milhões de passageiros, já depois da reabilitação por empresas chinesas, registo que em 1973 era de 946.066.

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