O Presidente dos angolanos do regime, igualmente Presidente dos angolanos do MPLA (são os mesmos), ordenou hoje – tal como tem feito ao longo dos 36 anos que leva de poder – aos cidadãos para que tenham fé num “futuro melhor”, apesar das dificuldades económicas e financeiras que o país, não os donos do país, atravessou este ano.

Por Orlando Castro

J osé Eduardo dos Santos, que é igualmente Titular do Poder Executivo, dirigiu-se (como é prática em países que são Estados de Direito Democrático, que não é o caso) aos seus compatriotas, procurando nesta mensagem de fim de ano dar a entender que somos todos seus compatriotas. Todos, os de primeira e os de segunda.

“Falamos durante muito tempo na diversificação da economia, mas fizemos pouco, mesmo assim mais vale começar tarde do que nunca começar”, disse José Eduardo dos Santos, só faltando recordar que não tem responsabilidades no assunto, pese o facto de estar no poder há 36 anos e o seu partido há 40.

Segundo o Presidente do MPLA, o povo angolano já venceu desafios mais complicados e difíceis do que os actuais, “porque agiu sempre com confiança em si mesmo e com determinação. Assim devemos continuar”.

É verdade. Assim devemos continuar. Como? Mantendo – como nos últimos 40 anos – um reino esclavagista em que a esmagadora maioria dos escravos trabalha para o seu dono, ou seja, para os altos dignitários do regime, encabeçados pelo “querido líder” José Eduardo dos Santos.

“O país está a viver um momento difícil, em virtude da diminuição das receitas provocadas pela baixa do preço do petróleo no mercado internacional, mas temos que ajustar os nossos programas e planos para enfrentar com sucesso o próximo ano”, referiu o “escolhido de Deus”, inspirado pela certeza – pensa ele – de que os escravos com barriga vazia nunca se revoltarão.

O chefe de Estado, como se nada tivesse a ver com o descalabro do país (36 anos de poder é pouco, convenhamos) exigiu maior celeridade de intervenção nos sectores da agricultura, pescas, turismo, indústria da madeira, alimentar, ligeira e mineira, para aumentar as exportações e reduzir as importações com o aumento da produção local e do comércio.

É caso para perguntar: Estes sectores já existiam ou foram apenas descobertos agora? Pois é. Sempre existiram. Até 2002 a culpa foi de Jonas Savimbi porque estava vivo e a lutar. Depois a culpa passou a ser de… Jonas Savimbi porque morreu e deixou de lutar.

Para que todo o processo decorra “sem perturbações”, na visão divina do mais alto representante de Deus na Terra, reiterou a necessidade “indispensável” de melhorar a gestão das finanças públicas e melhorar e reforçar também a segurança e a ordem interna.

“É preciso manter o país em paz e com estabilidade, consolidar a democracia e as instituições do Estado e garantir a liberdade de criação e expressão, para que a construção do bem-estar social seja obra de todos”, frisou.

Embora seja antiga a veia anedótica de José Eduardo dos Santos, só nos últimos anos ela se revelou em toda a sua pujança. Repita-se a afirmação para ver o alcance mundial da piada: “É preciso manter o país em paz e com estabilidade, consolidar a democracia e as instituições do Estado e garantir a liberdade de criação e expressão, para que a construção do bem-estar social seja obra de todos”.

Mantendo o registo anedótico, o dono reigime e da reipública virou-se para a juventude, considerando-a importante, defendendo que os jovens sejam dotados de capacidades que lhes permitam alargar os seus horizontes e prepará-los para enfrentar a realidade da vida e que possam contribuir para a harmonia e coesão social.

Não se referia, obviamente a todos os jovens. Apenas aos do regime, aos do MPLA. Os outros, os que teimam em pensar fora da verdade oficial, estão condenados à nascença.

“É necessário continuar a cultivar no espírito das novas gerações a ideia de que um cidadão, que é naturalmente portador de direitos e deveres constitucionalmente consagrados, deve valer por aquilo que ele é e não apenas por aquilo que do ponto de vista material possui ou ostenta”, referiu.

Não custa a acreditar que, no contexto actual dos jovens activistas presos, ao dizer tudo isto que contraria o seu ADN, José Eduardo dos Santos tenha tido um orgasmo antropofágico. É um direito que, como qualquer ditador, está ao seu alcance.

Mais uma vez, José Eduardo dos Santos quer dar-nos lições sobre aquilo que simplesmente desconhece, não quer conhecer e manda matar quem conhecer: ética, democracia, verdade, moral e liberdade.

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