Em 1975, quando saímos de Angola e fizemos parte do grupo de Retornados, sem o sermos, muitas famílias de Angola e de outras ex-colónias portuguesas passaram por muitas dificuldades económicas.

Por José Filipe Rodrigues (*)

N essa ocasião, fomos residir num alojamento de estudantes, maioritariamente oriundos de África, com uma diversidade muito grande na cor da pele, mas com uma cultura que não permitia qualquer discriminação negativa por esse facto. Todos nós tínhamos alcunhas por que eramos conhecidos, mais do que pelos nossos nomes próprios.

Um dia a mãe do Dentifrique telefonou, pretendendo conversar com o filho. Pediu que lhe facilitassem a comunicação designando-o pelo nome próprio. A Assistente de Acção Educativa teve dificuldade em identificá-lo. A mãe do Dentifrique usou o argumento da cor da pele, na tentativa de que a senhora percebesse mais facilmente quem era o Dentifrique: é um rapaz preto.

A primeira reacção da Dona Olímpia foi afirmar que não existiam pretos a residirem naquele Centro. Depois de muito pensar chegou à conclusão que, de facto, existiam indivíduos de raça negra no grupo, mas esse nunca foi factor de diferenciação.

No início do corrente ano lectivos fomos à escola do meu rapaz para a apresentação dos professores. Quando regressámos a casa, a mãe do meu rapaz quis referir-se à professora de Estudos Sociais, tentando diferenciá-la como a professora “chinesa”. Ela tem ascendência num outro país do oriente, não a China.

Imediatamente o meu rapaz num gesto de revolta e protesto afirmou: isso é racismo, não esperava isso de um adulto! Eu fiquei muito orgulhoso com a resposta e lembrei-me do episódio do Dentifrique.

Nas duas últimas eleições presidenciais nos EUA votei Obama, por concordar com a maioria dos valores defendidos pelo candidato. Houve quem, pateticamente, resolvesse usar o argumento da cor da pele para criticar ou apoiar o Presidente. Pobres de espírito!…

Os dirigentes do governo anterior e do governo actual de Portugal escolheram para ministras da Justiça duas mulheres nascidas no país da minha origem. Ninguém veio a público afirmar, defender ou propagandear que a anterior ministra (Paula Teixeira da Cruz) é uma cidadã portuguesa, oriunda de Angola, caucasiana… A única diferença, abrangente, é de que a anterior é Kacolete, como eu, e a actual (Francisca Van-Dúnem) é Kamundonga e, felizmente para Portugal e, infelizmente para o Reigime Angolano que a escorraçou, é, profissional e humanamente, muito competente.

O que a senhora poderá fazer? Não sei. Espero que a Kamundonga vá complementar e melhorar os aspectos positivos das decisões tomadas pela sua antecessora Kacolete, sem se envolver em linguagens e confrontação espalhafatosa e grosseira que, infelizmente, caracterizam os principais actores políticos do clubismo partidário, degradantes e atentatórias contra a inteligência e as sinergias da coabitação, catalisadora de discriminações e “aguetamentos”.

Nos últimos tempos assistimos à construção de um muro, não de Berlim mas de Berlém, em que os partidos mais à Esquerda, grandes perdedores em eleições, tentam solidificar os alicerces, com os partidos mais à direita a facilitarem ou a incentivarem essa construção. (É do conhecimento de todos nós que o PCP foi contra o derrube do Muro de Berlim e continua a viver no luto provocado por essa demolição.)

Convém relembrar que uma das principais razões porque a actual ministra da Justiça tem uma carreira profissional brilhante, em Portugal e não em Angola, deve-se ao facto de, também ela, ter sido vítima das incoerências do PCP e da repressão e criminalidade do seu clone em Angola, o MPLA. O PCP diz agora ser parte integrante da “maioria parlamentar” sem abdicar dos dogmas bolorentos onde se alicerça.

O meu rapaz, há três ou quatro anos, foi homenageado, na escola, com um diploma de “elevado espírito de cidadania e defesa do bem comum”. Ele não percebeu o motivo porque a Directora lhe atribuiu esse diploma. Relembraram-lhe que tinha ajudado um colega que tivera um acidente, estava a sangrar, e ele transportou-o para que pudesse receber assistência médica.

O meu “gafanhoto”, depois de muito pensar, lembrou-se do acidente mas não percebeu por que motivo isso era razão suficiente para a atribuição de um diploma de mérito. O seu gesto foi perfeitamente natural e normal.

Muitas vezes, temos bastante para aprender com as crianças.

(*) Engenheiro; Mestre em Gestão de Empresas; Terapeuta em Pediatria, Geriatria e Psiquiatria; Poeta e Contista; natural do Huambo e a residir nos EUA.

Foto: Francisca Van-Dúnem, nova ministra da Justiça de Portugal

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