O diferendo entre Angola e Portugal a propósito de um problema que até não é novo (há um ano que a acusação de corrupção contra Manuel Vicente já andava a gerar picardias por parte do regime totalitário do MPLA), movimenta os ideólogos do regime de José Eduardo dos Santos.

Por Orlando Castro

No horizonte perfilam-se duas teses. Ou Portugal pede desculpas e trata (pouco importando o método, a razão ou o enquadramento) de arquivar o processo contra o vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente, ou o primeiro-ministro português, António Costa, só pisará solo angolano quando sua majestade José Eduardo dos Santos abandonar o poder.

Embora pouco falada em termos públicos, os ideólogos de Eduardo dos Santos têm em cima da mesa uma terceira via que, para além de levar – como tanto gostam de dizer – os “ex-colonialistas” ao tapete, serviria para meter na ordem todos os que, internamente, esfregam as mãos de contentes porque este diferendo mostra à saciedade o carácter totalitário do regime.

Essa terceira via seria manter oficialmente (oficiosamente ele sempre lá estará) José Eduardo dos Santos no poder, fazendo-o regressar a cabeça-de-lista do MPLA às eleições previstas para Agosto (fortificando assim a guerra contra Portugal) e, ao mesmo tempo, fazendo ruir a esperança da Oposição que vê a falta de carisma de João Lourenço como uma rara oportunidade para derrotar o MPLA.

Mas será possível fazer tudo isso até Agosto? Esta é a questão levantada pelos mais próximos membros do núcleo duro de José Eduardo dos Santos. Se não for, explicam outros, há sempre a possibilidade de adiar as eleições alegando, é claro, a crise provocada pela “traição” das autoridades portuguesas.

Aliás, a acusação de corrupção feita pelo Ministério Público português a Manuel Vicente não parece (até porque, corrobore-se, nem é nova) suficiente para o alarido que o regime está a fazer. Assim sendo, são cada vez mais os observadores a entender que o MPLA está apenas a aproveitar a situação para fazer mais uma das suas jogadas que, ao longo dos 41 anos de independência, ajudaram à sua manutenção no poder.

Como o Folha 8 escreveu no passado dia 26, sob o título “Vale tudo para pôr Portugal e a oposição (interna) na ordem”, perante o estertor do seu regime é bem possível que José Eduardo dos Santos faça uma última tentativa para o manter vivo. Essa tentativa pode passar por declarar o corte de relações com Portugal.

De facto, a acusação de corrupção feita pelo Ministério Público de Portugal ao vice-Presidente da República, Manuel Vicente, pode ser uma excelente botija de oxigénio. Esta “medicação” foi testada numa dose experimental com o impedimento da visita da ministra portuguesa da Justiça, Francisca Van Dúnem, e terá dado – segundo os kimbandas do reino – excelentes resultados.

Através desta metodologia terapêutica, José Eduardo dos Santos poderá justificar tudo o que lhe apetecer, numa espécie de reedição (revista e adaptada) do que fizera com Jonas Savimbi. Ou seja, pode justificar uma crise grave que permita – entre outras coisas – adiar as eleições previstas para Agosto e, também, dizer aos acólitos do partido que, para pôr um fim definitivo aos resquícios do colonialismo português, terá de ser mesmo ele a ser o cabeça-de-lista do MPLA.

Quem melhor do que José Eduardo dos Santos para acabar com a “cumplicidade criminosa” de alguns “sectores de Portugal” na guerra civil e com a “incompreensão absurda” portuguesa e europeia quanto ao seu regime?

“Com a crise do petróleo o país foi devastado. Lamentavelmente, com a cumplicidade criminosa de sectores em Portugal e na Europa que preferem continuar a ter uma Angola fraca a uma Angola igual entre as nações do Mundo, somos obrigados a cortar relações”, dirá um dia destes o Pravda do regime, citando o Presidente da República.

José Eduardo dos Santos recordará que, em 2002, o país precisava do apoio dos doadores europeus, mas que mais uma vez Portugal se pôr de fora, razão pela qual o regime teve de apostar numa parceria com a China, para a reconstrução nacional.

“As autoridades angolanas precisavam do cumprimento das promessas feitas pelos doadores internacionais em Bruxelas, mas essas foram-lhes recusadas pelos mesmos que criticam hoje o facto de Angola querer fazer o seu caminho sozinha. Quando as portas são fechadas — como hoje volta a acontecer — como não seguir pela alternativa que sobra, a de caminhar caminhando”, questiona sua majestade o rei.

“Hoje as atenções estão viradas para o processo de reforço das instituições do Estado democrático de direito e de diversificação económica. Os angolanos estão outra vez a arregaçar as mangas, mas novamente contam com a incompreensão absurda de Portugal”, dirá – provavelmente na primeira pessoa – o presidente nunca nominalmente eleito e há 38 anos no poder.

Perante todo este cenário, logo surgirá uma enorme onda de fundo a pedir a continuidade de José Eduardo dos Santos, reconhecida que será a certeza de que não há alternativa de poder no país.

“Os dirigentes portugueses não se coíbem de mentir ao seu próprio povo sobre a realidade angolana e afirmam abertamente que pugnam pelo isolamento internacional do Governo angolano, como se houvesse uma alternativa ao actual poder em Angola que não fosse mais um aventureirismo político”, explicará José Eduardo dos Santos.

E tem razão, reconheça-se. Quando se tem um “querido líder” que foi “escolhido de Deus”, que tem poderes divinos, que é o mais alto representante de Deus em (pelo menos) Angola, que está muito, mas muito mesmo, acima dos seus pares (caso de Nelson Mandela), que só tem rivais – embora a grande distância – como Teodoro Obiang ou Kim Jong-un, não há mesmo alternativa.

Na verdade o regime de José Eduardo dos Santos já está em campo. O seu Pravda privativo, conhecido como “Jornal de Angola”, publica o comunicado do MPLA em que se critica Portugal, afirmando que “custa ver tanta falta de vergonha”. Embora se estivesse a ver ao espelho, o autor do texto diz que essa falta de vergonha tem a ver com a acusação da Justiça portuguesa contra o impoluto, virgem e honorável vice-presidente angolano, Manuel Vicente.

No artigo em questão, o Pravda realça o que o patrão e patrono manda, ou seja a “justeza da nota de protesto” que o Ministério das Relações Exteriores angolano emitiu sobre o “modo como as autoridades portuguesas divulgaram um suposto caso de Justiça” envolvendo o vice-Presidente da República, Manuel Vicente.

“A maneira leviana como as autoridades portuguesas ‘permitiram’ a fuga de informação que levou para a imprensa lusa esta ‘notícia’, é a confirmação daquilo que aqui já havia sido dito sobre a existência de uma campanha internacional especialmente orquestrada para denegrir a imagem de Angola e dos seus principais dirigentes neste ano de eleições”, lê-se no artigo.

“Apesar de estarmos preparados para isso, a verdade é que nos custa ver tanta falta de vergonha, sobretudo vinda da parte daqueles que se dizem nossos amigos”, diz o comunicado do MPLA, versão artigo de jornal. Esclareça-se que quando escrevem “nossos amigos” se referem aos amigos do regime, do MPLA, e não dos angolanos.

Este diferendo entre Angola e Portugal, entre uma ditadura e uma democracia, entre um regime unipessoal e esclavagista e um Estado de Direito, pode indiciar também que algo de mais dramático pode estar a ser preparado pelo MPLA.

Para além das alternativas já aduzidas, o “crise” com Portugal pode ser o motivo ideal para, internamente, o regime arrasar com os opositores, culpando-os de serem “apoiantes dos interesses estrangeiros”, “beneficiários de uma nova colonização” e – no caso – “coniventes com as afrontas de Portugal à soberania angolana”.

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