A UNITA disse hoje que uma “sobreposição” de eventos provocou a indisponibilidade do complexo que possui nos arredores de Luanda para acolher, como estava anunciado, uma conferência de imprensa promovida pelos 17 activistas condenados por suposta e nunca provada rebelião.

A informação foi prestada pelo porta-voz da UNITA, Alcides Sakala, depois de os 17 activistas terem anunciado o adiamento do evento, por não ter sido autorizada a utilização do complexo Sovsmo, nos arredores de Luanda, propriedade do maior partido da oposição angolana, contrariamente ao previsto anteriormente.

Dizem os activistas: “As diligências da equipa de apoio levaram-na a contactar membros da mais alta estrutura da UNITA, nomeadamente, Victor Hugo, Adriano Sapinala, Massanga Savimbi e outros, (…) tendo estes dito que os trabalhos podiam avançar de forma normal, (…)pelo que muitos dos meios de comunicação social, nacionais e estrangeiros, já confirmaram presença”.

“Houve uma sobreposição de eventos para o mesmo dia, mas foi proposta uma alternativa. De outra forma seria um contra-senso, porque ainda há pouco tempo aquele local recebeu uma iniciativa de apoio para com estes jovens”, recordou Alcides Sakala.

O activista e investigador universitário Nuno Dala disse hoje que o grupo foi confrontado com a indisponibilidade do complexo, já depois de acertada a cedência.

“Infelizmente, ontem [segunda-feira], um responsável da cúpula do partido UNITA passou-nos uma informação a desconfirmar o que já tinha sido confirmado. O nosso entendimento é que deve ter havido alguma ordem superior, não conseguimos ver outra razão para alterar a resposta favorável anterior”, disse o activista, um dos 17 jovens detidos a 20 de Junho de 2015 e condenados a 28 de Março último a penas entre 2 anos e 3 meses e os 8 anos e meio de prisão.

Estes 17 jovens começaram a cumprir pena, também por suposta associação de malfeitores, no final de Março e foram libertados a 29 de Junho, na sequência de um ‘habeas corpus’ apresentado pela defesa.

De acordo com Nuno Dala, activista que durante o julgamento esteve cerca de um mês em greve de fome, na cadeia, o novo local para a realização desta conferência será anunciado nos próximos dias.

A explicação da UNITA (“sobreposição” de eventos) parece ser uma forma de tentar tapar o Sol com uma peneira. Fontes do Galo Negro contactadas pelo Folha 8 mostram-se “desiludias” com esta posição do seu partido, admitindo algumas que “há algo mais por trás desta explicação”.

“Os activistas receberam luz verde para avançarem porque alguém da UNITA lhes confirmou a cedência do espaço. Este episódio deixa todos mal vistos e permite que se especule sobre a existência de pressões por parte do regime”, afirmou ao F8 um ex-dirigentes da UNITA.

O evento, sob o lema “Unidos Pela Cidadania, Liberdade e Construção do Futuro”, servirá para a “apresentação pública da versão dos factos relacionados com o encarceramento bárbaro, ilegal e as sistemáticas violações dos Direitos Humanos”.

Os activistas prometem “narrar as peripécias” que passaram desde a detenção, julgamento, que decorreu desde Novembro de 2015, condenação e a actual liberdade provisória, sobre termo de identidade e residência.

Este grupo recorda que um outro activista, Francisco Gomes Macampa ‘Dago Nível Intelecto’, continua na prisão, a cumprir uma pena de 8 meses de cadeia. Foi condenado em julgamento sumário a 28 de Março, depois de conhecida a sentença aplicada então aos 17 activistas, por ter gritado na sala de audiências que aquele julgamento era uma “palhaçada”.

Na última sessão do julgamento dos 17 activistas, em Março, o Ministério Público deixou cair a acusação de actos preparatórios para um atentado ao Presidente e outros governantes, apresentando uma nova, de associação de malfeitores, sobre a qual os activistas não chegaram a apresentar defesa, um dos argumentos dos recursos.

Os activistas garantiram em tribunal que defendiam acções pacíficas e que faziam uso dos direitos constitucionais de reunião e de associação.

A generalidade destes activistas esteve em prisão preventiva entre 20 de Junho e 18 de Dezembro e depois em prisão domiciliária, até 28 de Março. Nesse dia foram condenados a prisão, pena que começaram de imediato a cumprir, por decisão do tribunal, apesar dos recursos interpostos pela defesa.

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