Várias testemunhas oculares acusam o governador da província do Cunene, Kundi Paihama, de ter ameaçado agredir um dos mais conhecidos párocos angolanos, Pio Wacussanga. Afinal tudo está como tem estado nos últimos 41 anos. E não adiantou mudar do Huambo para o Cunene.

Por Orlando Castro

De facto, Kundi Paihama continua igual. Nem a idade ajudou. Recorde-se que quando, no dia 12 de Janeiro de 2008, “botou faladura” num comício na sede do Município da Matala, o actual governador do Cunene disse: “Durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”.

Os cães ficaram agradecidos e retribuem: “O nosso dono é muito muito bem mandado. Obediente, brincalhão, carinhoso, esperto – só lhe faltava ladrar. Por enquanto”.

Recordemos outros episódio da história, verídica, de Kundi Paihama. Sabemos, é claro, que alimentar a memória é um acto nobre embora, reconhecemos, possa significar um caso de rebelião ou um atentado contra a segurança do Estado.

Discursando em Agosto de 2012 no Estádio Nacional de Ombaka (Benguela) o então ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria (do MPLA), general Kundi Paihama, disse que os que lutarem contra o MPLA e contra José Eduardo dos Santos “vão ser varridos”.

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Kundi Paihama não brinca em serviço. Quem se meter com ele leva pela medida grossa.

E Kundi Paihama não mente. Foi assim em 2012 e será assim em 2017. O regime, ou seja o MPLA, há muito que começou – embora de forma mais subtil – a pôr a razão da força acima da força da razão, mostrando que só é possível haver paz e democracia em Angola se tudo continuar na mesma.

Ao contrário do que acontecera em 2008, o regime tinha em 2012 (tal como terá em 2017) indicações fidedignas de que os mortos se recusariam a votar no MPLA. Isso não foi, não é nem será, impeditivo de uma solução alternativa, testada com êxito nas anteriores eleições, em que em alguns círculos eleitorais apareçam mais votos do que votantes.

Se se estivesse a falar de um Estado de Direito e de uma comunidade internacional honesta, seria criticável que o partido que governa Angola desde 11 de Novembro de 1975, que tem como seu líder carismático e presidente da República alguém que está no poder há 37 anos, sem ter sido nominalmente eleito, sentisse necessidade de usar a intimidação violenta para ganhar eleições.

Mas como nada disso se passa, tudo vai continuar a ser feito por medida e à medida do MPLA. É para isso que as riquezas existem.

E porque o regime só reconhece a existências de um único deus, José Eduardo dos Santos (que não é o mesmo do padre Pio Pio Wacussanga), não admite que existam dúvidas, não aceita que a sua liberdade termine onde começa a do Povo. Vai daí, intimida, ameaça, espanca, rapta e mata quem tiver a veleidade de contrariar o “querido líder”.

Como dizia o bispo emérito de Cabinda, Paulino Madeca, “quando um político entra em conflito com o seu próprio povo, perde a sua credibilidade, torna-se um eterno ditador”. É o caso de Eduardo dos Santos.

Por alguma razão Kundi Paihama, tal como os restantes sipaios (mesmo que com a patente de general) do regime, continua a pedir aos militantes do seu partido para que controlem “milimetricamente” todas as acções da oposição, para não serem “surpreendidos”.

E da oposição são todos os que pensam de maneira diferente. O padre Pio Wacussanga sabe disso. Sabe que se arrisca a chocar contra uma bala perdida, eventualmente disparada do túmulo por Jonas Savimbi.

Na senda do que tem feito ao longo dos anos, o MPLA acusa a Oposição (designação, corrobore-se, que abarca todos os que não são do MPLA) de enveredar por “manifestações violentas e hostis, provocando vítimas, inventando vítimas, incentivando a desobediência civil, greves e tumultos, provocando esquadras e agentes e patrulhas da polícia com pedras, garrafas e paus”.

Certamente graças ao árduo trabalho de Kundi Paihama, o MPLA dizia, diz e dirá que tem em seu poder “informações secretas que apontam que a UNITA e outros opositores estão prestes a levar a cabo um plano B”.

Plano que previa, prevê e preverá, segundo os etílicos delírios dos dirigentes da ditadura angolana, “uma insurreição a nível nacional, tipo Líbia, Egipto, Tunísia e Síria”, sendo as províncias de Luanda, Huambo, Huíla, Benguela, Cunene e Uíge as visadas.

Sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, a possibilidade de alguma mudança, o regime dá logo sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições.

Para além do domínio quase total dos meios mediáticos, tanto nacionais como estrangeiros, o MPLA aposta forte numa estratégia que tem dado bons resultados. Isto é, no clima de terror e de intimidação. E para esse papel, reconheça-se, não há ninguém melhor do que Kundi Paihama.

Aliás, um dia destes vamos ver por aí Kundi Paihama afirmar que todos aqueles que têm, tiveram, ou pensam ter qualquer tipo de armas são terroristas que devem “ser varridos”. E o pensamento, tal como a palavra (acredite padre Pio Wacussanga) , enquadram-se na definição oficial de “armas”, pelo que quem as usar são obviamente terroristas.

Pio Wacussanga – o terrorista?

E, na ausência de melhor motivo para aniquilar os adversários que, segundo o regime, são isso sim inimigos, o MPLA poderá sempre jogar a cartada que tem na primeira linha das suas opções e que é tão do agrado das potências internacionais, e que é a de que há perigo de terrorismo, de guerra civil.

O padre Pio Wacussanga está na mira do general Kundi Paihama.

O padre Pio Wacussanga está na mira do general Kundi Paihama.

Se calhar Kundi Paihama já colocou como líder terrorista o padre Pio Wacussanga…

Kundi Paihama não tardará (por ele já o teria feito) a redescobrir mais uns tantos exércitos espalhados pelas terras onde a UNITA tem mais influência política, para além de já ter dito que quem falar contra o MPLA vai para a cadeia, certamente comer farelo.

Tal como mandam os manuais, o MPLA começa a subir o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenir os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo.

Além disso, nos areópagos internacionais vai deixando a mensagem de que ainda existem por todo o país bandos armados que precisam de ser neutralizados.

Um dias destes, tal como disse que os jovens activistas queriam que a “NATO atacasse Angola”, ainda vamos ver Luvualu de Carvalho defender a tese de que esses bandos armados se reúnem todas as noites junto ao túmulo de Jonas Savimbi para receber instruções…

Aliás, como também dizem os manuais marxistas, se for preciso o MPLA até sabe como armar uns tantos dos seus “paihamas” para criar a confusão mais útil. O caso dos jovens activistas foi um dos paradigmas dessa estratégia.

Numa entrevista à LAC – Luanda Antena Comercial, no dia 12 de Fevereiro de 2008, era então ministro da Defesa, Kundi Paihama, levantou a suspeita de que a UNITA mantinha armas escondidas e que alguns dos seus dirigentes tinham o objectivo de voltar à guerra.

Kundi Paihama, ao seu melhor estilo, esclareceu, contudo, que os antigos militares do MPLA, “se têm armas”, não é para “fazer mal a ninguém” mas sim “para ir à caça”. Ora aí está. Tudo bons rapazes.

Quanto aos antigos militares da UNITA, Kundi Paihama disse que a conversa era outra e lembrou que mais cedo ou mais tarde seria preciso falar sobre este assunto. Na entrevista à LAC disse textualmente: “Ainda hoje se está a descobrir esconderijos de armas”.

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