Na quarta-feira (21-01.15), a polícia chegou em Viana, desalojou pessoas e fez avançar os bulldozers para destruir as casas dos desalojados.

Por António Setas

F eito isso, passado algum tempo, foram sumariamente julgadas e condenadas algumas das mulheres que se colocaram pacificamente diante da Administração Municipal de Viana reclamando o seu direito a uma compensação pelas habitações demolidas. A resposta foi prendê-las para serem julgadas por terem cometido o crime de se juntarem para protestar.

O julgamento foi uma brincadeira pura, ou seja, palhaçada, pois não se fazia presente o acusante nem sequer havia um número de processo, que começou quando eram aproximadamente 14h e onde começo por se identificar cada réu (havia um senhor no grupo). Havia um advogado de defesa e o procurador público.

Era a nossa justiça no que ela tem de mais reles, na asquerosa exploração da ignorância do povo, para melhor poder amesquinha-lo.

Um julgamento à moda de cá

O julgamento propriamente dito foi uma autêntica palhaçada. Identificados os arguidos, a juíza perguntou pelo acusante, ao que o escrivão respondeu que este não tinha sido notificado. Não faz mal, “podia avançar-se com o processo”, mesmo sem que este tivesse um número nem, tão-pouco, acusante.

Seguiram-se duas horas de interrogatórios e no final a juíza leu a sentença: “45 dias de prisão em pena suspensa a pedido do Ministério Público”. Tinham é de pagar uma caução para sair em liberdade, mas a senhora juíza não disse quanto era. Ficaram à espera e entra então o escrivão para anunciar o preço estipulado para a caução: 60 000 AKZ/cada pessoa! “Aiué, mamã!, ondé que vou arranjar esse kumbú?!”

De assinalar que no interrogatório preliminar, enquanto se aguardava pelo acusante fantasma, as senhoras e o homem solitário foram questionados acerca dos seus rendimentos mensais. Umas respondiam “7 mil”, outras “não tem, porque depende dos clientes”, o homem disse que não sabia de assinalar que no interrogatório preliminar, enquanto se aguardava pelo acusante, foram questionadas acerca dos seus rendimentos mensais. Umas respondiam “7 mil”, outras “não tem, porque depende dos clientes”.

Alguns deles agradeceram o Ministério Público. Ora aí é que está o mal, essa humildade atiçada pelo medo de sofrer ainda mais, é o maior mal que assola o povo de Angola.

Lamentos do mwangolé

Uma tirada do baú, sempre a quente!, do desaparecido Julius Consules. «Um governo que privilegia as empresas estrangeiras, e delas é sócio: Faz contratos que nunca são conhecidos do domínio público, apesar de publicitar ao mundo que é um país democrático, eleito por esmagadora maioria, sempre em eleições livres, justas, democráticas e transparentes. Uma oposição que declara fraude eleitoral, mas que depois se acoita no covil da assembleia nacional, a todos os ventos anunciada democrática. Os trabalhadores nacionais são obrigados a salários de escravos, quando os recebem, nas modernas fazendas da escravatura a que os seus capatazes chamam de empresas. O FMI de vez em quando desce à imprensa e comunica que a economia, o tal PIB, está a subir, todos os anos sobe. Sindicatos estão corrompidos, obedientes aos fazendeiros. E quando alguns escravos ousam levantar-se contra as infames condições, pois há sempre alguém que diz não, chamam-lhes de tudo, até de terroristas. E logo carregam sobre eles forças especiais com: cães, cavalos, tanques, helicópteros, tudo, que depois de caçados e bem torturados levam-lhes para prisões desconhecidas, onde o seu desaparecimento é mais que certo – lançados de avião na maré-alta? -. Dantes tinham um hino e uma bandeira, agora já não é necessário porque foram substituídos pelas bandeiras e hinos do grande aparato militar.»

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