A democracia contemporânea vive-se tempos novos. O que era, já não é, mas não se sabe, ainda, o que será. Contudo, há já um vislumbre perigoso que ameaça a sociedade democrática e liberal em que se viveu nos últimos cinquenta anos.
Por Rui Verde
A democracia liberal, embora, com raízes num ideal abstrato da iluminação de algumas elites do século XVIII e XIX, e também resultado de muitas lutas burguesas ou populares, desde logo o ano revolucionário de 1848, está profundamente enraizada em condições materiais específicas, inseparáveis da industrialização e da transformação tecnológica que marcou a modernidade.
A máquina a vapor, a fábrica mecanizada e a expansão dos mercados globais criaram uma nova relação entre capital, trabalho e Estado. A produção industrial exigia massa laboral disciplinada, alfabetizada e politicamente integrada, e essa necessidade material abriu espaço para a extensão gradual de direitos políticos. A democracia foi, em larga medida, um subproduto funcional da industrialização. Ao contrário, do que muitos pensaram na altura, a Revolução Industrial, não afastou a pessoa nem a necessidade do trabalho, pelo contrário, exigiu mais.
Karl Marx intuiu este mecanismo com clareza: a máquina não eliminava o trabalhador, mas dependia dele para a extração da mais‑valia, expansão a produção e alargamento dos mercados. A fábrica do século XIX não podia prescindir de corpos humanos; precisava de trabalhadores para operar máquinas, manter ritmos produtivos e sustentar a procura agregada. A classe trabalhadora tornou‑se, assim, simultaneamente indispensável e perigosa.
A resposta das elites industriais foi dupla: repressão quando possível, concessão quando necessário. O sufrágio universal, os direitos laborais e a institucionalização da negociação coletiva foram, em parte, mecanismos de estabilização de um sistema económico que não podia funcionar sem o trabalho humano.
Este é o ponto decisivo: a democracia foi, historicamente, em grande parte, uma solução para um problema material. Quando o capital depende do trabalho, o trabalhador ganha poder político. Quando a produção exige cooperação social, a inclusão torna‑se racional. Quando a máquina precisa da pessoa, a pessoa conquista direitos.
Mas a revolução tecnológica contemporânea — marcada pela automação avançada, pela inteligência artificial generativa e pela integração de sistemas de vigilância digital — inverte este equilíbrio histórico.
A automação atual não complementa o trabalho humano: substitui‑o. E, como demonstram Acemoglu, Gitmez e Shadmehr, [Acemoglu, Daron; Gitmez, Alon; Shadmehr, Ali (2026). Automation and Repression. NBER Working Paper nº 35336, June 2026] quando o trabalho deixa de ser necessário, a democracia deixa de ser funcional para as elites, tendo como consequência que “uma maior automação incentiva os capitalistas a apoiar um golpe contra a democracia e a instaurar um sistema repressivo”.
A automação reduz o poder dos trabalhadores, porque diminui a sua capacidade de greve, protesto ou pressão política. Se a interrupção da produção já não depende de corpos humanos, a repressão torna‑se mais barata.
A lógica económica altera‑se: é mais eficiente reprimir do que redistribuir.
A tecnologia permite ainda uma repressão preventiva, através de vigilância algorítmica, análise preditiva e monitorização contínua de comportamentos.
O resultado é um novo tipo de regime: estável, autoritário e tecnologicamente sofisticado, capaz de neutralizar dissidência antes que esta se manifeste.
A democracia, que outrora emergiu como resposta à necessidade de integrar o trabalho humano, enfrenta agora uma tecnologia que dispensa essa integração.
A automação cria excedentes populacionais, fragiliza sindicatos, desarticula movimentos sociais e reduz o custo político de governar contra a maioria.
A IA, ao mesmo tempo, oferece às elites instrumentos inéditos de controlo, desde a vigilância massiva até à manipulação informacional personalizada. O que antes era um pacto social baseado na interdependência transforma‑se numa arquitetura de dominação baseada na irrelevância de grandes segmentos da população.
É neste contexto que livros como The Technological Republic, de Alexander Karp, cofundador e CEO da Palantir Technologies, e Nicholas Zamiska, [Karp e Zamiska, The Technological Republic (The Bodley Head, 2025)]se tornam reveladores.
O manifesto de Karp propõe uma aliança estreita entre Estado, forças armadas e empresas tecnológicas, defendendo que a sobrevivência do Ocidente depende da supremacia em IA e software.
A sua visão — que inclui rearmamento, conscrição militar e uma redefinição civilizacional baseada na força tecnológica — representa uma fusão explícita entre racionalidade técnica e poder político.
A aproximação entre poder político e poder tecnológico não é teórica: manifesta‑se em práticas concretas. A cooperação entre governos e empresas de IA, a militarização do software e a crescente dependência do Estado de plataformas privadas para vigilância, análise e controlo social são sinais de uma reconfiguração profunda da soberania.
A aliança entre líderes políticos e grandes empresas tecnológicas — como se observou no início do segundo mandato de Donald Trump, com a tentativa de integrar empresas de IA e defesa num projeto de poder centralizado — ilustra a tendência global: a tecnologia deixa de ser instrumento e torna‑se infraestrutura de dominação.
O que está em causa é a erosão da democracia, e a emergência de um novo paradigma político: regimes que não precisam de legitimidade democrática porque não precisam do povo.
A automação e a IA criam condições materiais para um autoritarismo eficiente, barato e socialmente estável.
A história que outrora empurrou as elites para a inclusão agora empurra‑as para a exclusão.
Se a democracia nasceu, em parte, da necessidade de integrar o trabalho humano, o seu declínio nasce da possibilidade de o dispensar.
A tecnologia que prometia emancipação pode, se orientada para substituir e controlar, tornar‑se o motor de uma nova era de dominação.
A questão central do nosso tempo é política e não técnica: quem controla a automação e com que finalidade?
Sem uma resposta democrática a esta pergunta, a lógica material da tecnologia conduzirá inevitavelmente a regimes mais repressivos, mais opacos e menos dependentes da vontade popular. No termo do percurso, ao fim da democracia.
