A Fundação Mo Ibrahim publicou hoje o Índice Ibrahim de Governação Africana (IIAG) 2026, a avaliação mais abrangente do desempenho e das tendências da governação pública nos 54 países africanos. A Governação Geral agrega as pontuações de quatro dimensões principais (Segurança e Estado de Direito; Participação, Direitos e Inclusão; Bases para as Oportunidades Económicas; e Desenvolvimento Humano), abrangendo 16 subcategorias e 96 indicadores, construídos a partir de dados provenientes de 51 fontes.
Abrangendo a década de 2016 a 2025, o Índice revela que a Governação Geral em África registou melhorias, apesar da acumulação de choques globais, embora estes progressos continuem a ser desiguais e frágeis.
O progresso ao nível continental é impulsionado pelas melhorias nas dimensões económica e do desenvolvimento humano (Bases para as Oportunidades Económicas e Desenvolvimento Humano), com avanços significativos nas áreas das Infra-estruturas, da Saúde e da Educação.
O progresso nas Bases para as Oportunidades Económicas é particularmente notável, tendo-se registado melhorias entre 2016 e 2025 em 44 países, que representam 68% da população do continente.
Este resultado demonstra a resiliência do continente perante os múltiplos desafios enfrentados ao longo da década, como a pandemia de COVID-19, o impacto da guerra entre a Rússia e a Ucrânia no acesso à energia e na segurança alimentar, e a redução histórica da ajuda ao desenvolvimento.
Os maiores progressos registam-se nas Infra-estruturas, a subcategoria que mais melhorou entre as 16 avaliadas pelo Índice. Os avanços são simultaneamente generalizados (52 países — todos, à exceção da Nigéria e da Gâmbia —, que representam 84% da população do continente) e têm vindo a acelerar ao longo da década.
Estes resultados são impulsionados por melhorias significativas na conectividade móvel, bem como no acesso à energia e à Internet. Seguem-se a Educação, que regista melhorias em 34 países, representando 75% da população do continente, e a Saúde, com progressos em 40 países, que representam 87% da população africana.
No entanto, a continuidade e a aceleração destes progressos continuam condicionadas pela deterioração persistente da segurança, do Estado de Direito e da participação. Tanto a dimensão Segurança e Estado de Direito como a dimensão Participação, Direitos e Inclusão registaram um declínio ao longo da década em 34 e 31 países, respetivamente, que representam 78% e 60% da população africana. Ainda assim, há um sinal positivo: a deterioração da segurança abrandou a partir de 2022, começando a registar-se melhorias em 27 países.
O IIAG 2026 revela também que 25 países, onde vive quase 47% da população do continente, conseguiram registar progressos económicos apesar da deterioração da segurança ao longo da década. No entanto, em média, os progressos nas Bases para as Oportunidades Económicas são mais expressivos nos países onde a dimensão Segurança e Estado de Direito também registou melhorias, como se verifica em 20 países, que representam 22% da população do continente.
No final da década em análise (2025), as Seicheles ocupam o primeiro lugar, e Marrocos entra no top 10, substituindo a Tunísia. Embora continue entre os dez primeiros países (5.º lugar), a África do Sul apresenta uma tendência preocupante de deterioração crescente. Também preocupante é o facto de, em quatro dos países mais populosos do continente — Nigéria, República Democrática do Congo, África do Sul e Sudão —, a Governação Geral ter registado uma deterioração ao longo da década.
No extremo oposto da classificação, Angola e a República do Congo saem dos dez últimos lugares, sendo substituídos pela Líbia e pela Guiné-Bissau. Entretanto, ao longo da década, o Sudão, a República Centro-Africana e a Guiné-Bissau apresentam uma tendência de deterioração crescente. (Lista completa abaixo).
Comentando os resultados, Mo Ibrahim, Fundador e Presidente da Fundação Mo Ibrahim, afirmou: «Os resultados do IIAG 2026 evidenciam a resiliência de África num contexto global difícil. Demonstram também que muitos países conseguem alcançar progressos económicos e no desenvolvimento humano apesar da deterioração da segurança e do Estado de Direito. Mas esta não é uma solução sustentável. Os ganhos económicos e sociais não serão duradouros e serão, em qualquer caso, sempre mais limitados na ausência de progressos na segurança, no Estado de Direito e na participação».
O IIAG 2026 baseia-se em 319 variáveis provenientes de 59 conjuntos de dados publicados por 51 fontes africanas e internacionais. Avalia o desempenho em 16 subcategorias, agrupadas em quatro dimensões: Segurança e Estado de Direito; Participação, Direitos e Inclusão; Bases para as Oportunidades Económicas; e Desenvolvimento Humano.
QUIOSA E A PÓLVORA DO MPLA
No dia 2 de Junho de 2025, Mara Quiosa (vice-presidente do MPLA) defendeu uma África mais próspera e “feita por africanos”, e menos dependente “de outros continentes”, afirmando que Angola está a fazer esse caminho.
Mara Quiosa disse, em declarações à margem do Fórum Ibrahim, em Marraquexe, que “queremos uma África cada vez mais próspera, uma África cada vez mais envolvida e, seguramente, uma África que dependa cada vez menos de outros continentes”.
Mara Quiosa foi convidada a assistir ao evento, cujo tema, “Alavancar os recursos de África para colmatar o défice financeiro”, tinha como contexto a redução da ajuda externa dos Estados Unidos e de países europeus.
Vários dos oradores defenderam a necessidade de os líderes africanos assumirem maior responsabilidade e controlo sobre o desenvolvimento social e económico dos países, usando os recursos naturais e financeiros existentes no continente.
A dirigente do partido no poder desde 1975 em Angola concordou que “é preciso que esta África seja feita por africanos” que deve “deixar de depender de outros continentes”.
“Nós temos muitos recursos naturais, nós temos mais do que recursos naturais, nós temos recursos humanos, temos o capital humano que no fundo é a nossa grande bandeira”, sublinhou.
Segundo Quiosa, Angola tem registado um progresso no sentido de maior auto-suficiência.
“O Governo angolano tem estado a fazer um esforço muito grande, principalmente no âmbito da diversificação da economia. Portanto, a ideia é continuarmos a ter cada vez menos dependência do petróleo, como foi acontecendo durante muito tempo”, exemplificou.
Ao mesmo tempo, o Governo tem estado a investir no aumento da produção nacional, em particular na agricultura, e em infra-estruturas, acrescentou.
“Continuamos a investir cada vez mais em fertilizantes, em terras aráveis, em agricultura mecanizada e com grandes extensões de terra, porque, felizmente, temos um país grande”, referiu.
O desenvolvimento das infra-estruturas rodoviárias, continuou, permitem “o escoamento do produto do campo para a cidade”, facilitando tanto a mobilidade de pessoas como de bens.
O crescimento da agricultura em Angola está não só a possibilitar a exportação para a Europa, América e outros países africanos, como está a reduzir a importação de produtos agro-alimentares, como os ovos, disse.
“O desenvolvimento também passa por isso. É preciso acabarmos ou largarmos um bocadinho a dependência que tínhamos na necessidade de importação de muitos bens”, evidenciou.
De acordo com o relatório “Financiar a África que queremos”, publicado pela Fundação Mo Ibrahim, que organizou a conferência, Angola está entre os três países com maiores encargos no reembolso da dívida externa, superando os 10 mil milhões de dólares (nove mil milhões de euros) por ano.Notícias de Angola
No estudo refere-se que estes compromissos limitam os investimentos públicos em sectores como a saúde, a educação ou a adaptação às alterações climáticas.
A vice-presidente do MPLA lembrou que, ao liquidar a dívida ao Brasil cinco anos antes do prazo, em 2019, Angola demonstrou o esforço que está a fazer neste capítulo para melhorar a credibilidade financeira.
“Eu acho que África e Angola, de uma forma geral, têm estado a dar estes sinais e eu acho que são sinais bastante positivos. Ao pagar as dívidas é um sinal de confiança. É um sinal de que nós somos um país sério e temos estado a honrar os nossos compromissos financeiros internacionais”, afirmou Mara Quiosa.
