Em 2002, calaram-se as armas e Angola respirou fundo. Prometia-se, com a paz, aquilo que durante décadas nos foi negado: a possibilidade de construir sem a sombra da morte, de planear sem o cálculo do medo, de crescer sem pedir licença à guerra. Falava-se de reconstrução, de reconciliação, de um solo finalmente fértil para a realização colectiva. Quase um quarto de século depois, importa perguntar, com a franqueza que a hora exige, que colheita foi essa que a paz nos devolveu.
Por Afonso Real Garcia
O paradoxo é cruel e merece ser nomeado sem rodeios. Quem cresceu nos anos da guerra guarda memórias que desafiam a lógica das estatísticas. Havia privação, havia luto, havia o rumor constante da incerteza; mas havia também o quintal partilhado, o vizinho que era quase parente, o respeito pelo bem comum, a autoridade moral dos mais velhos.
As crianças conheciam o medo, é certo, mas conservavam uma inocência que o ruído do mundo ainda não tinha corrompido. Pertencia-se a um lugar com uma intensidade quase física: o bairro, a rua, a comunidade eram extensões do corpo e da identidade.
Hoje, em plena paz, o país tornou-se asfixiante. O patriotismo, que a guerra forjava por contraste, esvaziou-se na paz como um balão furado, restando a casca de uma retórica que já ninguém sente.
Talvez porque a paz que conquistámos tenha sido, sobretudo, a ausência de tiros, e não a presença de justiça. Silenciaram-se as armas, mas não se reconstruiu o tecido que a guerra rasgou. Trocou-se a solidariedade da escassez partilhada pela competição desigual da escassez administrada; o bem comum cedeu lugar ao expediente individual; o mérito, tantas vezes, ao favor e à proximidade. Um país pode vencer a guerra e perder-se na paz, e é precisamente essa a sombra que hoje nos acompanha.
Daí a hemorragia silenciosa que atravessa as nossas famílias. A emigração deixou de ser excepção para se converter em projecto de vida padrão. Pergunte-se aos jovens do ensino médio o que desejam para si e a resposta, cada vez mais, começa por uma geografia: Portugal, Brasil, Canadá, qualquer lugar onde o esforço pareça reconhecido. Pergunte-se aos estudantes universitários e ouvir-se-á a mesma ladainha, dita já sem drama, com a naturalidade de quem descreve o curso inevitável de um rio. E os quadros formados, médicos, professores, engenheiros, técnicos, aqueles em quem o país investiu anos de formação e esperança, preparam as malas com um misto de culpa e alívio.
O mais perturbador é o que estão dispostos a aceitar. Há licenciados que, lá fora, limpam escritórios, servem mesas, conduzem entregas, aceitam contratos precários que jamais aceitariam em casa. Fazem-no porque a conta é simples e brutal: a precariedade estrangeira, com todas as suas humilhações, ainda oferece mais perspectivas do que a estagnação doméstica.
O país tornou-se profissional e financeiramente estéril, incapaz de absorver, remunerar e reconhecer aqueles que formou. Esta não é uma fuga de aventureiros; é o êxodo racional de quem concluiu que ficar equivale a desperdiçar-se.
Foi neste terreno já minado que caiu, nesta semana, no “Fly Podcast”, a frase da menina Anhesse Tchipoia: emigrar para Portugal seria uma humilhação, por sujeitar os nossos a trabalhos indignos. A reacção foi a que seria de esperar, entre a indignação e o escárnio. Convém, no entanto, resistir tanto à condescendência fácil como ao julgamento severo.
É verdade que a afirmação revela a inexperiência própria da idade. Quem nunca precisou de sobreviver pode permitir-se o luxo da dignidade abstracta; quem tem filhos para alimentar e contas por pagar sabe que a necessidade tem a sua própria moral. Há, na frase, uma generalização que colide com o desespero concreto de milhares de famílias para as quais emigrar não é humilhação, mas dever. Desprezar o sacrifício do emigrante que lava escadas para sustentar os seus em Luanda seria uma injustiça.
Mas seria igualmente injusto reduzir a frase a um deslize juvenil ou até mesmo infantil. Ela toca, ainda que de modo intuitivo, num nervo exposto da nossa soberania. A humilhação, se existe, não está em quem parte para trabalhar, mas no facto de o país não ter conseguido oferecer a esses cidadãos o lugar que a sua formação merecia. Está em ver mentes qualificadas reduzidas à subalternidade externa, em assistir a uma nação que exporta o seu capital humano como quem liquida um património. A menina Anhesse errou, talvez, na pontaria; acertou no alvo. E há algo de profundamente revelador no facto de ter sido uma voz tão jovem a dizê-lo: ela ainda não aprendeu a normalizar o que a nossa geração aprendeu a aceitar.
Porque entre os que partem e os que ficam, não sei quais carregam o fardo mais pesado. Os que permanecem fisicamente debatem-se com um desalento moral que não encontra nome fácil. É um exílio interior: estar em casa e sentir-se estrangeiro, ver o mérito preterido, o esforço desvalorizado, o futuro adiado com a regularidade de um calendário. Vive-se com um pé no país e outro numa saída imaginária, como quem habita uma sala de espera. Há professores que ensinam sem acreditar no que prometem aos alunos; médicos que curam com meios que não curam; jovens que estudam para um mercado que não os espera.
Dizer, perante isto, que falhámos como país não é pessimismo nem derrotismo. É um acto de lucidez cívica. O pessimista desiste de agir; o lúcido nomeia a ferida precisamente porque ainda acredita na cura. A crise que vivemos já não é meramente económica ou política: é existencial e identitária. Quando uma sociedade deixa de ser o horizonte natural dos seus próprios filhos, algo essencial se partiu, e nenhum indicador de crescimento o repara.
Resta, pois, a pergunta decisiva: que fazer? A resposta não cabe em slogans, mas passa por escolhas que só uma vontade colectiva pode tomar. Há que resgatar a coesão social que a guerra, paradoxalmente, preservava e que a paz deixou dissolver. Há que devolver dignidade ao trabalho, garantindo que estudar, esforçar-se e competir lealmente produza reconhecimento e sustento. E há que ir buscar aos valores comunitários ancestrais, o respeito pelos mais velhos, a responsabilidade partilhada, o sentido de pertença, o alicerce moral sobre o qual se ergue qualquer projecto duradouro de nação.
Angola não pode continuar a ser um país de transição, onde se nasce apenas para partir. Um país digno desse nome é aquele onde os seus filhos desejam ficar, não por falta de alternativa, mas por convicção de que aqui vale a pena construir. Enquanto não formos capazes de oferecer essa razão, continuaremos a celebrar a paz nos discursos a lamentá-la nos aeroportos.
