CONSTRUIR O PAÍS ANTES DO TURISMO

Tenho a impressão de que em Angola, estamos a tentar construir a pirâmide do desenvolvimento começando pelo vértice. Fala-se muito do turismo como uma das grandes apostas para diversificar a economia nacional.

Por Lukamba Gato

Não há dúvida de que Angola possui condições excepcionais para desenvolver uma poderosa indústria turística. Temos uma geografia privilegiada com o privilégio de pertencer ao grupo das grandes potências do sector na região, o projecto KAZA. Possuímos uma enorme diversidade cultural, paisagens extraordinárias, rios, quedas de água, praias, parques naturais e um património histórico que poderia constituir uma verdadeira riqueza económica.

Há, no entanto, uma questão que não podemos ignorar: a indústria do turismo não se improvisa.

O turismo é, em grande medida, uma consequência do desenvolvimento económico e social de um país. Não basta construir hotéis, promover destinos ou fazer campanhas para atrair turistas. É preciso criar, primeiro, as condições que permitam que essa indústria funcione.

E essas condições começam, obviamente pelas infraestruturas.

Precisamos de estradas nacionais, provinciais e municipais em condições, (não com buracos ou lama) mas também de vias que cheguem às comunas e às aldeias onde se encontram muitos dos nossos recursos naturais e culturais. Precisamos de facilitar a circulação de pessoas e bens. Precisamos de água, energia, saneamento, comunicações, saúde e segurança.

Precisamos, sobretudo, de pessoas preparadas.

A educação nacional deveria ser um dos maiores investimentos estratégicos do Estado. Não apenas para formar funcionários públicos ou académicos mas para formar uma população capaz de produzir, transformar, empreender e prestar serviços de qualidade.

Um grande destino turístico precisa de guias, cozinheiros, técnicos de hotelaria, agricultores, transportadores, artesãos, gestores, enfermeiros, engenheiros e empresários. Por detrás de cada turista existe uma extensa cadeia económica.

É por isso que agricultura, mineração e indústria não podem ser vistas como sectores separados do turismo.

Uma agricultura forte fornece alimentos de qualidade aos hotéis e restaurantes. Uma indústria nacional transforma matérias-primas e produz equipamentos e bens de consumo. A mineração pode gerar recursos para financiar infraestruturas e investimentos produtivos. Os transportes ligam tudo isto aos mercados.

É assim que se constrói uma economia sustentável, robusta e diversificada.

O turismo deve ser uma das pontas de uma economia que funciona e não um substituto para uma economia que ainda não conseguimos estruturar.

Durante décadas, Angola habituou-se a viver essencialmente das receitas do petróleo. O petróleo permitiu financiar grandes obras e gerar enormes receitas mas não criou, por si só, uma economia nacional suficientemente diversificada, capaz de produzir em larga escala aquilo de que os próprios angolanos necessitam.

Agora fala-se de turismo como uma das alternativas e eu pergunto:

Estamos a construir as bases para que o turismo seja realmente uma indústria nacional ou estamos apenas a procurar uma nova vitrina para apresentar um país que ainda não resolveu os seus problemas estruturais?

O turista não procura apenas paisagens bonitas.

Procura também estradas para chegar até elas. Procura segurança. Procura hotéis e restaurantes com qualidade. Procura água potável e energia eléctrica. Procura serviços de saúde. Procura comunicações. Procura encontrar uma população preparada para o receber e acima de tudo, procura um ambiente de paz e estabilidade.

O turismo é a indústria da paz.

Ninguém desenvolve uma grande indústria turística num ambiente de instabilidade política e social. O turista precisa de confiança para viajar, permanecer e regressar.

Por isso, o desenvolvimento do turismo também exige instituições estáveis, Estado de Direito, segurança, previsibilidade e estabilidade social.

Angola tem tudo para construir uma grande indústria turística mas não devemos confundir potencial turístico com indústria turística.

O potencial é o que a natureza e a história nos deram.

A indústria é aquilo que nós somos capazes de construir.

Aqui está a minha preocupação: talvez estejamos a querer começar a obra pelo topo.

Queremos turismo sem termos ainda assegurado suficientemente as estradas que levam às nossas aldeias. Queremos turistas sem termos resolvido satisfatoriamente os problemas da educação. Queremos hotéis sem termos uma produção agrícola capaz de abastecer regularmente o mercado. Queremos diversificação económica sem termos conseguido reduzir suficientemente a dependência das receitas petrolíferas.

Uma verdadeira estratégia nacional deveria  começar pela base:

Educação. Agricultura. Indústria. Infraestruturas. Transportes. Energia. Água. Saúde. Segurança. Instituições fortes. Estabilidade política e social.

Depois, sobre essa base, podemos construir um turismo nacional forte, competitivo e sustentável.

Não precisamos apenas de convidar o mundo a visitar Angola.

Precisamos primeiro de construir uma Angola onde seja bom viver, produzir, circular e trabalhar.

Quando conseguirmos fazer isso, o turismo virá como consequência e não como improvisação.

Porque uma grande indústria turística não se decreta.

Constrói-se.

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