Por que razões um povo com o subsolo forrado a dólares continua de mãos a abanar, enquanto movimentos internacionais sem território gerem impérios diplomáticos? A resposta é simples e doí: na geopolítica, a justiça não paga as contas.
Por Osvaldo Franque Buela (*)
Nos meios cabindenses, repete-se frequentemente que a luta política é uma questão de convicção. Esquece-se, demasiado depressa, que ela é, antes de mais, uma questão de recursos financeiros. Na cena internacional, a justeza de uma causa nunca é suficiente; não basta reivindicar o Tratado de Simulambuco, denunciar o Memorando do Namibe, nem gritar com força que Cabinda não é Angola.
Sem capital, sem rede de financiamento e sem controlo dos fluxos financeiros, uma reivindicação política está condenada a permanecer uma intenção abstracta. O contraste marcante entre, por exemplo, a trajectória da Diáspora Judaica mundial e o fracasso político dos separatistas de Cabinda oferece uma demonstração magistral e cruel desta realidade.
A história da diáspora judaica mundial desde 1936 testemunha o sucesso de uma engenharia institucional e financeira sem precedentes. Fundado para unir as comunidades perante a ameaça fascista, o Congresso Judaico Mundial não se limitou a fazer ouvir a sua voz; soube também angariar fundos apoiando-se em comunidades da diáspora perfeitamente integradas no tecido económico das democracias ocidentais, construindo uma diplomacia privada duradoura.
Graças às contribuições sistemáticas das suas organizações filiadas em mais de 100 países e ao apoio de grandes industriais, a organização dotou-se dos meios necessários à concretização das suas ambições: escritórios permanentes, juristas de alto nível e uma presença constante nas instâncias internacionais. Em suma, uma soberania financeira adquirida mesmo antes da criação de um Estado.
E Cabinda?
No outro extremo do espectáculo geopolítico, o território de Cabinda oferece o cenário trágico de um povo sentado sobre uma montanha de ouro negro, no coração de uma das florestas mais ricas do mundo, transbordando de ouro, madeira e minérios estratégicos, onde os principais responsáveis políticos desta luta estão reduzidos à mendicidade política.
Este território, encravado entre a República do Congo e a República Democrática do Congo, e anexado por Angola em 1975, gera a maior parte das receitas petrolíferas que enriquecem Angola e o regime do MPLA.
Como explicar que os cabindenses, representados antes de mais pela Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) — cujo próprio congresso em 1963 foi financiado por terceiros —, nunca tenham conseguido financiar o projecto político para a sua própria emancipação?
A resposta mais conhecida resume-se em três palavras: monopolização dos recursos pelo MPLA, divisões e isolamento.
Em primeiro lugar, as receitas petrolíferas de Cabinda beneficiam exclusivamente o Estado central angolano e as multinacionais, o que bloqueia hermeticamente o acesso a financiamentos. Em segundo lugar, o movimento autonomista caiu na armadilha clássica das lutas de egos: incapaz de se unir, a FLEC em geral fragmentou-se em facções rivais, tornando impossível a constituição de um fundo de maneio único ou de uma tesouraria coletiva.
A FLEC e as suas incontáveis facções, sem falar do FCD, transformaram a causa num jogo de xadrez onde os egos se confrontam. Sem tesouraria única, sem rigor orçamental e sem transparência, nenhum doador sério nem qualquer diáspora financiará estas querelas mesquinhas.
Por fim, a diáspora cabindense, numérica e economicamente fraca no Ocidente, nunca pôde desempenhar o papel de motor financeiro e diplomático que outros povos em busca de autodeterminação conheceram.
Luanda usou os petrodólares sacados a Cabinda para comprar o silêncio dos governos de Brazzaville e Kinshasa, asfixiando qualquer tentativa de organização no exterior.
O drama de Cabinda é o da impotência financeira perante a realpolitik. Angola, forte com os seus petrodólares captados no solo cabindense, pode financiar um exército moderno e assegurar a benevolência diplomática dos países vizinhos, enquanto os líderes das FLEC tinham de negociar a sua sobrevivência em quartos de hotel no exílio, até mesmo no interior.
Esta comparação cruel recorda uma verdade fundamental: na cena internacional, a soberania começa no cofre. Uma causa sem dinheiro é apenas um lema; uma causa financiada torna-se uma força geopolítica. Enquanto os movimentos de emancipação de Cabinda não compreenderem que a organização orçamental precede a retórica, os gigantes deste mundo continuarão a decidir o destino dos invisíveis.
Enquanto a luta cabindense for gerida com amadorismo e retórica de comunicados de imprensa e apelos diplomáticos sem qualquer acompanhamento e sem impacto no seio do povo, nem na própria causa, O MPLA, mesmo dividida, continuará a rir-se no topo dos seus petrodólares.
A história da diáspora judaica ensina-nos uma verdade dura: uma causa sem dinheiro é apenas um lamento; uma causa financiada e organizada é uma força geopolítica imparável.
Está na hora de Cabinda aprender a lição.
