O Território de Cabinda volta a vestir-se de gala para acolher mais uma edição da Expo Cabinda. Anualmente, as elites políticas do MPLA reúnem-se na Expo Cabinda para cortar fitas, trocar sorrisos corporativos e repetir promessas de um futuro próspero e de uma diversificação económica que nunca passa do papel.
Por Sebastião Macaia
O pavilhão Multiuso de Tafe encheu-se de stands reluzentes, montando um espetáculo de ilusionismo político que se traduz numa montra de vaidades que mascara o fracasso gritante da governação local. Contudo, assim que as luzes do certame se apagam, a realidade que sobra para o povo cabindense contrasta severamente com a opulência exibida nas fotografias oficiais. Longe de ser o motor de desenvolvimento apregoado, a feira tem funcionado como uma cortina de fumo política que mascara assimetrias profundas.
O primeiro e mais grave pecado da Expo Cabinda é o seu carácter profundamente excludente. O evento é um simulacro que funciona como uma ilha de luxo artificial. Enquanto grandes empresas — muitas delas associadas ao clientelismo político do regime — exibem portefólios inacessíveis, o tecido empresarial cabindense continua asfixiado, e os pequenos produtores de Cabinda são empurrados para a periferia do certame, quando não são totalmente excluídos devido aos custos proibitivos de participação. A feira não fomenta a economia real de Cabinda; serve apenas para legitimar o monopólio das elites de sempre.
Além disso, assiste-se a um chocante desperdício de fundos públicos. Milhões de kwanzas são canalizados para erguer infra-estruturas efémeras, campanhas de publicidade governamental e banquetes protocolares. É uma inversão gritante de prioridades.
Num território onde faltam medicamentos básicos nos hospitais, onde o desemprego jovem atinge níveis alarmantes e onde o fornecimento de água e energia eléctrica continua a ser um problema crítico, gastar fortunas num evento de fachada é um insulto à dignidade do povo cabindense. A feira dura escassos dias, mas a miséria dos bairros circundantes estende-se por todo o ano.
Em vez de desenvolvimento, a Expo Cabinda entrega apenas propaganda, falhando tragicamente na captação do investimento externo necessário. Nenhum investidor sério se deixa seduzir por pavilhões decorados quando a realidade estrutural da região oferece estradas intransitáveis e uma burocracia asfixiante.
O Território de Cabinda enfrenta barreiras logísticas crónicas, exacerbadas pela descontinuidade geográfica, onde as deficiências nos transportes aéreos e marítimos são evidentes, e as taxas alfandegárias atuam como um desincentivo à produção local. Os memorandos de entendimento assinados no evento servem apenas para alimentar as manchetes da imprensa estatal, morrendo logo após o encerramento das portas da feira.
A Expo Cabinda tornou-se, assim, no reflexo perfeito da política do MPLA: muita propaganda, nenhum impacto real. É o equivalente político a colocar a carroça à frente dos bois. Cabinda não precisa de festas corporativas financiadas pelo erário público; precisa de investimentos sérios no setor da energia, na saúde, na educação e em infraestruturas básicas permanentes. Enquanto a feira for usada como anestesia política, continuará a ser apenas um monumento ao desperdício e à hipocrisia.
Entretanto, a Expo Cabinda tem falhado sistematicamente na sua principal promessa: a criação de empregos sustentáveis. Os postos de trabalho gerados são maioritariamente temporários, precários e informais – restritos ao período de montagem e desmontagem dos stands ou ao setor de restauração focado no evento. Terminado o certame, a juventude cabindense regressa à dura realidade do desemprego e da falta de perspetivas.
A Expo Cabinda não pode continuar a ser utilizada como um mero instrumento de propaganda política para o “inglês ver”. Se a governadora de Cabinda, Suzana Fernanda Pemba Massiala de Abreu, pretende verdadeiramente o progresso da Cabinda, deve focar os seus esforços na resolução do conflito político do enclave e no direito à autodeterminação do seu povo. Caso contrário, a Expo Cabinda continuará a ser o que tem sido até agora: uma coreografia cara que entretém as elites do regime angolano, enquanto o povo cabindense assiste, na penumbra, ao espetáculo da sua própria exclusão.
