JOÃO QUE TEM MARA NÃO PRECISA DE ANA

A vice-presidente do MPLA, partido no poder em Angola há 50 anos, saudou hoje os militantes que cumprem as orientações da liderança, “mesmo quando a estratégia do partido não corresponde aos seus interesses pessoais”. 

Mara Quiosa discursava na abertura do acto inaugural do ciclo de conferências que antecedem ao IX congresso ordinário do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que se realiza entre 9 e 10 de Dezembro deste ano.

“Não podemos, em nome da democracia interna, esquecer a nossa história, a nossa cultura política e a nossa mística. Não podemos, em nome da diferença de opinião, esquecer a responsabilidade que temos de assegurar um partido forte, unido e disciplinado”, disse Mara Quiosa.

“Saúdo aqueles camaradas que percebem de forma clara e inequívoca que os interesses do MPLA estarão sempre acima dos nossos anseios individuais”, referiu.

Mara Quiosa exortou os militantes do partido no poder em Angola desde a independência do país, em 1975, “para que se respeitem escrupulosamente” os estatutos e os regulamentos do partido.

“E cerremos fileiras em torno da nossa bandeira e do nosso líder, o camarada presidente João Lourenço, manifestando apoio incondicional à sua liderança”, frisou.

Actualmente decorre o período para a apresentação de candidaturas à liderança do MPLA no âmbito da realização do IX congresso ordinário do partido.

Na corrida à liderança do MPLA estão João Lourenço, Higino Carneiro, José Carlos Almeida e António Venâncio, que já manifestaram essa intenção.

Segundo a Constituição angolana (que, obviamente, se subordina à Constituição do MPLA), João Lourenço não pode candidatar-se a um terceiro mandato como Presidente da República, mesmo sabendo-se que não há em Angola eleições presidenciais.

A subcomissão de candidaturas do IX Congresso Ordinário do MPLA validou já a recandidatura do actual presidente do partido e de Angola, João Lourenço, em 5 de Junho de 2026, tendo submetido mais de 11 mil assinaturas de apoio.

Higino Carneiro submeteu a sua candidatura em 25 de Junho, mas foi rejeitada e anulada pelo partido em Julho passado.

O ex-general angolano apresentou uma reclamação no Tribunal Constitucional sobre a anulação da sua candidatura à presidência do MPLA, por alegadas “graves irregularidades” no processo, entre as quais assinaturas de “supostos militantes” não inscritos nos Comités de Acção do Partido (CAP), cartões descontinuados com datas de emissão recentes, listas assinadas por uma única pessoa em nome de vários e bilhetes de identidade falsos.

Das 19.158 fichas de subscrição que o mandatário da candidatura declarou ter entregado, a subcomissão apurou que constavam apenas 14.493, das quais 2.561 válidas (17,6%), 9.659 não válidas (66,6%) e 2.273 falsas (15,6%).

O prazo para a entrega de candidaturas à presidência do MPLA iniciou-se em 28 de Março e encerra em 25 de Outubro de 2026.

QUIOSA E A PÓLVORA DO MPLA

No dia 2 de Junho de 2025, Mara Quiosa defendeu uma África mais próspera e “feita por africanos”, e menos dependente “de outros continentes”, afirmando que Angola está a fazer esse caminho.

Mara Quiosa disse, em declarações à agência Lusa à margem do Fórum Ibrahim, em Marraquexe, que “queremos uma África cada vez mais próspera, uma África cada vez mais envolvida e, seguramente, uma África que dependa cada vez menos de outros continentes”.

Mara Quiosa foi convidada a assistir ao evento, cujo tema, “Alavancar os recursos de África para colmatar o défice financeiro”, tinha como contexto a redução da ajuda externa dos Estados Unidos e de países europeus.

Vários dos oradores defenderam a necessidade de os líderes africanos assumirem maior responsabilidade e controlo sobre o desenvolvimento social e económico dos países, usando os recursos naturais e financeiros existentes no continente.

A dirigente do partido no poder desde 1975 em Angola concordou que “é preciso que esta África seja feita por africanos”   que deve “deixar de depender de outros continentes”.

“Nós temos muitos recursos naturais, nós temos mais do que recursos naturais, nós temos recursos humanos, temos o capital humano que no fundo é a nossa grande bandeira”, sublinhou.

Segundo Quiosa, Angola tem registado um progresso no sentido de maior auto-suficiência.

“O Governo angolano tem estado a fazer um esforço muito grande, principalmente no âmbito da diversificação da economia. Portanto, a ideia é continuarmos a ter cada vez menos dependência do petróleo, como foi acontecendo durante muito tempo”, exemplificou.

Ao mesmo tempo, o Governo tem estado a investir no aumento da produção nacional, em particular na agricultura, e em infra-estruturas, acrescentou.

“Continuamos a investir cada vez mais em fertilizantes, em terras aráveis, em agricultura mecanizada e com grandes extensões de terra, porque, felizmente, temos um país grande”, referiu.

O desenvolvimento das infra-estruturas rodoviárias, continuou, permitem “o escoamento do produto do campo para a cidade”, facilitando tanto a mobilidade de pessoas como de bens.

O crescimento da agricultura em Angola está não só a possibilitar a exportação para a Europa, América e outros países africanos, como está a reduzir a importação de produtos agro-alimentares, como os ovos, disse.

“O desenvolvimento também passa por isso. É preciso acabarmos ou largarmos um bocadinho a dependência que tínhamos na necessidade de importação de muitos bens”, evidenciou.

De acordo com o relatório “Financiar a África que queremos”, publicado pela Fundação Mo Ibrahim, que organiza a conferência, Angola está entre os três países com maiores encargos no reembolso da dívida externa, superando os 10 mil milhões de dólares (nove mil milhões de euros) por ano.

No estudo refere-se que estes compromissos limitam os investimentos públicos em sectores como a saúde, a educação ou a adaptação às alterações climáticas.

A vice-presidente do MPLA lembrou que, ao liquidar a dívida ao Brasil cinco anos antes do prazo, em 2019, Angola demonstrou o esforço que está a fazer neste capítulo para melhorar a credibilidade financeira.

“Eu acho que África e Angola, de uma forma geral, têm estado a dar estes sinais e eu acho que são sinais bastante positivos. Ao pagar as dívidas é um sinal de confiança. É um sinal de que nós somos um país sério e temos estado a honrar os nossos compromissos financeiros internacionais”, afirmou Mara Quiosa.

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