ACORDOS DO ALTO KAUANGO E A COBARDIA DO MPLA

Raramente o jornalista é notícia. Contudo, não deixa, antes e durante, de ser um cidadão que, mais do que qualquer outro, tem responsabilidades acrescidas, devendo por isso, sem pretensiosismos nem falsas modéstias, assumir junto daqueles a quem exclusivamente deve explicações, os angolanos, a verdade dos acontecimentos.

Por Orlando Castro

A história escreve-se com a verdade que, mesmo quando bombardeada insistentemente pela mentira, acabará por se sobrepor a todo o género de maquinações e acções de propaganda. É, por isso, legítimo que se faça pedagogia e formação quando, por razões mesquinhas, alguns tentam apagar o que de bom alguns, muitos, angolanos fizeram pela sua, pela nossa, terra. E tentam apagar, revelando um manifesto complexo de inferioridade, por temerem que a verdade os mate. Esquecem-se de que, mesmo recorrendo à história, a salvação só se consegue com respeito pela verdade.

E não é por esconder a verdade que ela deixa de existir. Em 1991, quando as forças da UNITA sitiaram por 57 dias a cidade do Luena, William Tonet, que cobria o conflito por parte das tropas do Galo Negro, abordou o seu então amigo General “Ben Ben” e um outro general das FAPLA, Higino Carneiro, que aceitaram a sua proposta de tréguas de paz que ficou conhecida como os Acordos do Alto Kauango, que foram a “mãe” dos Acordos de Bicesse.

Não adianta o MPLA, o regime, os que se julgam donos da verdade, “esquecerem” a verdade dos factos. Eles são exactamente isso, factos. E um deles, o de ter sido um angolano a mediar pela primeira vez o conflito entre angolanos, deveria ser motivo de regozijo e de reconhecimento interno e externo. Só a mesquinhez de uns tantos pode levar a que se tente, sem sucesso — é certo, apagar esta verdade. Uma de muitas outras que, infelizmente, ainda se encontram enclausuradas por medo de represálias.

O facto de o cidadão, jornalista, William Tonet ser inimigo público do regime, mau grado a sua luta ter sido sempre em prol dos angolanos, revela igualmente que na história que o regime quer que se escreva só têm lugar os que são livres para estarem de acordo com ele.

William Tonet é filho de um co-fundador do MPLA, já falecido, que chegou a ser deputado pelo partido no poder na mais longa legislatura do país.

Quando o nacionalista Guilherme Tonet foi preso no Tarrafal, o pequeno William tinha cinco anos e o pai levou-o consigo. É assim que passa a viver a sua infância na cadeia ao lado do pai e outra parte no Congo Kinshasa, onde estava a Direcção do MPLA no exterior.

Mesmo que pintem a história de outra forma, a verdade é que William Tonet nasceu dentro do MPLA e assim se percebe a fidelidade racional, crítica e independente, que mantém a este partido que, todos os dias, o maltrata por discordar das suas práticas.

Em finais da década de 70 esteve muito próximo a uma facção do MPLA próxima de Nito Alves. Foi detido. Passou dois anos nas masmorras.

Durante o processo de “reinserção na sociedade”, passou a trabalhar na TPA como cameraman, tendo sido um dos dinamizadores do programa “Opção”, que retratava o conflito militar. Foi ele quem abriu oficialmente a delegação da TPA em Benguela. Mudou-se depois para Portugal onde exerceu jornalismo, aprendendo com vários “monstros sagrados” da informação lusa (Emídio Rangel, por exemplo) e tornando-se igualmente num dos melhores do nosso jornalismo.

“Comecei a fazer jornalismo depois de 1977, pois até essa altura estava nas Forças Armadas. Como fui apanhado na onda dos presos de 1977, depois de sair fiquei bastante frustrado com a forma como esse processo decorreu. Depois de sair da cadeia e de ter sido colocado em Benguela e Kuando Kubango, entrei como assistente de operador de câmara na TPA, depois de ter sido rejeitado pelo “Jornal de Angola”, onde participei num concurso. Tive boa prestação, mas o director da altura, Costa Andrade Ndunduma, disse não poder aceitar um fraccionista nos seus quadros. Tive de correr dali para fora,” conta William Tonet, certamente orgulhoso de, com derrotas e vitórias, nunca se ter desviado da missão de dar voz a quem a não tem.

Ao serviço da “Voz da América” (VOA), acompanhou uma delegação norte-americana à Jamba, o então quartel-general da UNITA. Os serviços de inteligência da UNITA detiveram-no após notarem que trazia passaporte angolano. Acusaram-no de ser espião ao serviço do MPLA. Após intervenção norte-americana foi solto e Jonas Savimbi desculpou-se. Esteve então com velhos amigos dos bancos da escola, no Huambo, entre os quais o general Arlindo Chenda Pena “Ben Ben”.

Na guerra do Huambo, após as primeiras eleições gerais em Angola, William Tonet esteve enquanto jornalista na frente de combate acompanhando as FAPLA. Perante a derrota destas e consequente recuo, foi baleado e andou cerca de um mês a pé com os comandantes das FAPLA, até Benguela, onde seriam resgatados. Totalmente fragilizado e com uma bala cravada na perna, o jornalista foi evacuado pelas autoridades portuguesas para Lisboa, onde seriam exibidos os primeiros vídeos da derrota, o que acabou por irritar as autoridades angolanas, que até hoje não lho perdoam.

No hospital foi-lhe detectada uma úlcera no estômago, por ter ficado semanas sem comer, úlcera que até hoje é responsável pelo seu estado de saúde.

No seu regresso a Angola voltou ao jornalismo, criando um dos primeiros jornais privados no país, o “Folha 8″. Recorde-se que por este jornal passaram jornalistas como Graça Campos, Reginaldo Silva, Gilberto Neto. Foi detido por diversas vezes e é — reafirme-se — o jornalista com o número recorde de processos judiciais.

Não deixa, entretanto, de ser curioso que o Presidente José Eduardo dos Santos tivesse consciência do desempenho patriótico de William Tonet, tal como conhecia bem o seu papel nos Acordos do Alto Kauango, mas tenha deixado enredar-se pelos mais extremistas membros do MPLA que, por uma questão se sobrevivência, fazem de William Tonet a razão de todos os males.

Aceita-se que todo o percurso profissional de William Tonet, mas sobretudo o de cidadania activa que remonta, pelo menos, aos Acordos do Alto Kauango, seja uma espinha enorme entalada na garganta de cidadãos como António Pereira Furtado ou Hélder Vieira Dias “Kopelipa”. Mas não é matando o mensageiro, reescrevendo a verdade, em parte já histórica, que se calará a mensagem. Essa está dentro de todos os angolanos.

Nota: Excerto do meu livro “Eu e a UNITA”

Foto: António Ribeiro e William Tonet durante uma visita ao Hotel Penina (Algarve), local onde em Janeiro de 1975 o Estado Português reconheceu a FNLA, o MPLA e a UNITA “como os únicos e legítimos representantes do povo angolano” e reafirmou o “reconhecimento do direito do povo angolano à Independência”.

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