Belmiro Chissengueti, porta-voz da Conferência Episcopal Católica em Angola e São Tomé (CEAST), alertou hoje para a necessidade de aposta no desenvolvimento e para a falta de qualidade da educação, que pode transformar Angola num “país de analfabetos”. A teoria é a mesma que o MPLA propaga há… 50 anos. E o resultado está à vista.
Por Orlando Castro (*)
Em conferência de imprensa, um dia após a partida do Papa Leão XIV de Angola, o porta-voz da CEAST, Belmiro Chissengueti, fez um balanço positivo da viagem apostólica, que incluiu uma passagem de três dias pelo país.
Sobre as mensagens deixadas pelo Papa, em particular a da paz, o também bispo de Cabinda apelou a um trabalho contínuo, sublinhando que esta é apenas “um ponto de partida”. É verdade. Resultados? Esses também estão, há 50 anos, na linha de partida…
“A paz é apenas um ponto de partida. Se não der lugar ao desenvolvimento volta-se à instabilidade, é preciso trabalharmos todos para termos uma Angola desenvolvida, pacífica e reconciliada”, afirmou o responsável.
Questionado sobre o apelo do Presidente do MPLA (da República por inerência), general João Lourenço, a um envolvimento “mais construtivo” da Igreja Católica como parceira do Estado angolano, Belmiro Chissengueti considerou que “este é um caminho que nunca está terminado”. Não está terminado e que, aliás, nunca saiu do “ponto de partida”.
Sublinhou que a Igreja tem maior intervenção nos domínios da educação e da saúde, num trabalho que “pode ser continuamente melhorado” e ter uma abrangência cada vez maior.
No que diz respeito à educação, Belmiro Chissengueti salientou que em muitas zonas do país não há escolas e noutras os professores contratados pelo Estado “passeiam pela escola” sem verdadeiramente leccionar, acrescentando que a Igreja tem manifestado disponibilidade para colmatar estas lacunas.
Afirmou também que os sacerdotes mais próximos do povo poderiam ter melhores condições para ensinar, em vez de professores que têm de percorrer enormes distâncias, um caminho que até a administração colonial seguiu quando construiu as escolas das missões, notou. Ai sim? Mas então o MPLA não fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500?
“Se continuarmos nesta senda estaremos a formar um país de analfabetos, o que é tenebroso para o nosso futuro”, criticou, a propósito da falta de qualidade geral do ensino e das faltas dos docentes.
“O domínio da educação é realmente fundamental para o futuro do nosso país”, disse o religioso, lamentando que “algumas universidades” sejam uma “continuação da escola primária” e não permitam formar bons profissionais. Também não conseguem formar boas pessoas, mas esse é o ADN do MPLA.
Sobre o incidente protagonizado por um homem que furou a barreira de segurança numa aparente tentativa de saudação, indicou que se terá tratado de “um acto emocional” que “não maculou a visita”.
O porta-voz da CEAST frisou que as caravanas presidenciais têm “uma segurança séria” e que “há brincadeiras ou tentativas que não se fazem nestas ocasiões”, já que poderia ter arriscado ser baleado.
“É preciso que entendam que as questões de segurança são fundamentais”, frisou, adiantando não ter mais informações, além de que o homem foi detido e interrogado.
O bispo agradeceu (pudera, pudera!) o empenho pessoal do general João Lourenço na visita do Papa e destacou o apoio do Governo à melhoria das infra-estruturas, com obras ainda em curso na Muxima, que será um dos maiores destinos de turismo religioso em África, bem como noutros locais das celebrações, como o Kilamba (Luanda) e Saurimo, capital da Lunda Sul.
O bispo realçou ainda o empenho de mais de 11 mil escuteiros católicos, sublinhando a dimensão política e espiritual da visita, enquanto chefe de Estado e enquanto líder da Igreja Católica.
Por outro lado, sem adiantar números, considerou que o facto de os fiéis terem de decidir entre o Kilamba, em Luanda, ou a Muxima (Icolo e Bengo), aliado a dificuldades de mobilidade, jogou contra as previsões de afluência.
Destacou ainda que a visita do Papa coloca Angola no mapa da prioridade e da responsabilidade, tendo em conta que o pontífice escolheu incluir, no seu primeiro grande itinerário, quatro países, entre os quais Angola, onde, assinalou, a Igreja está “pujante”.
A assegurar a cobertura estiveram cerca de 800 profissionais da comunicação social angolana, 250 estrangeiros acreditados no país e 300 que vieram do exterior, além dos 80 que viajaram no avião com o Papa, segundo o diretor nacional de Informação e Comunicação Institucional, João Demba. Não se sabe, contudo, quantos Jornalistas estiveram presentes (profissionais da comunicação e jornalistas são realidades distintas).
OLHAI PARA O QUE DIZEMOS. O RESTO É… TRETA
No dia 2 de Março, os bispos católicos angolanos alertaram para o flagelo da fome, da pobreza e do aumento dos índices de prostituição e de criminalidade, bem como da galopante desflorestação, e instaram as autoridades a darem prioridade à agricultura familiar. Também eles “comprovam” que o MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500…
Segundo Belmiro Chissengueti, Angola (não) enfrenta o “flagelo da fome e da pobreza” e regista igualmente aumento dos índices de prostituição e de criminalidade, sendo que face à actual realidade socioeconómica de Angola, os bisposdizem que instaram as autoridades governativas a priorizarem no Orçamento Geral do Estado (OGE) programas de fomento da agricultura familiar, que “devem garantir a autossuficiência alimentar, e ao emprego, sobretudo no meio rural”.
É claro que os bispos sabem que é mais fácil passar um elefante pelo buraco de uma agulha do que o MPLA resolver, por exemplo, o drama de 20 milhões de angolanos que todos os dias tentam aprender a viver sem comer.
Belmiro Chissengueti manifestou-se também preocupada com o “número assustador” de crianças e jovens fora do sistema de ensino e “os altos níveis de abandono escolar, agravados com a pouca frequência e ausência dos professores nos meios rurais”.
“Há, portanto, urgência na reconfiguração do sistema de ensino e da geografia dos concursos públicos para a educação”, referiu o bispo angolano.
Belmiro Chissengueti considerou, por outro lado, que Angola está a sofrer uma galopante e extremamente preocupante desflorestação, com todas as nefastas consequências para a degradação do meio ambiente.
“Há urgência de uma acção coordenada das autoridades e de todas as forças vivas da nação em vista à mitigação deste fenómeno”, indicou.
Por outro lado, reiterou a necessidade de maior alocação de verbas do OGE para o sector agrícola, porque, notou, o montante actualmente cabimentado “não é suficiente”.
“E também não é normal termos um país com a dimensão que temos, um país com quantidade de água que tem, não ter autossuficiência alimentar”, acrescentou.
Belmiro Chissengueti criticou ainda os alegados “monopólios de importação” que, argumentou, não recebem de bom grado a produção nacional: “Não é em vão que, em muitos casos, a produção nacional apodrece nas lavras e aldeias por falta de escoamento e as lojas e supermercados estão cheias de produtos importados”.
“Naturalmente o Estado tem feito um esforço com legislações para limitar a importação de produtos, mas desde a intenção à aplicação ainda leva a sua estrada”, afirmou.


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