A polícia do MPLA impediu hoje a realização de uma marcha pela libertação de activistas em Luanda e deteve dois manifestantes, segundo um dos organizadores do protesto. Tudo normal, de acordo com as regras da ditadura vigente, embora sob a máscara de uma suposta democracia.
A marcha deveria arrancar do Largo de São Paulo, um dos principais pontos de Luanda, onde os manifestantes se concentrariam, mas acabou por não se concretizar devido à intervenção musculada das autoridades ao serviço do partido que está no Poder há… 50 anos.
Pouco depois das 10:00, era visível no local um forte dispositivo policial (do MPLA, que não de Angola), incluindo elementos da polícia de intervenção, apesar de já não se registarem ajuntamentos de manifestantes.
Bento Fernando, activista do movimento cívico e da Unidade Nacional para a Total Revolução de Angola (UNTRA), afirmou que o objectivo da iniciativa era contestar a prisão preventiva de vários activistas, após contactos com as respetivas famílias.
“Há um silêncio enorme face à questão. (…) Até agora temos o general Nila sem nenhuma acusação formal, já há oito meses”, disse, sublinhando que o prazo legal da prisão preventiva, fixado em três meses, já foi ultrapassado, razão pela qual pretendiam manifestar-se através de uma “manifestação cívica e pacífica”.
“Infelizmente não chegamos a sair porque Polícia Nacional estava aí de prontidão”, lamentou, acrescentando que houve uma tentativa de diálogo com as autoridades, mas sem sucesso, uma vez que estas alegaram a existência de uma outra actividade partidária [da UNITA, maior partido da oposição] e que a dos activistas que não teria sido previamente comunicada.
Bento Fernando rejeitou essa justificação, considerando tratar-se de questões distintas, e sublinhou que foi entregue há dois meses uma carta ao Governo Provincial de Luanda a informar sobre o protesto, sem que tenha havido qualquer resposta.
“Nós viemos aqui apenas cumprir aquilo que é o nosso dever cívico, mas infelizmente fomos impedidos”, afirmou, acrescentando que dois activistas foram detidos e exigindo a sua libertação imediata.
O activista manifestou ainda descontentamento com a atuação da Polícia Nacional, defendendo que “manifestar não é um crime”.
“Acredito que a nossa polícia deve entender que quanto mais parar uma manifestação, mais feios vão ficar na foto. Nós não queremos dar essa imagem da polícia (…) de uma polícia que dá medo, que o país é um país que não permite manifestações pacíficas, não. Por isso é que nós escrevemos mesmo para a Polícia Nacional, para que eles viessem e nos acompanhassem, não vierem para nos prender. Isso é complicado.”, desabafou.
Questionado sobre a possibilidade de novas manifestações, disse não ter grandes expectativas de sucesso, considerando que este tipo de atuação “tem sido uma rotina, infelizmente”.
“Nós gostaríamos que a Polícia revesse esse lado, porque é feio, as pessoas saem das suas casas no seu pleno direito, não mataram, não roubaram, são marchas básicas para exigir alimentação, é complicado então o que nós estamos a ver aqui”, afirmou, acrescentando que algumas pessoas chegaram a concentrar-se no local, mas que foram “corridos”.
Juntaram-se à tentativa de manifestação outros ativistas, ligados à União Nacional para a Vanguarda do Voto nas Ruas, que apelaram à mobilização e entoaram palavras de ordem como “temos de lutar para libertar os nossos irmãos” e “quem devia estar preso são os dirigentes do MPLA”.
Os manifestantes exibiam uma faixa alusiva à visita do Papa, com a imagem de Leão XIV e dos activistas detidos — Osvaldo Kaholo, Serrote de Oliveira (general Nila), André Miranda, Soba D’Samba e Arlindo Kalupeteka —, acompanhada de uma mensagem em que expressam a esperança de que a visita do Papa contribua para a libertação dos presos políticos em Angola.
O protesto acabou por ter curta duração, tendo a polícia dispersado os manifestantes, que foram posteriormente aconselhados por Bento Fernando a abandonar o local.


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