FAZER O QUE O MPLA NÃO FAZ, DAR DE COMER A QUEM TEM FOME

Ex-militares, idosos, jovens e crianças estão entre as centenas de necessitados que todas as quintas-feiras recebem pães de uma empresa de segurança privada em Luanda, gesto que serve minimizar a fome enquanto criticam o Governo (do MPLA há 50 anos) pelo “abandono”.

São mais de 300 pessoas carenciadas que, como milhões de outras continuam a tentar – como aconselha o MPLA – vier sem comer, tentam matar a fome e acorrem todas as quintas-feiras ao bairro Vila Alice, em Luanda, para aí recebem os pães doados por uma empresa de segurança que nestes dias se transforma em casa de caridade.

É na rua João de Deus que, a partir de 13:00 se vão concentrando, por ordem de chegada, enquanto aguardam pela abertura das portas da empresa, cujos funcionários trocam à quinta-feira as armas por sacos de pão para apoiar os pobres.

Idosos, antigos combatentes e mães com filhos ao colo vêm de vários bairros da capital angolana e ali convergem, muitas vezes condicionando o trânsito naquela rua de sentido único, em busca do pão para alimentar a família, queixando-se de “abandono” por parte das autoridades que, recorde-se, são do MPLA há 50 anos.

Ouvidos pela Lusa, aplaudiram a iniciativa e descreveram o seu drama diário, marcado por dificuldades e carência alimentar, desafiando as autoridades governamentais a “definirem um prazo para o fim do sofrimento” em Angola.

Na fila, enquanto aguardava pela hora de receber a sua merenda composta por 10 pães, Adriano Francisco, 66 anos, ex-militar das extintas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), antigo braço armado do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder há 50 anos), enalteceu a iniciativa.

“Aqui dão ajuda humanitária com um pequeno pão e vamos para casa, já estamos aqui desde 2022, vimos sempre aqui nas quintas-feiras, é boa [esta iniciativa] e ajuda”, disse o ex-combatente.

Paulo Kiluanji, 65 anos, também ex-militar das FAPLA, contou que foi abandonado pela mulher por falta de condições e em casa ficou apenas com os filhos, que também aguardam pelo pão que todas as quintas-feiras recebem da empresa.

Queixando-se de não ser inserido na Caixa Social das Forças Armadas Angolanas, explica que recorre à Vila Alice como alternativa: “É a terceira vez que venho cá e aquilo que me dão levo para casa e fico muito agradecido”, afirmou, pedindo a multiplicação de iniciativas do género para apoiar os necessitados.

“Porque, realmente, não podemos continuar a sofrer enquanto nós já sofremos tanto [no conflito armado] e isso é muito feio”, lamentou, defendendo “prazos” para o fim do sofrimento em Angola.

“O sofrimento tem de ter prazo para ver se o povo fica alegre (…) porque quando há sofrimento há mais ideias negativas”, notou, pedindo especial atenção aos ex-militares.

Com visível desgaste físico, dadas as difíceis condições de vida, na fila também está Teresa Afonso. Não se lembra que idade tem, mas conhece bem o percurso que a leva todas as quintas-feiras à Vila Alice.

“Vim buscar pão, estão a dar pão de favor. Não tenho mais dinheiro para comprar pão e vim buscar aqui de favor”, afirma à Lusa, salientando que, por vezes, a família ganha 20 pães quando o marido também se faz ao local.

Adão Agostinho, de 70 anos e morador da Boavista, bairro pobre de Luanda, vai religiosamente àquela empresa em busca de pão para alimentar a família, um gesto que considera louvável.

“Sim, a iniciativa é louvável, tem nos ajudado. Dão apenas 10 pães e levando para casa já dá para comer com a família (…) estou aqui com fome e quando receber vou comer alguns”, diz.

Já com o seu saco de pão na mão, Sérgio José, de 50 anos, lamenta o sofrimento a que muitos angolanos estão sujeitos, “quando há gente a esbanjar muito dinheiro”, tendo igualmente questionado o papel do Ministério da Ação Social no apoio às pessoas vulneráveis.

Desempregado, Sérgio diz que a sua presença e a de centenas de angolanos naquele local é sintomática do agudizar da pobreza no país: “Então, se esse povo vem para aqui, os governantes passam aqui, veem isso, deveriam parar o carro para ver porque é que esta gente vem aqui todas as quintas-feiras”.

O diretor operativo da empresa Riansil Segurança, Conceição André Francisco, diz que a iniciativa de doar pães aos carenciadas já dura há quase 10 anos, dando nota de que o número de pessoas necessitadas tem aumentado anualmente, com atendimento semanal de mais de 300 pessoas.

Anteriormente, conta, a empresa oferecia 20 pães por pessoa, mas dado o volume de carenciados teve de reduzir a merenda a metade para responder a todos os que batem à porta da instituição.

“A demanda aumentou e estamos agora a dar 10 pães a cada pessoa, não importa a idade, seja criança, jovens, adultos e idosos, damos para todos e não só aqui em Luanda, como também noutras províncias, como o Huambo, há províncias onde distribuímos até arroz”, explica.

Questionado sobre a logística da empresa – em actividade no país desde 1997 – para apoiar pessoas vulneráveis às quintas-feiras, o responsável referiu que a iniciativa resulta de lucros da empresa: “Praticamente é daquilo que nós angariamos e comemos também com as pessoas carenciadas”, conclui Conceição André Francisco.

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