A China deixou de ser o maior credor de Angola em 2025, tendo sido ultrapassada pelo endividamento interno, revelou hoje o responsável pela gestão da dívida pública angolana. Ao mesmo tempo, o governo do MPLA prevê endividamento líquido de 3,8 mil milhões de euros e mais captação de divida interna em 2026.
O director-geral da Unidade de Gestão da Dívida Pública, Dorivaldo Teixeira, que apresentou a estratégia de endividamento para o período 2026-2028, destacou a evolução do perfil da dívida nos últimos anos e a redução do peso dos credores externos, em particular da China.
“Entre 2021 e 2025 saímos de um rácio de dívida pública sobre o Produto Interno Bruto de 69% para 50,5%, com uma subida ligeira da dívida externa”, afirmou.
Segundo Dorivaldo Teixeira, em 2025 os credores internos passaram a ser o principal credor de Angola, representando cerca de 28% do ‘stock’ da dívida, seguido do Reino Unido, com 22%, enquanto a China passou para a terceira posição, com 19%, depois de deter 34% da dívida angolana em 2020.
O responsável sublinhou ainda a redução significativa da dívida colateralizada com a China, que passou de 16,3 mil milhões de dólares em 2020 para cerca de 7,3 mil milhões de dólares em 2025, deixando de ser “um elemento de pressão” na gestão da dívida pública.
No que respeita às emissões de eurobonds (títulos de dívida emitidos em moeda estrangeira), Dorivaldo Teixeira afirmou que a principal preocupação passa por harmonizar o calendário das emissões, de forma a evitar concentrações excessivas de vencimentos em anos consecutivos, como ocorre em 2028 e 2029.
Quanto à evolução das metas estratégicas definidas pelo executivo, admitiu que nem todos os objectivos foram ainda plenamente alcançados, apontando como exemplos a percentagem da dívida com vencimento a um ano e a taxa de juro média ponderada da dívida pública.
A estratégia de endividamento de Angola tem priorizado a redução da dívida colateralizada ao petróleo, tendo sido já totalmente amortizada a dívida com credores brasileiros e israelitas, o que contribui para uma menor vulnerabilidade da carteira da dívida a choques externos, em particular às oscilações do mercado petrolífero, segundo um documento oficial.
CAPTAÇÃO DE DÍVIDA INTERNA EM 2026
Entretanto, o Ministério das Finanças anunciou hoje que o ‘stock’ de dívida deve alcançar 64,3 biliões de kwanzas (59,4 milhões de euros) este ano, incluindo um financiamento líquido de 4,1 biliões de kwanzas (3,8 mil milhões de euros).
Os dados foram avançados por Dorivaldo Teixeira, sublinhando que o objectivo é manter o rácio da dívida pública em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) numa trajectória sustentável, depois de este indicador se ter situado em cerca de 49% em Setembro de 2025.
O plano prevê um endividamento líquido de 4,1 biliões de kwanzas, o equivalente a cerca de 3,8 mil milhões de euros, sobretudo através da captação de dívida interna no valor de 2,4 biliões de kwanzas (2,2 mil milhões de euros).
Entre as linhas de acção da estratégia constam a gestão proactiva de passivos, a gestão activa da dívida, a estabilização dos indicadores macroeconómicos, a priorização de financiamento concessional, a expansão da base de investidores no mercado doméstico, o recurso a financiamento de longo prazo e a mitigação da concentração da dívida.
Dorivaldo Teixeira destacou ainda a importância da gestão cambial e da maturidade da dívida para reduzir o risco de financiamento, facilitar o acesso de empresas e cidadãos aos títulos públicos e estimular a criação de um mercado secundário de dívida pública com cotações firmes de compra e venda.
Segundo o responsável, a estabilidade cambial e as taxas de juro têm estimulado o interesse de entidades externas não residentes, o que representa uma oportunidade para dinamizar o mercado doméstico de títulos públicos.
Dorivaldo Teixeira admitiu que 2026 será um ano exigente, referindo que Angola terá cerca de 13 mil milhões de dólares (11 mil milhões de euros) em amortizações de dívida, e o executivo pretende evitar no futuro que o serviço da dívida ultrapasse os 9 mil milhões de kwanzas (8,3 milhões de euros).
No discurso de abertura, antes da apresentação do plano, realizada hoje em Luanda, o secretário de Estado das Finanças e do Tesouro, Ottoniel dos Santos, traçou um retrato da evolução recente do endividamento público congratulando-se com as metas alcançadas.
Recordou que em 2020, o rácio de dívida pública sobre o PIB rondava os 69%, com uma elevada concentração de dívida colateralizada com petróleo no montante aproximado de 16,3 mil milhões de dólares (15,1 mil milhões de euros), e uma exposição significativa da dívida interna ao risco cambial, que representava cerca de 47% da carteira total.
Segundo o governante, o país opera hoje num contexto substancialmente diferente, com o rácio de dívida pública sobre o PIB estimado em cerca de 50,5%, o endividamento garantido com petróleo reduzido para aproximadamente 7,7 mil milhões de dólares (7,1 mil milhões de euros), e a exposição ao risco cambial no mercado doméstico limitada a cerca de 26,7% do ‘stock’ total.
O secretário de Estado considerou que estas melhorias resultam de rigor técnico, disciplina orçamental e acrescentou que o exercício de 2026 coloca o país perante um duplo cenário, de grande desafio, tendo em conta o nível elevado do serviço da dívida previsto para este ano, estimado em cerca de 15 biliões de kwanzas (14 mil milhões de euros).

