A discussão sobre a posição cambial de Angola e a evolução do kwanza deixou de ser exclusiva dos economistas e passou ao quotidiano das famílias, empresas e Estado. Quando o kwanza perde valor perante o dólar norte-americano, aumentam os custos dos produtos importados, pressionam os preços dos bens essenciais, reduzem o poder de compra das famílias e tornam mais oneroso o serviço da dívida externa.
Por Adanilson Augusto Ferreira Tomás (*)
Falar da desvalorização do kwanza é falar do custo de vida, da capacidade de investimento das empresas, da sustentabilidade das finanças públicas e das perspectivas de desenvolvimento económico. A experiência recente demonstra que o problema cambial não pode ser analisado isoladamente. O kwanza está ligado à estrutura económica do país, sobretudo à dependência do petróleo. Quando receitas petrolíferas aumentam, há divisas e menor pressão; quando caem, a moeda nacional sofre desvalorização.
O que nos dizem os números?
A economia angolana apresenta avanços e desafios simultâneos. Após forte desvalorização em 2023, o kwanza estabilizou a partir de finais de 2024. Segundo o FMI, a taxa cambial manteve-se relativamente estável entre outubro de 2024 e 2025, contribuindo para a desaceleração da inflação.
Esta caiu de 27,5% em dezembro de 2024 para 15,7% em dezembro de 2025 e 12,42% em março de 2026. A estabilidade cambial, aliada a políticas monetárias restritivas e fatores estruturais, reduziu o ritmo de crescimento dos preços.
Contudo, mesmo com inflação menor, os preços continuam a subir, afetando diretamente o poder de compra das famílias.
Esta desvalorização é sempre negativa?
A resposta económica é: não necessariamente. Uma moeda depreciada pode aumentar a competitividade, tornar produtos mais baratos, favorecer a produção interna e estimular a substituição de importados. Contudo, o empresário que importa máquinas paga mais kwanzas, o comerciante enfrenta custos maiores e o consumidor recebe esses custos através do preço final.
Angola encontra-se precisamente perante este dilema.
A desvalorização pode favorecer a produção nacional, mas, simultaneamente, pode aumentar o custo dos factores de produção.
Não basta desvalorizar a moeda para tornar a economia competitiva, é necessário produzir mais e importar melhor e menos aquilo que podemos produzir internamente.
O petróleo continua a determinar o comportamento do kwanza
Um dos principais problemas estruturais da economia angolana é a concentração das exportações e geração de divisas no sector petrolífero, o que cria vulnerabilidade externa considerável.
Adquirir muitos dólares provenientes das exportações petrolíferas, o mercado cambial dispõe de maior liquidez. Quando a produção petrolífera diminui, a oferta de divisas pode limitar-se.
O FMI destacou que a redução significativa da produção petrolífera em 2025 enfraqueceu as posições fiscal e externa de Angola.
Por isso, a estabilidade cambial alcançada não deve ser interpretada como o fim dos riscos, mas encarada como uma oportunidade para implementar reformas redutoras daa dependência petrolífera.
O que fazemos durante o período de estabilidade cambial para preparar Angola para o próximo choque externo?
Reservas internacionais: uma almofada necessária
No final de 2025, as reservas internacionais de Angola eram de 15,9 mil milhões de dólares, equivalentes a 7,4 meses de importações, segundo o FMI. Este nível oferece segurança, mas usar reservas excessivamente para impedir desvalorização estrutural apenas adia o problema. Uma economia saudável deve gerar divisas por exportações e estrutura diversificada.
Quem paga pela desvalorização?
Toda a economia é afectada de formas diferentes: as famílias sentem a desvalorização pelo aumento dos preços; trabalhadores com rendimentos fixos perdem poder de compra; empresas importadoras enfrentam custos superiores por dívidas de divisas e recorrem ao kwanza; o Estado sofre quando possui dívida externa. Contudo, há quem beneficie: empresas exportadoras recebem mais kwanzas pelas receitas em moeda estrangeira, aproveitando a moeda depreciada como vantagem competitiva.
Deste jeito, surge uma oportunidade estratégica para Angola: transformar a pressão cambial num incentivo à produção nacional.
Diversificação económica
Não existe estabilidade cambial sustentável sem diversificação económica. Precisamos aumentar a capacidade de produzir bens e serviços para o consumo interno e para exportação.
A agricultura, agro-indústria, mineração, indústria transformadora, turismo, serviços financeiros, tecnologia e logística que podem desempenhar um papel decisivo neste processo.
Não com a pretenção de anular as importações, mas em construir sectores capazes de gerar receitas externas.
Portanto, a diversificação económica deve ser avaliada não apenas pelo número de novos sectores existentes, mas pela sua capacidade de gerar emprego, produtividade, exportações e divisas.
O desafio do Banco Nacional de Angola
O Banco Nacional de Angola encontra-se perante uma tarefa complexa.
Se permitir uma desvalorização excessivamente rápida do kwanza, poderá aumentar a inflação e deteriorar o poder de compra das famílias.
Se tentar defender uma determinada taxa de câmbio utilizando demasiadas reservas, poderá comprometer a posição externa do país.
A política cambial deve, portanto, procurar equilíbrio.
O objectivo não deve ser necessariamente manter o kwanza artificialmente forte, mas garantir que os movimentos cambiais ocorram de forma ordenada e compatível com os fundamentos da economia.
A estabilidade cambial deve chegar à economia real
Uma taxa de câmbio relativamente estável é positiva, mas não é suficiente.
O cidadão comum não mede a estabilidade macroeconómica apenas pela cotação do dólar. Mede-a pelo preço do pão, do arroz, do combustível, dos medicamentos, das propinas, dos transportes e da capacidade de encontrar emprego.
Da mesma forma, uma empresa não avalia a economia apenas pela estabilidade do kwanza, precisa de acesso ao crédito, previsibilidade fiscal, energia, infra-estruturas, mão-de-obra qualificada e acesso às divisas necessárias para importar equipamentos e matérias-primas.
Oportunidade de Ouro
É durante períodos de maior estabilidade que devem ser fortalecidas as reservas internacionais, aprofundado o mercado cambial, melhorada a produtividade das empresas e acelerada a diversificação das exportações.
Se a estabilidade cambial for utilizada apenas para adiar os problemas estruturais, Angola poderá voltar a enfrentar fortes pressões quando ocorrer uma nova queda da produção petrolífera ou uma alteração significativa das condições externas.
Mas se esta estabilidade for utilizada para transformar a estrutura produtiva, os resultados poderão ser diferentes.
Conclusão: O problema não é apenas o valor do kwanza
A questão fundamental é saber por que razão Angola necessita de tantos dólares e por que razão ainda produz relativamente pouco daquilo que consome.
A resposta conduz-nos directamente à necessidade de diversificação económica.
Conforme os resultados de inflação referente aos meses de Dezembro de 2024,com queda da inflação para 27,5% e 12,42% em Março de 2026, não nos podemos vangloriar ou relaxar, pois, a estabilidade cambial não é sinónimo de estabilidade económica definitiva.
O desafio de Angola é transformar a atual estabilidade conjuntural em estabilidade estrutural. Para isso, torna-se essencial ampliar a produção nacional, diversificar exportações, fortalecer reservas internacionais e reduzir a dependência do petróleo. O futuro do kwanza dependerá não apenas da política monetária do Banco Nacional de Angola, mas sobretudo da capacidade produtiva e competitiva da economia. Uma moeda sustentável não se define pela cotação frente ao dólar, mas pela solidez de uma economia diversificada, capaz de gerar divisas e criar valor de forma permanente, garantindo recursos para financiar o desenvolvimento nacional.

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