Luanda voltou a estar no centro das atenções da indústria energética africana com a realização da Angola Oil & Gas Conference and Exhibition (AOG 2026), que decorreu nos dias 9 e 10 de Setembro, no Centro de Convenções de Talatona, depois da jornada de pré-conferência realizada no dia 8. O encontro reuniu responsáveis do Estado, empresas petrolíferas, investidores, instituições financeiras, especialistas, prestadores de serviços e representantes de diferentes sectores ligados à cadeia de valor do petróleo e do gás.
Por Adanilson Augusto Ferreira Tomás (*)
O AOG 2026 constituiu uma importante plataforma de diálogo sobre o futuro energético de Angola e sobre a capacidade do país de transformar os seus recursos naturais em investimento, emprego, conhecimento, receitas públicas e desenvolvimento económico sustentável. A organização apresentou o evento como uma plataforma para ligar investidores, financiadores, promotores de projectos e decisores do sector.
O Estado no centro da estratégia energética
A participação do Estado foi essencial para compreender a dimensão estratégica do encontro. O sector petrolífero continuou a ter papel central na economia nacional, tanto pelas exportações como pela geração de receitas em moeda estrangeira e financiamento das despesas públicas.
O MIREMPET assumiu papel institucional determinante na definição das políticas públicas. A ANPG desempenhou função essencial na regulação e gestão dos recursos, enquanto a Sonangol, como empresa nacional, permaneceu referência da indústria angolana.
A presença destas instituições demonstrou que o desenvolvimento do sector não podia ser separado da estratégia económica do Estado. Angola precisava de garantir ambiente regulatório previsível, competitivo e capaz de atrair capital, mas também assegurar que a exploração dos recursos naturais produzisse benefícios crescentes para a economia nacional.
Uma forte participação empresarial
A dimensão do AOG 2026 evidenciou-se pela presença de grandes empresas nacionais e internacionais. A Sonangol surgiu como Patrocinador Diamante, a categoria mais elevada. Na categoria Platina, estiveram a Refinaria de Cabinda, Copia Group of Companies e TotalEnergies. Já na categoria Ouro, figuraram EY, Azule Energy, Alfort Petroleum, ENSA, Chevron, Famar, ExxonMobil e bp.
A lista oficial incluiu ainda patrocinadores nas categorias Prata, Bronze, Champion, Elite e Associate, como Banco Sol, BAI, BFA, AES, IT Gest, ACREP, OPERANGOLA, Etu Energies, Kaeso Energy Services, Afreximbank, Africa Finance Corporation, Shell Trading & Shipping, NOV, Sancorp, TGS, Pertamina, SLB e Solar Turbines.
Essa diversidade revelou a dimensão económica do sector: petróleo e gás envolveram banca, seguros, consultoria, tecnologia, logística, engenharia, comércio internacional e serviços especializados.
Investimento internacional manteve
Um dos sinais mais importantes transmitidos pelo AOG 2026 foi a manutenção do interesse dos grandes investidores internacionais.
Durante o evento, a TotalEnergies anunciou a intenção de investir cerca de 10 mil milhões de dólares em Angola nos cinco anos seguintes, em conjunto com os seus parceiros, com o objectivo de apoiar vários projectos e contribuir para a manutenção dos níveis de produção petrolífera do país.
A companhia produzia, à data, cerca de 450 mil barris de petróleo por dia em Angola e desenvolvia o projecto Kaminho, na Bacia do Kwanza, avaliado em cerca de 6 mil milhões de dólares, cuja produção estava prevista para 2028. A empresa anunciou igualmente novas licenças de exploração nos Blocos 17 e 32, em parceria com a ExxonMobil.
Estes investimentos mostraram que Angola continuava a possuir atractivo para o capital internacional. Contudo, colocaram também uma questão fundamental:
Como transformar o investimento externo em valor económico interno?
Conteúdo local: da oportunidade à criação de valor
O conteúdo local surgiu como questão central para o futuro do sector. Durante anos, grande parte do valor gerado pela indústria petrolífera concentrou-se em empresas internacionais e fornecedores externos. O desafio foi ampliar a participação das empresas angolanas, sobretudo nos segmentos de maior valor acrescentado.
Não se tratava apenas de contratar mão-de-obra nacional, mas de criar empresas, transferir conhecimento, desenvolver tecnologia e integrar companhias angolanas nas cadeias de fornecimento nacionais e internacionais. Nesse sentido, a presença de bancos, seguradoras, consultoras e empresas de tecnologia entre os patrocinadores e expositores do AOG revelou-se particularmente relevante.
Novas descobertas e potencial petrolífero
A ANPG, a ExxonMobil e parceiros do Bloco 15 anunciaram uma nova descoberta de petróleo no poço de exploração Vicango Este-01, no offshore angolano. A notícia reforçou a perspectiva de que ainda existia potencial exploratório nas bacias petrolíferas do país.
Novas descobertas foram importantes para a sustentabilidade da produção nacional, especialmente num contexto em que vários campos tradicionais se encontravam em fases de maturidade.
Entretanto, a descoberta de petróleo não devia ser confundida automaticamente com desenvolvimento económico. Entre a descoberta de uma reserva e a melhoria das condições de vida da população existia todo um processo de investimento, produção, tributação, distribuição de receitas e aplicação dos recursos públicos.
O papel das instituições financeiras
Os grandes projectos petrolíferos exigiam investimentos de longo prazo e estruturas financeiras complexas. Paralelamente, empresas nacionais precisavam de financiamento para adquirir equipamentos, contratar trabalhadores qualificados e cumprir requisitos técnicos das grandes operadoras.
A participação de instituições financeiras no AOG 2026 aproximou o sector energético do sistema financeiro nacional. Bancos como Banco Sol, BAI e BFA, presentes entre os patrocinadores, demonstraram a importância crescente da banca na estruturação e financiamento de projectos ligados à economia real.
Petróleo e diversificação económica
Angola enfrentava um paradoxo. Precisava de atrair investimento para petróleo e gás, sectores ainda fundamentais para a economia, mas também de usar os recursos dos hidrocarbonetos para reduzir a dependência da própria indústria petrolífera.
A diversificação económica tornou-se crucial. Agricultura, indústria transformadora, turismo, transportes, logística, tecnologia, energia, educação e serviços financeiros deviam beneficiar do capital gerado pelo sector energético. O petróleo devia ser motor de financiamento da transformação económica, e não obstáculo à diversificação.
O gás natural e a transição energética
O futuro energético de Angola também passava pelo gás natural.
O desenvolvimento do gás podia contribuir para aumentar a segurança energética nacional, apoiar a indústria, gerar receitas de exportação e criar novas oportunidades de investimento.
A estratégia não devia ser abandonar imediatamente o petróleo, mas utilizar o período de relevância dos hidrocarbonetos para preparar uma economia mais diversificada e tecnologicamente preparada para as mudanças futuras.
O verdadeiro desafio para Angola
O AOG 2026 demonstrou que existia confiança e interesse internacional no mercado angolano. A presença do Estado, das grandes empresas petrolíferas, dos bancos, seguradoras, consultoras, empresas de tecnologia e fornecedores especializados confirmou a dimensão estratégica do sector.
Mas a questão central permaneceu:
O que Angola faria com esta oportunidade?
O sucesso não devia ser medido apenas pelos milhares de milhões de dólares anunciados ou pelo número de contratos assinados.
Devia ser medido pelo número de empresas angolanas que conseguiram crescer; pelos empregos qualificados criados; pela formação de jovens; pela transferência de tecnologia; pelo aumento da capacidade industrial; pela melhoria das infra-estruturas; pela capacidade de financiamento da economia e, sobretudo, pela melhoria das condições de vida da população.
Conclusão: transformar o petróleo em futuro
O Angola Oil & Gas 2026 marcou um momento relevante para o sector energético nacional. O envolvimento do Estado, a participação da Sonangol, ANPG e MIREMPET, bem como a presença de grandes empresas e investidores internacionais, confirmaram que Angola ocupava posição estratégica no mercado energético africano.
A lista de patrocinadores — de grandes petrolíferas como TotalEnergies, Chevron, ExxonMobil e bp a instituições financeiras, consultoria, engenharia e tecnologia — evidenciou que o futuro do petróleo e gás dependia de uma cadeia de valor diversificada e integrada.
O desafio foi transformar capital, conhecimento e oportunidades em desenvolvimento nacional. Angola não devia limitar-se a exportar petróleo, mas criar empresas, desenvolver tecnologia, formar quadros, financiar a economia e converter recursos naturais em riqueza sustentável.
O AOG 2026 pôde ser mais que negócios: uma oportunidade para redefinir a relação entre Estado, investidores e recursos. Angola precisava do petróleo para financiar o presente, mas devia usá-lo para construir uma economia capaz de sustentar o futuro.
