O presidente da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Adalberto Costa Júnior, resumiu hoje a governação de João Lourenço (MPLA) como uma “década perdida” para Angola com “poucos resultados” na vida dos angolanos.
Adalberto Costa Júnior dirigiu-se hoje ao país, a partir de Luanda, começando por dizer que não pretende antecipar o que o Presidente do MPLA, com as vestes por inerência de Presidente da República, general João Lourenço, dirá, quinta-feira, no discurso à Nação, na abertura do ano legislativo, na Assembleia Nacional.
Antecipou, contudo, que “nenhum gráfico do Governo” que o chefe de Estado e presidente do partido no poder (Movimento Popular de Libertação de Angola, no Poder há 59 anos) venha apresentar, mostrará os testemunhos que a UNITA tem recolhido pelo país.
O líder da oposição que, a muito custo, o MPLA ainda permite, começou o seu discurso com “cinco histórias que não são cinco casos isolados, são cinco problemas estruturais da mesma governação”.
Adalberto Costa Júnior falou do jovem formado desempregado que vende na rua para sobreviver, de uma mãe que faz contas da venda no mercado, conseguindo num mês 42 mil kwanzas (41 euros) e a quem a 18 do mês o dinheiro acabou.
Falou do agricultor que teve uma boa colheita de 12 toneladas de milho, e a quem quatro toneladas apodreceram porque a estrada não permite passar um camião no tempo da chuva.
Citou a mãe grávida que caminha 180 quilómetros para chegar ao hospital e que teve o filho dentro de uma camioneta de carga e do empresário obrigado a despedir funcionários com 34 milhões de kwanzas (334 mil euros) em facturas que o Estado não paga.
O presidente da UNITA referiu que, em 2017, o atual chefe de Estado tomou posse a prometer “combater a corrupção, criar empregos e reduzir a pobreza” e afirmou que a pergunta que se impõe é se, passados quase dez anos, os angolanos vivem melhor.
A UNITA reconhece e enumera “decisões correctas e reformas necessárias” que foram feitas, mas entende que os dados oficiais demonstram que este “modelo de governação não conseguiu mudar a vida” dos mais de 36 milhões de angolanos.
O PIB (Produto Interno Bruto) angolano cresceu, mas não se reflecte no rendimento das famílias, que desceu de 26% para 16%, segundo os dados da UNITA.
“Merece investigação rigorosa, o crescimento reflecte-se mais no lucro dos poucos do que nos salários dos trabalhadores”, afirmou Adalberto Costa Júnior.
A taxa de inflação em Angola é agora a mais baixa desde 2015, todavia, para a oposição, significa apenas que “os preços continuam a subir, mas a um ritmo menor” e a pressão mantém-se para quem gasta quase todo o rendimento em alimentação e medicação.
O Kwanza, continuou, “perdeu mais de 80% do seu valor” face ao dólar e, embora estável, “para um trabalhador, a conclusão é simples: o salário perdeu poder de compra”.
Com um desemprego na casa dos 30% e “mais de oito em cada dez trabalhadores na economia informal”, a taxa de pobreza ronda os 40% em Angola, segundo a UNITA, que propõe a criação de um observatório que avalie a situação.
O fim do subsídio aos combustíveis foi feito, segundo a UNITA, “sem uma rede de protecção, sem investimento em transportes públicos, sem diálogo”.
“Retirar o subsídio onde mais de oito em cada dez famílias não têm qualquer apoio, é pedir ao povo que pague a conta sozinho”, reiterou.
O peso do serviço da dívida “condiciona o presente” do país, disse o líder da oposição, sustentando que, por “cada 100 kwanzas de impostos, 84 vão para pagar a dívida” e que “só os juros custam cerca de 24% da receita fiscal”.
Adalberto Costa Júnior apontou ainda que o Estado deve 11,9 biliões (quase 12 mil milhões de euros) aos seus próprios fornecedores e criticou a política de ajustes directos do executivo.
A UNITA considera que o actual executivo não conseguiu a diversificação económica que prometia e apontou que o petróleo continua a representar mais de 90% das exportações angolanas.
O líder do partido falou ainda do “fosso entre a cidade e o campo” em Angola, com a água potável a chegar a “menos de um terço” dos agregados rurais e a electricidade a 8%, enquanto na cidade a cobertura chega a 69%.
Sobre as grandes obras em curso, Adalberto Costa Júnior usou o exemplo do Corredor do Lobito e a linha ferroviária de Benguela para perguntar: “que parte de carga é produção angolana? os produtores do planalto tem acesso a esta linha? que receitas e proveitos ficam em Angola?”.
“Um corredor que só atravessa o país é uma estrada para os outros”, enfatizou.
O balanço “que mais dói”, disse, é o da educação, com “4,5 milhões de crianças fora da escola, um em cada quatro angolanos com mais de cinco anos nunca frequentou a escola e no campo quase metade não chega à escola”.
Na saúde, continuam a faltar “mais de 1.800 unidades de saúde, a malária continua a ser a principal causa de morte e a desnutrição infantil subiu de 38% para 40%”.
“A elite vai tratar-se ao estrangeiro e o povo fica à porta de unidades sem condições”, disse.
