O Banco BPI vai sair de Angola. O banco português anunciou a sua saída do capital do angolano BFA, através da venda da participação ao Grupo Carrinho, que já havia manifestado interesse no banco angolano no passado e que era um dos accionistas de referência do banco desde o IPO (oferta pública inicial) realizado há um ano, quando aproveitou para construir uma posição de 7,61%. Valor do negócio ascende a 388,5 milhões de euros.
O “Banco BPI (…) e a Congolian Financial (CFSA) (…) acordaram a aquisição pela CFSA ao BPI da participação social deste no Banco de Fomento de Angola (BFA), correspondente a 5.002.500 acções representativas de 33,35% do capital do BFA”, adianta um comunicado enviado à Comunicação do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).
Segundo a mesma nota, que realça que a concretização da operação fica dependente das autorizações legais, o preço acordado corresponde à soma de uma tranche fixa de 345 milhões de euros, devida, uma vez verificadas as condições suspensivas, na data da transação; uma tranche fixa diferida, de cerca de 43,5 milhões de euros; e uma tranche variável diferida, correspondente a metade do dividendo do BFA de 2026 que seja atribuído a estas ações, sendo que as tranches diferidas serão devidas em maio de 2027.
A 30 de Junho de 2026, as ações do BFA estavam registadas no balanço do BPI (na rubrica Activos Financeiros pelo justo valor através de outro rendimento integral) por 379 milhões de euros, sendo reavaliadas trimestralmente de acordo com uma estimativa de justo valor. Assim, segundo os termos acordados, “na data da transação, a diferença entre o valor total de venda (incluindo a referida tranche variável diferida) e o valor de balanço será reconhecida diretamente nos capitais próprios (em outro rendimento integral)”.
“Numa base proforma face a 30 de Junho de 2026, considerando apenas no valor de venda as duas tranches fixas (388,5 milhões de euros) e não incluindo a tranche variável, a transação teria um impacto positivo nos capitais próprios contabilísticos do BPI de cerca de 9 milhões de euros”, calcula a instituição.
A participação que o BPI ainda detinha (33,35%) era meramente financeira, na medida em que o banco liderado por João Pedro Oliveira e Costa — e desde 2017 tentava reduzir a exposição em Angola. por recomendação do Banco Central Europeu (BCE) — não tinha qualquer interferência no processo de decisão da instituição angolana.
Não foi uma surpresa a entrada do Grupo Carrinho na estrutura accionista do BFA, através da sociedade Congolian Financial, que tinha como beneficiários últimos justamente Nelson Carrinho e o irmão Rui Carrinho, presidente e vice-presidente do grupo angolano, respetivamente. É que, quando o BPI colocou à venda a totalidade da sua participação no banco angolano em 2024, a empresa da família já tinha sido uma das interessadas. Nessa altura, a operação não foi para a frente por conta da desvalorização acentuada do kwanza, a moeda angolana, mas foi uma questão de tempo.
DE CANGULO A FERRARI
Em 1993, “a vontade de superação da Dona Leonor Carrinho, fez com que no meio da adversidade que a família estava a viver, surgisse a capacidade de visionar uma oportunidade: a abertura de um bar. Criado como meio de subsistência para os seus filhos, no quintal da sua própria residência, o bar era gerido pela Dona Leonor e contava com o apoio dos seus 3 filhos e de uma sobrinha”.
A primeira oportunidade (1994 – 2002). O acordo informal entre a Sonangol e Leonor Carrinho, estabeleceu que os quadros técnicos que se deslocassem ao Lobito, passariam a ter as refeições no bar da Dona Leonor, o que veio a tornar-se no primeiro acordo de negócio, cujo rendimento anual veio ascender cerca de USD: 120 000,00.
O acordo com a Sonangol contribuiu sobremaneira para a elevação da reputação da cozinha de Leonor Carrinho, o que permitiu o alargamento do atendimento ao público lobitanga, expandindo, assim, o negócio. Foi, igualmente, nesta altura que a Empresa Nacional de Electricidade (ENE) passou a integrar a lista de clientes, consolidando as suas aspirações empreendedoras.
O Bar Império foi uma das peças fundamentais no que é hoje o Grupo Carrinho, pois, este foi o passo que acabou por mudar toda a história da organização. A família Carrinho interessou-se em explorar um outro bar, que na altura se encontrava disponível, levando Leonor Carrinho a tomar a decisão de no ano de 2002 investir 10 000 USD na abertura do Bar Império. Este bar é propriedade dos Caminhos de Ferro de Benguela (CFB), razão pela qual não foi possível a sua aquisição, mas antes o estabelecimento de um contrato de cedência de exploração.
Foi partindo das relações que se foram estabelecendo com diferentes personalidades (todas do MPLA) que afluíam ao Bar Império, que surge a oportunidade de trabalhar com a Odebrecht. Tendo, este período sido determinante pela aprendizagem que a relação obrigou e que, em consequência, proporcionou várias oportunidades de investimento noutros negócios, que, entretanto, grande parte deles acabariam por ser descontinuados.
No ano de 2005, a empresa Leonor Carrinho & Filhos Lda., conhece a Odebrecht, que é reconhecidamente tida como a escola de gestão dos precursores do projecto Carrinho. O alinhamento com a cultura empresarial da Odebrecht que obrigava a pensar na eficiência, proporcionou excelentes oportunidades de negócio, acabando por aumentar exponencialmente o volume de vendas. A Odebrecht revelou-se crucial, pois proporcionou oportunidades fora de Benguela.
A aplicação dos métodos inovadores de gestão da Odebrecht, apontados pelos altos dignitários do MPLA como a “pedra filosofal” do mundo empresarial, permitiu a Leonor Carrinho gradualmente, integrar na sua carteira de negócio 34 cozinhas, espalhadas por todo o país.
A logística de montagem de 30 lojas da rede de supermercados “Nosso Super” no país, foi feita em prazo recorde, com o apoio da frota de camiões da Leonor Carrinho, tornando-se numa das empresas, em Angola, que mais frete de transportes terrestres contratava, razão que levou a empresa, acidentalmente, a entrar no negócio de transporte de mercadorias.
Entre 2008 – 2009, no auge das 34 cozinhas, da logística do “Nosso Super”, da Camargo Corrêa, da Queiroz Galvão entre outros, a Leonor Carrinho vendia 43M USD/ano. Nesta altura iniciou-se o fim da era da Odebrecht, com a crescente crise mundial que se começou a sentir em Angola. A relação com a Odebrecht existe até hoje através da BIOCOM.
Nem tudo foi um mar de rosas, diz a empresa no seu site “made in Brasil”, referindo que existiram adversidades que abriram caminho para os avanços que se obtiveram e à vista de todos. Neste período, com a redução das obras do programa de investimentos públicos, reduziu também o volume de negócios, foi nesta época que a dura realidade levou a empresa a aprender como lidar e superar as adversidades. E exemplificam:
Falhanço da primeira tentativa de abertura das lojas Bem Barato, que tiveram de encerrar alguns meses depois, por falência; A extinção do negócio próprio da empresa de fretes com camiões.
No entanto, depois de protelar por muitos anos fazer, formalmente, negócios com entidades públicas, a Leonor Carrinho decidiu integrar na sua carteira de clientes de Catering as Forças Armadas de Angolanas (FAA). Por consequência, entre 2012 – 2014, surgiram oportunidades de fornecimentos de cabazes e viaturas às FAA.
A relação com entidades públicas ganhou um impulso com o acordo de fornecimento ao MININT (Ministério do Interior), proporcionando a expansão dos negócios com as entidades públicas, possibilitando a evolução da cadeia de abastecimento, a qual teve um grande impacto no desenvolvimento da divisão de logístico da empresa.
Em 2015 dá-se a reabertura da rede de lojas Bem Barato, com uma diferente dinâmica, que a permite ser o único actor genuinamente angolano, entre os cinco maiores distribuidores de bens alimentares da cesta básica em Angola.
O acontecimento mais relevante foi a transformação da empresa de um grupo comercial para um grupo industrial, com a inauguração do Complexo Industrial Carrinho composto por 17 fábricas, o que permitiu a aceleração da implementação da sua visão de integração vertical, desde a tal coisa a que os brasileiros chamaram de “originação” à comercialização.
Dispondo de 17 fábricas, assume ser um dos complexos industriais mais completos do mundo, o que nos permite processar arroz, trigo, milho e refinar óleo, para além de transformar e embalar mais de 20 bens de consumo diversos.
E assim o MPLA mostrou como lhe foi possível transformar um cangulo num Ferrari, tal como lhe foi possível – com total êxito – transformar os vários Ferraris que tinha em…sucata.
