SÍMIOS INTELECTUALÓIDES

Alguns dos mais mediáticos jovens intelectuais de Angola continuam a não ler a mensagem, olhando apenas para o nome do mensageiro. Mas agora estão a inovar. Numa altura em que alguns já conseguem contar até 12 sem terem de se descalçar, apenas se interessam pela cor da pele do mensageiro, considerando que a etnia dos angolanos brancos não existe. A tese é transversal. Angolano (ou moçambicano) só mesmo se for negro. José Eduardo Agualusa e Mia Couto que se cuidem…

Por Orlando Castro

O Luso-tropicalismo é uma “quase-teoria” desenvolvida pelo cientista social brasileiro Gilberto Freyre sobre a relação de Portugal com os trópicos. Em vários dos seus livros, como em «O Mundo que o Português Criou», demonstra o importante papel que os portugueses tiveram na criação da “primeira civilização moderna nos trópicos”.

Em traços gerais, o luso-tropicalismo postula a especial capacidade de adaptação dos portugueses aos trópicos, não por interesse político ou económico, mas por empatia inata e criadora. A aptidão do português para se relacionar com as terras e gentes tropicais, a sua plasticidade intrínseca, resultaria da sua própria origem étnica híbrida, da sua bi-continentalidade e do longo contacto com mouros e judeus na Península Ibérica, nos primeiros séculos da nacionalidade portuguesa, e manifesta-se sobretudo através da miscigenação e da interpenetração de culturas.

O Estado Novo português, nos anos 30 e 40, ignorou ou rejeitou a tese de Gilberto Freyre, devido à importância que conferia à mestiçagem, à interpenetração de culturas, à herança árabe e africana na génese do povo português e das sociedades criadas pela colonização lusa. As ideias do pensador brasileiro tiveram que esperar pela década dos anos 50 para conhecer uma recepção mais favorável no seio do regime salazarista. Nessa altura, o regime adoptou uma versão simplificada e nacionalista do luso-tropicalismo como discurso oficial, para ser utilizado na propaganda e na política externa.

À mudança de atitude não foi alheia a conjuntura internacional saída da Segunda Guerra Mundial e a necessidade de o Governo português afirmar a unidade nacional perante as pressões externas favoráveis à autodeterminação das colónias. Paralelamente, assistiu-se à penetração do luso-tropicalismo no meio académico e científico, em particular o ligado à formação dos quadros da administração ultramarina e à chamada ocupação científica das colónias.

Com o início da guerra em Angola, e a chegada de Adriano Moreira ao Ministério do Ultramar, foi promulgado um pacote de medidas legislativas inspiradas no luso-tropicalismo. No novo contexto, procurou-se igualmente incutir nos portugueses a ideia da benignidade da colonização lusa ou, de forma mais eufemística, “do modo português de estar no mundo”. A propaganda encarregou-se disso, de forma incansável: era urgente uniformizar o pensamento para conformar a acção, sobretudo dos colonos e dos agentes do poder colonial no terreno.

Desde então, uma versão simplificada do luso-tropicalismo foi entrando no imaginário nacional contribuindo para a consolidação da auto-imagem, da génese da sua identidade, em que os portugueses melhor se identificam: a de um povo tolerante, fraterno, plástico e de vocação ecuménica.

O luso-tropicalismo serviu os interesses políticos do Estado Novo e ajudou a legitimar intelectualmente a colonização portuguesa, tornando-se alvo de alguns movimentos de libertação nacional. Eduardo Mondlane, um dos fundadores da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), afirmou que a colonização portuguesa se baseava na discriminação racial, por isso a perspectiva positiva da “complicada teoria de luso-tropicalismo” não condizia com a realidade.

Amílcar Cabral, lider do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), menciona o luso-tropicalismo como um obstáculo para a luta anticolonial. Sobre o assunto, Cabral afirmou o seguinte:

Uma poderosa máquina de propaganda foi posta a trabalhar no sentido de convencer a opinião pública mundial de que os nossos povos viviam no melhor dos mundos possíveis […]. E assim se foi construindo toda uma mitologia. E, como acontece com tantos mitos, especialmente os que dizem respeito à sujeição e exploração das gentes, não faltaram ‘homens de ciência’, incluindo um sociólogo de nomeada, para lhe garantir uma base teorética – neste caso, o luso-tropicalismo.

Aquino de Bragança foi outro intelectual e militante anti-imperialista que criticou o luso-tropicalismo e Gilberto Freyre. Num de seus artigos, recordou a participação desse brasileiro, em 1966, no Congresso das Comunidades Portuguesas, realizado na Ilha de Moçambique, com a presença dos ideólogos do regime português da ditadura.

Vajamos agora a opinião de Renato Epifânio, Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono e professor universitário:

«Se há teoria que foi e continua a ser, nos tempos de hoje, grosseiramente deturpada é a do “luso-tropicalismo”, de Gilberto Freyre. O equívoco de base é (quase) sempre o mesmo: ver essa teoria como uma mera descrição da realidade – em concreto, do império ultramarino português – e não como um paradigma, um ideal, a cumprir.

Tendo sido perspectivado como uma mera descrição da realidade, o “luso-tropicalismo” foi, fatalmente, (mal)visto como uma caução do império ultramarino português. E o próprio Eduardo Lourenço não escapou a esse equívoco de base, ao ter-se referido a ele como “um nefasto aventureirismo intelectual, incoerente e falacioso”.

Neste ponto, Eduardo Lourenço caiu no mesmo equívoco de base daqueles que, ainda hoje, renegam a obra de Almada Negreiros – por ter sido, inequivocamente, um artista do regime do Estado Novo – ou o Fernando Pessoa da “Mensagem – por ter sido, igualmente de forma inequívoca, um protegido de António Ferro.

Curiosamente, bem mais compreensivo foi Eduardo Lourenço quanto ao “movimento da ‘filosofia portuguesa’”, ao tê-lo caracterizado como uma “reacção, em boa parte justificada, contra o pendor mimetista e o consequente descaso que ele implica de inatenção a nós próprios”.

Perspectivado como uma mera descrição da realidade, o “luso-tropicalismo”, obviamente, suscita as mais ambivalentes reacções. Mesmo o tão celebrado fenómeno da miscigenação padece de uma ambivalência de base – por um lado, foi um fenómeno positivo, por ter promovido o cruzamento étnico, ao contrário do que aconteceu noutras experiências imperiais europeias (sendo que este facto não deveria ser de todo desprezível, como em geral acontece); por outro lado, tudo isso aconteceu sob uma hegemonia pré-determinada – não só étnica como de género. Por regra, como sabemos, esses cruzamentos deram-se entre homens “brancos” e mulheres “negras”. E as poucas excepções que existiram foram apenas isso: excepções que confirmam a regra.

Ora, nestes nossos tempos em que a separação étnica é de novo agitada como bandeira político-social – desde logo, por movimentos de “extrema-direita”, mas também por movimentos de “extrema-esquerda”, que defendem a impossibilidade de qualquer sã convivência étnica –, o “luso-tropicalismo” de Gilberto Freyre – se perspectivado como um paradigma, um ideal, a cumprir, e não já como uma mera descrição da realidade – é, decerto, uma visão a ter em conta nos tempos de hoje, em prol dessa possível e desejável sã convivência étnica.

Num tempo em que se chega a defender publicamente que um “branco” não pode sequer traduzir um texto de um “negro”, a visão de Gilberto Freyre é decerto heterodoxa e, por isso, mais pertinente do que nunca. »

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