OLHAI PARA O QUE DIZEMOS E NÃO PARA O QUE FAZEMOS

Os bispos católicos angolanos defenderam hoje que Angola precisa de “despertar do sono anestesiante” dos partidarismos, das militâncias fanáticas, da cultura da bajulação e da arrogância, exortando os políticos a “redescobrirem a beleza e a ética da política”. O apelo também se aplica aos próprios bispos que, nos últimos 48 anos, têm estado muitas vezes, vezes a mais, anestesiados pelas mordomias dadas pelo MPLA.

Para o presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), José Manuel Imbamba, estando-se na véspera de Angola e São Tomé e Príncipe comemorarem 50 anos de independência “é tempo de parar para um profundo exame de consciência nacional”.

O responsável defendeu que é preciso analisar como “superar os problemas cíclicos e injustificáveis” que se vivem e que mantêm a sociedade “permanentemente no aquém da cidadania responsável, participativa e inclusiva do desenvolvimento integral e do Estado republicano autêntico”.

De acordo com o arcebispo católico, Angola, especificamente, “precisa de despertar do sono anestesiante dos partidarismos, das militâncias fanáticas, da cultura da bajulação, da intriga, da arrogância, da desinteligência e da violência verbal”.

Angola precisa igualmente de despertar e de se livrar da “violência física, psicológica e espiritual, da insensibilidade e do descompromisso com o bem de todos os cidadãos”.

“Há que ter coragem de demolir as bases ideológicas, culturais e axiológicas que não geram nem propagam a dignidade da pessoa humana, o convívio plural, a amizade social, a meritocracia e o consequente progresso humano, social, económico e cultural”, notou.

José Manuel Imbamba, que falava hoje na abertura da II Assembleia Plenária Anual da CEAST, que decorre até segunda-feira, em Luanda, afirmou que há que ter coragem igualmente de se fazer flutuar mais a bandeira da pátria do que a dos partidos políticos.

“Que só visam o poder pelo poder”, observou, acrescentando igualmente que “há que se ter coragem de não afunilar, reduzir e condicionar a vida dos cidadãos nos partidos políticos”.

Partidos políticos em Angola foram mesmo convidados pelo presidente da CEAST a “redescobrirem a mística, a beleza e a ética da política, fazendo dela uma missão nobre, um serviço abnegado a favor do bem dos cidadãos, independentemente das suas cores partidárias”.

O também arcebispo de Saurimo, província da Lunda Sul, defendeu ainda que o convívio social exige que cada um se sinta “sujeito activo na construção e transformação do edifício social, político, económico e cultural”.

Por isso, prosseguiu, a sociedade, em vez de massificar, “diluindo o eu”, deve personalizar, enaltecendo a dignidade pessoal, ou seja, “realizando o eu no nós, em vez de excluir e discriminar, deve incluir, envolver e acolher”.

“Em vez de dar vida à intolerância, ao orgulho e à prepotência, deve favorecer o diálogo fecundo, a humildade enriquecedora e compreensiva, em vez de promover o medo, a desesperança, o descrédito e o descompromisso, deve promover a segurança, a confiança, a esperança e o sentido de pertença”, exortou.

No dia 12 de Julho de 2023, em conferência de Imprensa, o bispo da diocese de Caxito, Maurício Camuto, afirmou, sem meias palavras: “Há essa necessidade de implementar a participação de todos os cidadãos, que não haja só um grupo que pensa ser iluminado para levar o país avante, estamos a ver onde é que chegámos por causa disso”.

Aludindo às autoridades que dirigem o país (há 48 anos nas mãos do MPLA), o bispo católico disse que este “pequeno grupo [de governantes] pensa ter todas as soluções, como se tivesse uma varinha mágica para resolver tudo”.

“E estamos a ver que não conseguem resolver”, realçou o também secretário-geral da CEAST, tendo defendido mais espaço para os cidadãos participarem na vida do país. Participarem na vida já que a morte, à fome ou por acção da Polícia Nacional do MPLA, está garantida.

“Que todos possam participar e dar o seu contributo político, social, programático para que ajudemos o país a sair da situação em que se encontra”, salientou o Bispo que, assim, se coloca na linha de fogo das armas desses “iluminados” que, para além de terem o cérebro ligado aos intestinos, entendem que a razão da força (do MPLA) nunca será derrotada pela força da razão do Povo.

Falando na conferência de imprensa de lançamento da sétima edição da Semana Social, que decorreu em Luanda entre 19 e 21 de Julho, numa parceria da CEAST com o Mosaiko – Instituto para a Cidadania, o bispo considerou ser “urgente” o processo autárquico.

“Então, é importante para isso que instauremos as autarquias para soluções locais e não esperar por decisões centrais, o que atrasa o nosso país e lança-nos na miséria em que nos encontramos”, apontou Maurício Camuto.

Para o bispo católico angolano “é urgente e necessário a implementação do processo autárquico que pode ajudar-nos a sair do marasmo em que nos encontramos”.

Maurício Camuto comentou também os argumentos sobre falta de condições nos municípios para a implementação das autarquias, considerando que se está a “colocar a charrua à frente dos bois”.

“Quando dizemos que há localidades que não têm desenvolvimento suficiente para realização das autarquias estamos a colocar a charrua à frente dos bois, este argumento não colhe”, observou.

Maurício Camuto manifestou-se igualmente solidário com as vozes da sociedade civil e de sectores políticos que defendem a materialização das eleições autárquicas no país, referindo que a esperança das autarquias foi apresentada pelo Presidente da República, João Lourenço.

Com a subida do actual Presidente da República, João Lourenço, ao poder, assinalou o bispo, “foi dada esta esperança sobre a realização das autarquias” mas “já lá vão tantos anos e até agora as autarquias não se concretizem”, criticou.

“Há muitas questões, que são normais, há interrogações sobre alegado medo ou risco de o partido no poder perder posições, pode ser isso, mas também se fala em legislação não concluída”, frisou.

Importa ainda recordar, a bem dos que não têm força mas têm razão, que numa entrevista ao jornal português “O Diabo”, em 21 de Março de 2006, D. José de Queirós Alves já dizia (e assim continua) que “o povo vive miseravelmente enquanto o grupo ligado ao poder vive muito, muito bem”.

Nessa mesma entrevista, o arcebispo do Huambo considerava a má distribuição das receitas públicas como uma das causas da “situação social muito vulnerável” que se vive Angola.

D. Queirós Alves disse então que, “falta transparência aos políticos na gestão dos fundos” e denunciou que “os que têm contacto com o poder e com os grandes negócios vivem bem”, enquanto a grande massa populacional faz parte da “classe dos miseráveis”.

E, já agora, citemos Frei João Domingos que afirmou que em Angola “muitos governantes têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”.

Folha 8 com Lusa

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