SÓ OS “MESTRES” ANTECIPAM AS VITÓRIAS

O Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, anunciou que vai visitar Luanda, a convite do homólogo angolano, para marcar presença na feira do livro da capital de Angola. Certamente que, entretanto, aproveitou o encontro para felicitar João Lourenço por ter sido “reeleito” como líder do MPLA e, é claro, também por ter vencido as eleições de… 2022.

Por Orlando Castro (*)

“Eu agora terei uma deslocação, mas é a Luanda, para ir, a convite do Presidente [da República de Angola] João Lourenço, à Feira do Livro de Luanda”, disse o chefe de Estado português, sem adiantar mais pormenores, em declarações aos jornalistas à margem da visita de dois dias a Cabo Verde.

Os Presidentes de Portugal e de Angola foram dois dos chefes de Estado que estiveram na cerimónia de investidura, que decorreu na Assembleia Nacional, na Praia, de José Maria Neves como quinto Presidente da República de Cabo Verde (nominalmente eleito), na sequência das eleições presidenciais cabo-verdianas de 17 de Outubro.

Após a tomada de posse, Marcelo Rebelo de Sousa reuniu-se com o novo Presidente de Cabo Verde para tratarem, descreveu, de “três assuntos fundamentais” para os dois países.

“Relações bilaterais, e eu convidei-o para visitar Portugal no início do ano que vem, se possível no primeiro trimestre do ano que vem, senão no primeiro semestre do ano que vem. E ainda nas relações bilaterais questões financeiras, económicas e de cooperação social e cultural, pendentes”, explicou.

“Tratamos a questão da União Europeia e do aprofundamento da parceria estratégica com Cabo Verde, matéria que ele conhece muito bem do tempo em que era primeiro-ministro [de 2001 a 2016]. E tratamos também da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], e no domínio da CPLP, naturalmente, da presidência angolana, sobre a qual tinha falado com o Presidente João Lourenço”, acrescentou.

Destacou ainda que abordou com José Maria Neves as “perspectivas genéricas da actuação da CPLP e do papel chave que Cabo Verde, que acabou de ter a presidência, podia desempenhar”.

“Em ligação com Angola, mas também com Portugal e outros países irmãos, naquilo que é uma fase que se quer mais virada para a aplicação do acordo de mobilidade e para a parte económica e empresarial, que tem sido uma parte que tem ficado no segundo plano”, concluiu.

Portugal sempre submisso às ditaduras

Bem dizia Eça de Queiroz, provavelmente antecipando a pequenez intelectual de um tal Marcelo que haveria de ser presidente de Portugal, que “os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão”.

Vejamos, por exemplo, o que disse Guerra Junqueiro, num retrato preciso e assertivo de Marcelo Rebelo de Sousa e de grande parte dos seus cidadãos:

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

«Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

«Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

«A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

«Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.»

Continuemos, para memória passada, presente e futura, com o brilhantismo bacoco de Marcelo. Disse ele que, da parte de Portugal, Angola conta com “o empenho de centenas de milhares que querem contribuir para a riqueza e a justiça social” com o seu trabalho, bem como “das empresas, a começar nas mais modestas, no investimento e no reforço do tecido socioeconómico angolano” e também com “o empenho das instituições públicas portuguesas, do Estado às autarquias locais”.

“Podem contar connosco na vossa missão renovadora e recriadora. Portugal estará sempre e cada vez mais ao lado de Angola”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa, fazendo aqui e mais uma vez o exercício de passar aos angolanos um atestado de menoridade e matumbez.

Portugal, por sua vez, conta com a “incansável solidariedade” de Angola. “Contamos com os vossos trabalhadores, as vossas empresas, as vossas instituições públicas, a vossa convergência nos domínios bilateral e multilateral. Temos a certeza de que Angola estará sempre e cada vez mais ao lado de Portugal”, prosseguiu Marcelo no seu laudatório e hipócrita exercício de servilismo.

De acordo com o Presidente português, este “novo momento na vida de Angola” coincide com “um novo ciclo” nas relações bilaterais. “E nada nem ninguém nos separará, porque os nossos povos já estabeleceram o seu e o nosso caminho”, considerou Marcelo, sentindo o umbigo aos saltos, alimentado pela esperança de que os portugueses não acordem e os 20 milhões de angolanos pobres nunca lhe cobrem a cobardia.

“Porque estamos mesmo juntos, na parceria estratégica, na cooperação económica, financeira, educativa, científica, cultural, social e política. Porque no essencial vemos o mundo e a nossa pertença global e regional do mesmo modo, a pensar na paz, nos direitos humanos, na democracia, no direito internacional, no desenvolvimento sustentável, na correcção das desigualdades”, argumentou aquele que, em matéria de bajulação, bateu todos os recordes anteriores, desde Álvaro Cunhal a Rosa Coutinho, passando por Vasco Gonçalves, José Sócrates, António Costa, Cavaco Silva, Passos Coelho e tantos outros.

No final da sua intervenção em que o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA), Egídio de Sousa Santos “Disciplina”, foi condecorado (3 de Setembro de 2019), em Lisboa, por Marcelo Rebelo de Sousa com a medalha da Grande Cruz de Mérito Militar, o presidente português disse que “a história faz-se e refaz-se todos os dias e nuns dias mais do que noutros”, acrescentando: “Estes que vivemos são desses dias”.

(*) Com Lusa

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