É recorrente, ao final de cada texto, ser alvo do legítimo escrutínio de gregos e troianos (e até de outros), sobre a valência e oportunidade do mesmo, no actual contexto de crise económica, financeira, de Covid-19 e social. Oiço, cada observação, aceitando de forma pacífica e prazerosa este farfalho cúmplice da democracia, calcinada, convictamente, em mim.

Por William Tonet

O unanimismo é pernicioso, nas sociedades plurais, mas ainda assim, deve ser escutado, mesmo que se assemelhe às águas putrefactas, de qualquer irresponsável pântano de esquina, responsável pela “produção” de mosquitos, causadores do paludismo e da malária.

Os amantes do pluralismo navegam, sempre, nas límpidas correntes dos consensos, onde os diferentes se harmonizam, para o alcance de um objectivo comum; o bem estar dos cidadãos.

Tenho noção de cada olhar, olhado, sem óleo, mas, também e, fundamentalmente, do olhar, olhado, com óleo, neste burilado momento de indefinição que o país atravessa, envolto num mar de turbulência governativa, ser preocupante.

Sou jornalista! Não propagandista!
Sou livre! Não escravo partidocrata!
Sou democrata! Não fascista!

O meu compromisso, enquanto jornalista livre das amarras ideológicas, é escrutinar o exercício dos agentes públicos, nos mais diferentes escalões.

Exige-me o dever-cidadão de prestar um serviço ao público, informando e formando, despido de quaisquer pruridos e “paixonetas ideológicas”, através da palavra, da imagem e do audiovisual, principalmente, quando a esquina da ditadura, se define, em velocidade cruzeiro.

Exalto, em cada esquina textual, o gemer e o sentir do autóctone angolan(a)o, a maioria gerada com fome e colocados na discriminatória estatística da miséria, distante de um cada vez mais elitista, Orçamento Geral de Estado, por opção, do Titular do Poder Executivo, cujo desempenho não pode estar imune (muito menos ser impune) ao escrutínio da crítica, na lógica matemática da equidade.

O jornalista, diferente do político profissional, precisa dar latitude aos fenómenos, quando as rotas do país se fecham, em torno de vaidades umbilicais barrocas, não significando estarmos em rota de colisão com o decisor principal.

É uma heresia, a crítica de sermos contra os órgãos de soberania no geral e do Presidente da República em particular, mas enquanto observador imparcial, impele-nos a ciência da comunicação social de denunciar todos os desvios e actos de má gestão da coisa pública.

O controlo da comunicação social privada, na esfera da equipa de contrários, do MPLA (Media Nova, TV Zimbo, Rádio Mais, Jornal O País, Expansão, TV Palanca, entre outros) em relação à do actual líder, capitalizada, como os demais, através da acumulação primitiva do capital, não visa beneficiar o Estado, mas, segundo fontes internas do próprio MPLA, o projecto de poder unipessoal de João Lourenço, que não quer e teme, vozes dissonantes, capazes de comprometerem a reeleição (para já) em 2022.

Eu não acredito, mas, também, já não duvido.

A fraude há muito está na via, desde a nomeação de um controverso juiz, na CNE (Comissão Nacional Eleitoral), Manico da Silva, ao reforço, em 2020, de militantes declarados no Tribunal Constitucional; Júlia Ferreira (militante do MPLA e porta voz da CNE em 2017, conhecida como a mama da água) Victória Izata (ex-directora do comité central do MPLA, condecorada na sede deste partido em 11 de Junho de 2020), Carlos Teixeira (professor universitário).

No Tribunal Supremo, no Tribunal de Contas e na Provedoria, o quadro não é diferente e se dúvidas houvesse, o chumbo de Abel Chivukuvuku e do seu PRA-JA pode parecer o mais recente e descarado teste de força, indiciando, impedir potenciais candidatos presidenciais de entrarem em campo.

Se a oposição se calar, por o fogo não ser no seu barracão, será cúmplice de mais um “assassinato”, agora, político, do regime, mas capaz de se estender aos demais (barracões), em 2022, se nada for feito, para travar a apetência do mal, que advoga, uma democracia de único partido.

A hora de impedir a propagação do vírus contra o pluralismo político é esta, amanhã será tarde… porque o silêncio dará lugar à institucionalização da brutalidade policial, da segurança de Estado, das escutas telefónicas, dos assassinatos políticos dos opositores, da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão, enfim, da ténue esperança na consolidação da democracia.

O regime não parece ter uma estratégia, um programa, tal é o descalabro económico e social, mesmo para a implantação do absolutismo.

A ditadura, apesar de tudo, é uma ciência, tem um programa estruturado, um carácter de organização, quadros competentes, objectivos concretos a curto, médio e longo prazo.

Quando uma ditadura não é sábia, pode matar um país, porque enterra os projectos, os planos, o desenvolvimento económico e social, em função da raiva e ódio da agenda e, tal como agora, ocorre, em Angola, a vontade da maioria da juventude emigrar, por não acreditar no futuro do país.

O Ruanda, por exemplo, é uma ditadura, mas sábia, com alguns projectos de desenvolvimento, mas é uma ditadura, que prende, persegue, exila e assassina opositores, com a maior malvadez.

Os cidadãos, os democratas têm de levantar as vozes de indignação, para questionar se é este o país pelo qual muitos dos nossos antepassados se bateram e morreram.

Não devemos alimentar a consolidação de um país de raiva, ódio e, que desde, 1992, textualizando democracia, vive, na prática, uma “ditadura gourmet”, apressando-se em converter-se numa “ditadura militar”, por incapacidade de reversão da actual situação.

Se o Presidente soubesse (ou souber) ouvir e tivesse (ter) a humildade para descer as escadas da humildade, poderia, ainda assim, convocando os cidadãos do país real, não, somente os do seu imaginário e bajuladores, reverter a situação.

O país exige, que alguém faça alguma coisa, para não ficar refém da incapacidade e incompetência das duas partes: regime e oposição.

Se calhar é hora de, pela primeira vez, a terceira via, emergir da sociedade civil, do interior dos trabalhadores, dos desempregados, dos ambulantes, das zungueiras, dos pobres, para se resgatar a angolanidade.

Chega de olhar, olhando, sem olhar…