Na semana que antecedeu a efeméride do 11 de Novembro, diversos jornais e artigos de opinião debruçaram-se sobre os 45 anos de independência de Angola.

Por Carlos Pinho (*)

Houve quem escrevesse sobre o fim da escravidão de mais de cinco séculos que arrastou os angolanos pelas ruas da amargura, como se a colonização só fosse isso, e nada mais houvesse. Sobre estes e outros disparates de igual calibre dispenso-me de comentar mais. Há, no entanto, quem com grande lucidez olhe para estes 45 anos e se questione.

Veja-se por exemplo o artigo de opinião no Novo Jornal, intitulado “Palavra de Honra: 45 anos depois, onde foi que errámos?”, escrito por Gustavo Costa. Trata-se de uma análise esclarecida sobre o que valia a sociedade angolana nos finais do império português e do qual tiro um excerto referente aos seis primeiros parágrafos:

“Há quarenta e cinco anos, antes da proclamação da Independência, com uma história secular, embora vergastada pela colonização portuguesa e com uma população enquadrada segundo os ditames do regime fascista em vigor, Angola já era um território com um sistema de organização social devidamente estruturado.

Há quarenta e cinco anos já havia em Angola uma elite política amadurecida e uma pequena burguesia local que, junto do ocupante português, reivindicava direitos emancipadores.

Há quarenta e cinco anos quando Angola saiu da capanga colonial lusitana e conquistou a sua emancipação política, já era um território economicamente adulto e autónomo.

Há quarenta e cinco anos a agricultura era o “ouro negro” que permitia a Angola ser auto-suficiente do ponto de vista alimentar e um dos grandes celeiros de África ao mesmo tempo que a palavra “petróleo” praticamente não fazia parte das suas estatísticas económicas.

Há quarenta e cinco anos, vivíamos a ressaca de um tempo fervilhante com os musseques, por um lado, matraqueados pela fúria de colonos taxistas e comerciantes inconformados com a chegada de uma nova ordem social e, por outro lado, pela resposta inflamada e irracional de alguns grupos de marginais que decidiram lançar o caos e o terror junto das populações europeias.

Há quarenta e cinco anos, sob o fermento do ódio racial, do preconceito tribal e de um radicalismo político irracional, assistimos à erupção nas cidades dos três movimentos de libertação, que, mergulhados em desavenças insanáveis, se lançaram numa guerra fratricida pela conquista do poder que, de uma ponta à outra, “partiu” a coluna vertebral de Angola e dilacerou a alma de milhões de angolanos.”

Quanto ao resto do texto, poderão consultar o dito jornal, na sua edição de 13 de Novembro passado.

Mas há mais, e de uma perspectiva um pouco diferente, a de uma jovem que questiona os seus mais velhos. No Jornal Económico, Katia Madeira pergunta-se e pergunta, no seu “Quo vadis Angola”. Daqui retiro o primeiro e o penúltimo parágrafo:

“Não seria justa se dissesse que 45 anos depois nada mudou, mas se questionar a minha mãe e todos os da sua geração dir-lhe-ão que não foi com esta Angola que sonharam e que esperavam outras condições de vida para os seus concidadãos.

… Penso que 45 anos após a independência precisamos de reencontrar-nos e redesenhar o nosso sentido de pertença, pois só conscientes dos enormes desafios que enfrentamos mas com vontade de alterar o presente poderemos ter um futuro diferente.”

Continuando nesta minha série de citações, gostaria agora de referir a essência dos comentários do gestor e docente universitário Costa Silva ao Jornal Expansão:

“Defensor e activista pela independência de Angola, – António Costa Silva, o gestor que está a desenhar o programa de recuperação económica pós pandemia para Portugal -, disse hoje que Angola caiu numa “armadilha” e, dos biliões das receitas petrolíferas “nada ficou para os angolanos”, 45 anos depois da independência, e que vários economistas angolanos são “contundentes sobre o destino desses biliões e biliões de dólares, que foram utilizados pela ganância pessoal e não em benefício do país”.”

Mas pronto, este é “angopula” e para os cultores do regime do MPLA, deve ser um ressabiado. Ainda por cima bazou em 1980! Está visto!

Bom, mas e se for um comentário de um economista, docente da UCAN que comenta sobre “os patins que leva quem não anda na linha”? Pois, voltando novamente ao Jornal Expansão e pegando num artigo de Alves da Rocha, escolho apenas o primeiro parágrafo:

“Eu estava totalmente convencido que as noites negras e sinistras da interferência do Estado na produção estatística tinham acabado.”

Ah! Ah! Ah! Em Angola as noites negras e sinistras estão para durar. E os dias também!

Querem mesmo saber onde erraram? Têm a certeza?

Para começar, podem dar uma vista de olhos à entrevista que o Pezarat Correia deu à Lusa e onde cínica e hipocritamente sacode a água do capote:

“”Havia uma componente fundamental, e foi aqui onde o Acordo do Alvor falhou terrivelmente e depois deu lugar a toda a tragédia que se passou, que foi a parte militar”, porque não se conseguiu prever o que viria a acontecer depois, afirmou Pezarat Correia, numa entrevista à Lusa quando faltam poucos dias para Angola celebrar 45 anos de independência, a 11 de novembro. “Não falhou por causa de nós”, parte portuguesa, “mas sim porque os movimentos não cumpriram o que tinham acordado” no Alvor, em 1975, uma situação que, na opinião do militar português, foi depois agravada com as interferências externas, inclusive das grandes potências mundiais, em Angola.”

Não é verdade! O senhor e os seus colegas do MFA tomaram partido de uma das partes, viraram as costas aos portugueses e luso descendentes assim como à parte sociedade civil angolana de origem africana que não se identificava com qualquer um dos três movimentos armados, ou que mantinham reservas em relação a eles. Por isso, uns dos principais responsáveis, quiçá o maior, pelo descalabro que se abateu sobre Angola, foram o senhor e os seus “amigos ideológicos”, Rosa Coutinho e quejandos. Agora escrevem teses de doutoramento e livros a explicar o inexplicável, e choram lágrimas de crocodilo. O livro “Angola – Anatomia de Uma Tragédia” do General Silva Cardoso, desmascara o completamente o senhor Pezarat Correia.

Não se podia prever o que iria passar-se? Lata, não lhe falta! Em Julho de 1974, eu, um puto com 20 anos, discutia com alguém, que me explicou tintim por tintim o que aí viria, convencendo-me a fugir de Angola para não acabar nas masmorras ou numa vala comum, tal como aconteceu a muitos jovens, da minha idade. Olhe o que se passou com o Costa Silva! Não se podia prever? Cale-se senhor Pezarat Correia, tenha vergonha na cara e respeito pelos mortos que a sua maldade e incúria causaram! O senhor e os seus comparsas ideológicos pensam que vão poder reescrever a história em vosso proveito, mas esquecem-se que o tempo é a coisa mais democrática que há, e passados os anos necessários ficarão com o opróbrio.

Mas não foi só a maldade e incúria de alguns portugueses de que o Pezarat Correia é um caso paradigmático, a responsável pelo descaminho de Angola. Os comentários subtis supracitados do Costa Silva dizem tudo. Foram anos e anos de roubalheira inconsequente para quem a executou. A armadilha foi para o povo, não para aqueles que foram indevidamente colocados no poleiro em Angola.

Hoje em dia vê-se a juventude angolana a contestar nas ruas e a ser tratada com os chocolates e rebuçados do Laborinho. Isto acontece porque há muitos sectores da sociedade angolana que já não vão na conversa do MPLA e finalmente saíram do limbo e questionam o que se passou de 45 anos a esta parte. E o partido, mantendo o padrão de comportamento daquele líder que o tomou de assalto, com a desculpa de ser o tal por quem todos esperavam, continua a usar o assassinato como referência do seu modus operandi. Lógico, quem sai aos seus não degenera!

Voltando ao Novo Jornal e à sua edição do passado 13 de Novembro, onde aliás pontificava o artigo do Gustavo Costa como uma das primeiras individualidades a opinar, somente os artigos do já referido Gustavo Costa, do Edgar Valles, da Joana Simeão, do Adolfo Maria e do Costa Silva, põem o dedo na ferida. O resto são, em termos gerais, loas e hossanas aos 45 anos libertadores. E há quem diga que não se pode nem se deve olhar para trás! Mas então para sabermos para onde devemos ir, não faz sentido sabermos de onde vimos? O porquê e o para quê?

Mas 45 anos libertadores de quê? Independência? Independência de quê? Perguntem ao povo que vende nas ruas. Aos desempregados. Aos putos que andam em grupos a pedir para uma bucha de pão. Aos que estão na sanita do esquecimento, conceito tão bem sintetizado por aquele habitante do Bairro Povoado e expulso da Praia da Areia Branca. Será que eles se sentem livres das amarras que sempre os imobilizaram, seja no tempo colonial, seja neste tempo que se queria novo?

É evidente que há quem se sinta independente, livre como um passarinho para voar até Paris para comprar vinhos e champanhes de eleição. Há quem se sinta livre para amealhar fortunas com montantes tais que a maioria dos cidadãos nem sequer consegue imaginar e que agora curtem as respectivas reformas douradas nas antigas potências coloniais da Península Ibérica. Ou para comprar quintas no Douro, são agora dedicados vinicultores. Para irem a tratamentos médicos a países estrangeiros, que isso de criar em Angola hospitais de referência é incompatível com o enriquecimento rápido de alguns (Alguns, é favor!) eleitos do MPLA. Aliás é irónico a preferência dos “meninos” do MPLA pelos tratamentos médicos na antiga Metrópole colonial. Então e o Sol da Terra do camarada Álvaro Cunhal, não vos serve? Que diabo, noblesse oblige!

No texto do Edgar Valles este refere parte de uma homilia do Arcebispo e Cardeal de Kinshasa, proferida no passado dia 30 de Julho. Pois bem, esta homilia devia ser de leitura obrigatória para todos os dirigentes e gestores angolanos, seja qual for a sua filiação partidária e profissão. Devia ser-lhes martelada na cabeça até a saberem de cor. Contudo, temo que o que lá está dito, seja uma bofetada de pelica muito violenta para a gente susceptível do Bureau Político do MPLA. Trata-se, mais do que tudo, de um atestado de incompetência passado a todos os líderes africanos, e uma prova de que as perseguições racistas que os libertadores africanos empreenderam contra os colonos e seus descendentes, se viraram contra eles. No fundo, estes que se dizem libertadores africanos, angolanos no caso presente, não conseguiram libertar-se das amarras persecutórias que lhes foram impostas pelos regimes coloniais e agiram em conformidade, só conheciam aqueles procedimentos que correctamente queriam destruir, mas depois não se coibiram de os aplicar a outrem. Funcionaram no mesmo comprimento de onda do regime colonial que tinham acabado de substituir. Nelson Mandela só houve um! O resto é burrice encartada!

Mas havendo mortes por ação despropositada e despreparada da polícia, não há culpados? Responsáveis? Não no caso de Angola, onde o Presidente da República, que em tese é sempre o último responsável por tudo que corre bem e por tudo que corre mal no país, parece ser inimputável. Se ele não pede explicações, se estas não são públicas, é por demais evidente que está solidário com as acções da polícia. Presumo que haja em Angola um conceito muito específico, a infalibilidade presidencial. Assim a lei o parece dar a entender.

O problema é o exemplo que vem de fora, o Presidente Interino do Peru demitiu-se depois da morte de dois manifestantes. O exemplo é claro e conciso. Ah! Mas no Peru há uma democracia, não confundamos as coisas.

Em suma, quarenta e cinco anos, noves fora, quase nada.

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Nota. Todos os artigos de opinião responsabilizam apenas e só o seu autor, não vinculando o Folha 8.