Algumas das principais estações de televisão dos Estados Unidos da América, como ABC, CBS e NBC, cortaram o discurso do candidato Presidente no horário nobre, enquanto a Fox News, referência informativa do Partido Republicano, desmentiu as alegações de Donald Trump. E se fosse por cá? Seriam confiscadas e os seus responsáveis detidos. Com todos os seus defeitos, é a diferença entre democracia e Estado de Direito e… Angola.

A divisão no canal de notícias conservador está a aprofundar-se cada vez que Trump repete as alegações de fraude eleitoral.

“Não vimos nada que constitua fraude ou abuso do sistema”, disse o correspondente da Casa Branca para a Fox News, John Roberts, em directo, da mesma sala de imprensa em que o Presidente falara segundos antes. Nos estúdios, em Nova Iorque, os apresentadores repetiam continuamente. “Não vimos nenhuma prova”.

Enquanto isso, as três principais estações de sinal aberto – NBC, ABC e CBS – cortaram e desmentiram veementemente o discurso de Trump em pleno directo.

“Temos de interromper Trump porque o Presidente fez uma série de afirmações falsas”, disse o jornalista Lester Holt, apresentador do NBC Nightly News, um dos três programas de notícias mais seguidos na televisão em sinal aberto.

O mesmo foi feito por David Muir, apresentador do noticiário mais seguido no país, com oito milhões de telespectadores diários, o ABC World News Tonight.

“Simplesmente não houve prova, em nenhum desses estados, de que haja votos ilegais”, disse.

Em seguida, o jornalista explicou que, devido à pandemia do coronavírus, a votação por correspondência aumentou, quebrando recordes: mais de 100 milhões de norte-americanos votaram antes, o que prolongou o escrutínio.

A CBS, a terceira em audiências, iniciou um apuramento de factos quando Trump terminou o discurso e desmentiu todas as acusações de “fraude” e “corrupção do sistema”.

Mais contundentes foram os serviços de informação da rádio pública norte-americana, NPR: “Trump, mais uma vez, reivindicou falsamente a vitória nas eleições de 2020. Ele não ganhou. Os votos ainda estão a ser contados”, afirmou.

Por sua vez, os canais pagos de notícias CNN e MSNBC, conhecidos por posições mais liberais, comentaram duramente: “Que noite triste para os Estados Unidos”.

Trump “está a tentar atacar a democracia com uma série de falsidades. Mentira após mentira após mentira”, lamentou o apresentador Jake Tapper.

No programa da CNN, Rick Santorum, um comentador do partido de Trump e ex-senador, declarou-se “impressionado e decepcionado” depois de ouvir o Presidente.

Praticamente nenhum grande meio de comunicação corroborou as acusações de fraude eleitoral feitas pela campanha de Trump.

“Trump disse sem provas que a eleição foi corrupta e fraudulenta”, publicou Nicole Carroll, editora do USA Today, um dos jornais generalistas mais lidos nos Estados Unidos.

O Washington Post, o New York Times e o Los Angeles Times também desmentiram o Presidente.

Da mesma forma, a Justiça da Geórgia e do Michigan negou provimento aos primeiros processos movidos por Trump, que depende do apoio mediático da Fox News, que se vai diluindo, e de plataformas “alternativas” que surgiram nas redes sociais.

Folha 8 com Lusa