Abel Chivukuvuku, líder do projecto partidário PRA-JA Servir Angola (que o MPLA, via Tribunal Constitucional, teima em não legalizar), considera que se fosse feita uma verdadeira luta anticorrupção em Angola “o Estado acabava”. E se o Estado acabava, ao MPLA aconteceria o mesmo.

Em entrevista à Lusa, questionado sobre a bandeira (esfarrapada de tanto ser usada em comícios e acções de propaganda) anticorrupção do Presidente da República (não nominalmente eleito), João Lourenço, e se esta visa alvos selectivos em Angola, como têm vindo a defender vários analistas e sectores da sociedade civil e da política, Abel Chivukuvuku apelou à firmeza e ao pragmatismo.

“Todos sabemos que a corrupção, os desvios, foram quase uma questão cultural generalizada e institucionalizada e se houver vontade de fazer uma verdadeira luta contra isso, a máquina do Estado acaba. Terá de haver nova gente”, sugere Abel Chivukuvuku, certamente estribado no facto de todos os casos conhecidos de corrupção serem protagonizados por gente do MPLA.

Abel Chivukuvuku deixou no ar a pergunta: “será que do ponto de vista da estabilidade o país consegue aguentar esses rombos ou precisamos de pragmatismo, moderação e firmeza?”.

Escusando-se a comentar a prestação do Presidente (não vá este mandar Norberto Garcia dizer, na TV Zimbo ou na TPA, que Abel Chivukuvuku não deve cuspir no prato que tanta comida lhe deu) que “será avaliada pelos angolanos em 2022”, ano de eleições gerais, disse ser “um facto que, em 2018, o país estava apaixonado pelo cidadão João Lourenço, porque se revia na luta contra o abuso de poder e o saque generalizado e institucionalizado”, mas duvida que a paixão se mantenha. “Tenho dúvidas se hoje o país ainda tem essa paixão”, destacou.

“Acho que os cidadãos têm razão em questionar [se a luta anticorrupção é selectiva] e as pessoas de bem têm razão em tentar ajudar o Presidente da República”, sublinhando, no entanto, o carácter “sistémico” da corrupção que implicaria uma combinação de firmeza e pragmatismo. “Se significar selectividade, já não é legal nem legítima”, diz .

Abel Chivukuvuku pôs também em dúvida as convicções marxistas-leninistas do MPLA, o partido no poder em Angola há 45 anos (nas contas da Lusa o MPLA só está no Poder desde 1980), considerando que este apenas fez uma metamorfose.

“Tenho dúvida se existiram verdadeiras convicções marxistas-leninistas. Os próprios que diziam que tinha de haver uma sociedade igualitária e nivelada pela pobreza de todos viraram os bilionários deste país, à custa do saque do erário publico”, criticou.

Abel Chivukuvuku lamenta também que Angola mantenha uma Constituição “totalmente centralizadora” e a “partidarização excessiva do Estado onde todos, desde o titular do poder executivo aos administradores dos 264 municípios, são do MPLA”.

“O país não é o MPLA e todos têm a legitimidade e o direito de participar na vida do país, não é possível travar sempre”, o surgimento de novos partidos, disse Chivukuvuku, que ainda não conseguiu legalizar o seu novo projecto político Partido do Renascimento Angolano – Juntos por Angola (PRA-JA) Servir Angola.

Em Junho de 2015, o então presidente da CASA-CE, Abel Chivukuvuku, prometeu que, em caso de vitória nas eleições de 2017, iria construir uma cadeia exclusiva para gestores públicos do Governo, no quadro de um plano anticorrupção.

O anúncio foi feito em Benguela, onde Abel Chivukuvuku falou de pobreza e das políticas públicas. Antes de avançar para a construção da cadeia, o então líder da CASA-CE prometia melhorar a situação social do trabalhador angolano.

Perante centenas de militantes da CASA-CE e representantes da sociedade civil, Abel Chivukuvuku deixou claro que a situação de pobreza, que atinge 60 por cento da população, mereceria destaque na sua campanha eleitoral.

Abel Chivukuvuku considerava que existia um fio condutor capaz de ligar a corrupção aos actuais níveis de pobreza.

Aqui chegado, disse não ser sensato que se castigue o agente da polícia que pede uma “gasosa” ao automobilista, enquanto o ministro se mantém impune.

“Vamos criar uma polícia especial contra a corrupção como os sul-africanos tinham chamada Scorpions, mas com ordens para começar a apanhar de cima, e vamos construir no Sumbe uma cadeia especial para os mais velhos”, garantiu Abel Chivukuvuku.

O então presidente da Convergência Ampla de Salvação de Angola falou também em colonialismo doméstico e teceu duras críticas ao Governo devido ao que chamou de falta de projecto de Nação.

“Agora são José Eduardo dos Santos, Manuel Vicente, Kopelipa, colonialismo doméstico, e a partir daí entrámos no tal ciclo de reprodução da pobreza: uns começaram a ter, e são os novos colonos domésticos, e outros deixaram de ter porque são os excluídos”, acusou Abel Chivukuvuku.

Entretanto, para aquele político da Oposição, o Executivo podia não ser o único culpado pela situação de extrema pobreza em Angola.

“O mais grave das nossas sociedades é o espírito de resignação voluntária do cidadão e ausência do espírito de reivindicação”, concluiu Abel Chivukuvuku, que lamentou que “aceitamos a pobreza”.

Acreditando no mensageiro e respeitando a mensagem, impõe-se que se pergunte a Abel Chivukuvuku, a propósito da (eventual) formação do Partido do Renascimento Angolano – Juntos por Angola (PRA-JA), se aceita (a contrário dos tempos da “sua” CASA-CE) ser salvo pela crítica ou assassinado pelo elogio? Se é a ética que deve dirigir a política? Se as batalhas ganham-se ou perdem-se por causa dos generais ou por causa dos soldados? Se o importante são os que estão na primeira fila (para serem vistos) ou os que estão na última (para verem)?

Folha 8 com Lusa