João Lourenço, o Presidente do MPLA; João Lourenço, o Presidente da República; João Lourenço, o Titular do Poder Executivo, está há três anos a tentar tudo para ver se acerta em alguma coisa. O falhanço é total e clamoroso. O seu núcleo duro de bajuladores ainda não lhe explicou que não é possível caçar jacarés no deserto do Namibe…

Por Orlando Castro

Primeiramente apostou forte em conjugar (sempre na primeira pessoa do singular) o verbo exonerar. E assim foi substituindo seis por meia dúzia, acéfalos por quem não tinha cabeça. Depois descobriu que o Povo estava a precisar de ser operado, e lançou uma série de operações, tipo “Resgate” e “Transparência”. Foram mais umas rajadas de Kalashnikov para tentar arrasar elefantes mas que, afinal, só mataram bissondes.

Quanto aos jacarés do deserto do Namibe, nem vê-los. A saída estava, segundo os seus conselheiros que usavam todos os neurónios que vagueavam pelos intestinos, em mandar prender – por corrupção – algumas figuras que (como ele) se (bes)untaram durante décadas na gamela do erário público. A estratégia teve algum efeito mediático mas começou a aproximar-se demasiado do seu próprio ego, sobretudo quando deu à costa Edeltrudes, um dos seus tubarões.

Pelo meio resolveu colocar em cima da mesa de marfim, decorada com diamantes, a compra de alguns angolanos ditos críticos do regime. Condecorou uns tantos, integrou outros em órgãos ditos de consulta e aconselhamento presidencial. Certo é que as couves continuam a ser plantadas com a raiz para cima.

Com a ajuda da pandemia de Covid-19, o novo Ovo de Lourenço (espécie africana de Colombo) revela que a Polícia está mesmo determinada a não fornecer rebuçados e chocolates à população. Chato é, reconheça-se, que apareçam pessoas a dizer, citando Jonas Savimbi, “vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”.

Em Abril de 2020, Adalberto da Costa Júnior, presidente da UNITA, considerou que o excesso de mudanças (por parte do representante de Deus em Angola) revelava “insegurança”. De facto, quantidade não significa qualidade e João Lourenço continua a não ter dúvidas quando tem de escolher entre néscios do MPLA e génios apartidários. Escolhe os seus…

O responsável da UNITA manifestou também dúvidas sobre mexidas “em tantos ministérios numa fase destas, de luta contra um inimigo público” como a Covid-19. Mas está enganado. Que melhor altura para lançar mais uma cortina de fumo (que às vezes é de ferro) do que esta? Quando os angolanos começam a ter noção de que ou morrem de fome, de Covid-19, ou dos dois juntos, João Lourenço lança para a ribalta mais uma dose industrial de projectos, comissões, exonerações, detenções, confiscos, congelamentos e até coloca uma cereja no topo do bolo da demagogia ao chamar Carlos Rosado de Carvalho para o Conselho Económico e Social.

Carlos Rosado de Carvalho tem todo o direito de aceitar e reverenciar o autor do convite. Uns têm preço, outros têm valor. Uns sabem que se aceitarem a ajuda do leão para derrotar o mabeco, acabarão por entrar na cadeia alimentar do… leão. Outros não.

“Praticamente de dois em dois meses vemos movimentos de ministros, isto demonstra uma grande insegurança de quem está a dirigir, não tem certezas do que está a fazer”, criticou Adalberto da Costa Júnior, frisando que “não é bom para o país”, porque “não há estabilização” e os ministros não têm tempo de ver resultados. É claro que o Presidente do MPLA se está nas tintas para o que os angolanos pensam, a ponto de – presume-se – equacionar a repescagem da estratégia do mais emblemático herói do seu partido, levada a cabo no dia 27 de Maio de 1975.

Onde é que o Estado/MPLA tem dinheiro para tudo isto? O dinheiro só é um problema para a maioria dos angolanos (entre os quais os nossos 20 milhões de pobres), e não para o dono disto, João Lourenço, e seus sipaios. De quem é a Sonangol? De quem é o Banco Nacional de Angola? De quem é o Fundo Soberano? De quem é tudo o que dá dinheiro?

Nessa altura (Abril deste ano) Adalberto da Costa Júnior mostrou-se igualmente surpreendido por continuarem no Governo “alguns nomes muito expostos no plano público, ligados à corrupção no passado”, considerando “que há um proteccionismo à mesma junto do Governo” e que o combate à corrupção “é dirigido”. Tinha razão.

Disse ainda recear que as mexidas fossem para garantir determinados pressupostos de 2023 [ano em que supostamente se realizam eleições gerais] “para pôr algumas pedras, assegurar determinados lugares com garantia de controlo”, declarando-se “preocupado” com o modelo eleitoral que Angola tem e que, mais uma vez, terá uma sofisticada tecnologia que irá reeducar os votantes nos partidos da oposição, transformando os seus votos em votos no MPLA.

“Não é possível uma democracia subsistir quando um partido político manda no instrumento que decide os resultados das eleições”, afirmou Adalberto da Costa Júnior, numa alusão à polémica imposição do novo presidente da Comissão Nacional Eleitoral, que a UNITA contestou. Não será altura de João Lourenço criar um Conselho Eleitoral e Social e lá colocar mais meia dúzia de supostos “opinion makers” que estão carentes de um tacho?

Seja como for, parafraseando, o Presidente do MPLA, da República e Titular do Poder Executivo, se “haver” necessidade o MPLA ainda tem mais uns tantos sipaios capazes de integrar qualquer coisa que sirva de cortina de fumo. Diríamos mesmo que este é um “compromíssio” sagrado para João Lourenço.