A analista da Capital Economics, Virág Fórizs, que segue a economia angolana considera que apesar das tentativas do Governo (o mesmo desde há 45 anos) para reduzir a dependência económica do sector petrolífero “é difícil ver como Angola vai conseguir sair do buraco”. A questão é que o MPLA em vez de tentar sair… aposta tudo em tornar o buraco ainda mais fundo.

“O s preços baixos do petróleo vão não apenas impedir os cofres do Governo de se encherem, o fluxo de investimentos estrangeiros pode também secar, já houve uma grande empresa petrolífera a anunciar a saída e outras poderão seguir-se, e pouco investimento externo pode prejudicar os esforços de diversificação do Governo, portanto é difícil ver como Angola vai conseguir sair do buraco”, disse Virág Fórizs.

Em declarações à Lusa a propósito dos esforços do Executivo de João Lourenço para diversificar a economia, na semana em que se assinalam os 45 anos da independência do país, a analista da Capital Economics responsável por Angola reconhece que o Governo tem-se esforçado por reformar a economia e dar mais espaço a outros sectores para além do petróleo.

“Várias iniciativas de energias limpas foram anunciadas recentemente, e as novas regras de conteúdo local no sector petrolífero também vão ajudar à diversificação, assim como o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, disse a analista, vincando, no entanto, que o panorama continua a ser negativo.

“Os preços do petróleo vão provavelmente manter-se em níveis abaixo dos registados antes da pandemia, e dada a dependência de Angola do sector petrolífero para a receita fiscal, a margem orçamental para apoiar a diversificação será limitada”, aponta a analista, lembrando que a crise económica em Angola não foi gerada pela pandemia. Pois não foi mesmo gerada pela pandemia da Covid-19. A nosso pandemia é bem mais antiga e chama-se MPLA-45.

“Angola entrou na crise do novo coronavírus numa situação muito difícil, com a economia em recessão há quatro anos”, salienta, acrescentando que “o choque externo, em conjunto com os preços baixos do petróleo, vai causar uma significativa queda do Produto Interno Bruto este ano, antes de a economia regressar ao crescimento em 2021, mas sem registar uma recuperação forte”.

Também Robert Besseling, director da consultora EXX Africa, disse que as reformas em Angola poderão ser adiadas devido à crise económica e aos protestos violentos das últimas semanas, o que afecta as relações com o Fundo Monetário Internacional. Juntando a isso a pandemia de Covid-19.

“A crise económica e os protestos violentos que originou vão aumentar a pressão sobre o Governo de Angola para atenuar as reformas definidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as medidas de austeridade”, disse Robert Besseling quando questionado sobre se a crise propícia ou dificulta a implementação das reformas.

“Os recentes casos de corrupção, a falta de empenho na transparência e a falta de reformas no sector bancário vão prejudicar as relações com o FMI e adiar a implementação da agenda reformista”, acrescentou o responsável, na semana em que se assinalam os 45 anos da independência do país cuja governação sempre esteve nas mãos do mesmo partido, o MPLA.

O director desta consultora sedeada em Joanesburgo considerou que a privatização dos activos não petrolíferos está “parada devido à falta de interesse dos investidores” e avisou que isso “prejudica a diversificação económica”.

Os investimentos privados, notou, “são principalmente direccionados para o sector petrolífero, como os 920 milhões de dólares [775 milhões de euros] para a refinaria petrolífera de Cabinda, que estão a ser financiados de forma opaca pela Gemcorp numa altura em que o preço do petróleo ainda está abaixo do ‘break-even’ [ponto de início do lucro]”.

Questionado sobre a evolução da economia de Angola nos próximos anos, em que a maioria dos analistas prevê um regresso ao crescimento económico positivo depois de cinco anos de recessão, Robert Besseling lembrou a recente sondagem feita pela EXX Africa, que mostra que 60% dos angolanos estão pessimistas sobre o país que, aliás, conta com mais de 20 milhões de pobres.

“Apesar de o FMI antever uma modesta recuperação económica no próximo ano, os angolanos estão pessimistas; a elevada inflação e o desemprego massivo são as principais preocupações para muitos angolanos, numa altura em que a agenda de privatizações do Governo está parada devido à pandemia e continua vulnerável a interferências políticas, o que está a manter os investidores estrangeiros relutantes em investir nos activos angolanos”, concluiu o analista.

Folha 8 com Lusa