O telescópio espacial Hubble, que abriu janelas para o Universo ao revelar galáxias, estrelas e planetas como nunca antes vistos, foi lançado há 30 anos, mas o aniversário, na sexta-feira, é ensombrado pela pandemia da Covid-19. Crê-se, aliás, que o primeiro satélite angolano, o Angosat-1, um investimento do Estado superior a 320 milhões de dólares, perdeu-se no espaço depois do seu lançamento em Dezembro de 2017 graças a esta espécie de coronavírus…

Em tempo de confinamento em casa, a Agência Espacial Europeia (ESA), que opera o telescópio com a congénere norte-americana NASA, desafiou os entusiastas das redes sociais a partilharem uma fotografia ou um vídeo de um bolo de aniversário, feito com os ingredientes tradicionais, como farinha e ovos, ou com ingredientes mais criativos, como papel, peças Lego ou barro.

Devido à pandemia, os eventos públicos programados pela ESA e NASA para assinalar a data foram adiados.

Em 2 de Janeiro, quando a doença respiratória aguda ainda não tinha atingido as proporções pandémicas, a ESA divulgou um calendário digital para 2020, com 12 imagens captadas pelo telescópio, uma para cada mês do ano, que resultou de uma iniciativa lançada em Setembro de 2019 nas redes sociais.

O telescópio, que começou a ser construído em 1979, foi lançado para o espaço em 24 de Abril de 1990, a bordo do vaivém Discovery.

O lançamento do engenho, concluído em 1985, foi atrasado devido à suspensão do programa de vaivéns da NASA, depois da explosão, em 1986, de um vaivém Challenger, que vitimou os sete astronautas que seguiam no veículo.

Em 25 de Junho de 1990, dois meses após o telescópio ter sido colocado na órbita da Terra, a 569 quilómetros de altitude, as primeiras imagens difundidas confirmaram que o espelho principal, de 2,4 metros de diâmetro, tinha um defeito que tornava as imagens desfocadas.

A anomalia foi corrigida com cinco pares de espelhos ópticos que foram instalados no telescópio em 1993 e, mais tarde, substituídos por dispositivos mais modernos.

Ao longo da história do Hubble, os equipamentos foram, aliás, reparados ou substituídos em diversas operações de manutenção conduzidas por astronautas.

Há cerca de dois anos, em Outubro de 2018, as observações estiveram suspensas durante três semanas devido a uma avaria num dos giroscópios de reserva, que teve de ser calibrado. Os seis giroscópios do Hubble, que o guiam numa determinada direcção nas observações, tinham sido substituídos em 1999 e 2009.

Apesar da provecta idade para um telescópio, o Hubble não tem data de morte anunciada, assim continuem a funcionar os instrumentos, muito embora se perfile um sucessor, o telescópio espacial James Webb, com lançamento previsto para 2021, após vários adiamentos.

O Hubble, que permite estudar o espaço sem as distorções causadas pela atmosfera terrestre, tem o tamanho aproximado de um autocarro: mede 13 metros e pesa 11 toneladas. Na órbita da Terra, demora 96 minutos a dar uma volta completa ao planeta.

O nome do telescópio foi atribuído em homenagem ao astrónomo norte-americano Edwin Hubble (1889-1953), que demonstrou a existência de outras galáxias, além da Via Láctea, e que o Universo se expande, sabe-se agora de modo acelerado.

Uma das imagens mais famosas registadas pelo telescópio, em 1995, é a Nebulosa da Águia, mais conhecida por Pilares da Criação, por ser um berçário de estrelas.

O portefólio inclui imagens de colisões de dois asteróides ou do cometa Shoemaker-Levy 9 com o planeta Júpiter, de uma explosão de raios-gama numa galáxia distante e das luas de Plutão.

O Hubble foi, em 2014, o primeiro telescópio a observar a desintegração de um asteróide, tendo dado a conhecer o mapa mais detalhado da atmosfera de um planeta fora do Sistema Solar.

Graças ao Hubble foram descobertas, em 2012, sete galáxias primitivas que se formaram há mais de 13 mil milhões de anos, quando o Universo dava os seus primeiros passos. Em 2013, mostrou vapor de água a despontar da superfície da Europa, gerando o interesse da comunidade científica e das agências espaciais por esta lua de Júpiter.

O investigador Pedro Machado, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, destaca ainda, como feitos do telescópio, ”a primeira evidência da existência de um enorme mar subterrâneo na lua Ganimedes, também de Júpiter”, o maior planeta do Sistema Solar onde uma “enorme tempestade”, conhecida pelo “grande olho vermelho” e onde “cabem várias vezes o planeta Terra”, está a “começar a contrair e, eventualmente, irá desaparecer”.

“Ao observar Marte ao longo do tempo, foi possível acompanhar a transformação do aspecto da superfície marciana ao longo das estações do ano”, com a calote polar a alternar entre os hemisférios Norte e Sul “à medida que o inverno marciano migrava de um hemisfério para o outro”, acrescentou à Lusa o também docente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especialista em sistemas planetários.

Para Pedro Machado, “o Hubble foi essencial para o advento de mais alguma disrupção no conhecimento planetário”, tendo-se “revelado fundamental para o desenvolvimento da investigação” em sistemas planetários, incluindo o Sistema Solar.

O telescópio, equipado com vários instrumentos científicos, câmaras, computadores, espectrógrafos e sensores, permite observar corpos celestes na luz visível, ultravioleta e infravermelha (esta última em porções mais reduzidas).

A capacidade de observação na radiação infravermelha será optimizada com o telescópio espacial James Webb, que terá um espelho maior, de 6,5 metros de diâmetro, e instrumentos mais avançados.

Ao olhar melhor através das nuvens de gás e poeira, o James Webb possibilitará estudar a formação de estrelas e aumentar o conhecimento sobre o Universo primitivo, aquele para o qual o Hubble não abriu todas as janelas.

Relembremos os famosos satélites do… MPLA

O Governo angolano assegurou no dia 16 de Janeiro de 2020 que o segundo satélite do país, Angosat-2, em construção a 50% e que deve ser lançado em órbita em 2022, “é o primeiro satélite africano de última geração, alto débito e alta capacidade”. O primeiro satélite, o Angosat-1, um investimento do Estado angolano orçado em 320 milhões de dólares (290 milhões de euros), perdeu-se no espaço depois do seu lançamento em Dezembro de 2017.

“O Angosat-2, conforme foi dito pelo senhor ministro em Dezembro, está ao nível de cerca de 50%, mas o que não significa dizer que os próximos 50% sejam os mais fáceis ou mais difíceis, é porque estamos a falar em tecnologia de alto nível, estamos a falar de um satélite última geração”, afirmou nesse dia o secretário de Estado das Telecomunicações, Mário Oliveira.

Segundo o governante, que falava em Luanda, “apenas os grandes ‘players’ do mercado internacional, os grandes construtores e provedores de serviços de Internet são os que neste momento têm os satélites em órbita com as características do satélite Angosat-2”.

Tendo em vista a entrada em órbita do Angosat-2, que substitui o primeiro que se perdeu no espaço em 2017, decorre um “árduo trabalho” no seio dos especialistas angolanos certificados. “E hoje já sentimos que estamos em melhores condições de poder melhor acompanhar o projecto, ser um participante integral daquilo que é o projecto de construção do Angosat-2”, apontou.

O secretário de Estado, referindo-se ao Angosat-2, acrescentou: “Este satélite, em particular, com essas características que é um satélite que é conhecido de alto débito, de alta capacidade, é o primeiro satélite africano que se vai lançar”.

O responsável falava à margem de uma visita que representantes da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), que participam num ‘workshop’ de capacitação em Ampliação de Satélites, em Luanda, efectuaram ao Centro de Controlo de Missão de Satélites angolano.

Mário Oliveira referiu igualmente que a formação dirigida aos membros da SADC para “aproveitamento das facilidades do uso de infra-estruturas de satélite” surge para Angola apresentar a sua experiência no domínio da tecnologia espacial.

“É uma forma também de divulgarmos os nossos projectos e tirarmos maior proveito possível daquilo que é o nosso programa espacial nacional e muito em particular o satélite Angosat-2”, realçou.

Crise? Onde? Em Angola não é, com certeza. João Lourenço já a exonerou e não tardará a mandar fazer o arresto dos seus… bens. A comprová-lo está o facto de o Presidente já ter aprovado o contrato comercial de construção, lançamento e colocação em órbita do satélite de observação da terra, o Angosat-3, segundo um despacho presidencial publicado no Diário da República.

No despacho 62/19, datado de 8 de Maio, João Lourenço autoriza o Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação a assinar o contrato, bem como a tratar de “toda a documentação relacionada com o projecto em nome e em representação de Angola”.

No preâmbulo do despacho presidencial é escrito que o Angosat-3 surge no quadro da “Estratégia Espacial da República de Angola 2016-2025” e da “importância vital da utilização do espaço para fins pacíficos” para o desenvolvimento socioeconómico e o posicionamento estratégico de Angola.

“A utilização do espaço contribui de forma transversal para o desenvolvimento dos sectores produtivos e não produtivos que permite uma gestão eficiente dos recursos minerais, navegação marítima e aérea, bem como para um melhor planeamento territorial, controlo e defesa das zonas transfronteiriças”, argumenta-se no documento.

No despacho presidencial não é indicado qualquer montante para a celebração do contrato para o terceiro satélite, numa altura em que a Angola aguarda pela entrega, prevista para 2021, ou 2022 ou… do Angosat-2.

Em 11 de Fevereiro de 2019, o então ministro das Telecomunicações e Tecnologias da Informação, José Carvalho da Rocha, afirmou que o Angosat-2, em construção em França, estaria operacional em 2021 e custaria 320 milhões de dólares (280 milhões de euros).

O novo satélite começou a ser construído em 24 de Abril do 2018 pela empresa francesa Airbus, construtora que acolheu cerca de seis dezenas de técnicos angolanos, enquadrados em equipas permanentes, para acompanhar o projecto.

Sobre o desaparecimento do Angosat-1, construído e lançado na Rússia, o ministro indicou então que as informações de que dispõe vão no sentido de que o satélite continuará em órbita, mas que terá deixado de transmitir sinal na altura em que fazia a rotação para alinhar os painéis solares em direcção ao sol.

O primeiro satélite angolano, um investimento de cerca de 270 milhões de euros, foi projectado para sair para órbita a partir de Baikonur, no Cazaquistão, numa operação coordenada pela Roscosmos, a agência espacial russa e foi lançado para o espaço em 26 de Dezembro de 2017.

Contudo, assim que entrou em órbita, houve uma pausa nos contactos com o satélite. Inicialmente, ainda se conseguiu recuperar as comunicações, que, pouco depois, seriam perdidas novamente até ao presente.

Na altura, o executivo formou perto de 50 especialistas para garantir a gestão das infra-estruturas inerentes, com o objectivo de reforçar os serviços de telecomunicações africanos.

“Para nós, [o desaparecimento do Angosat-1], é caso para esquecer. Agora estamos a olhar para o Angosat-2”, afirmou então José Carvalho da Rocha.

Ao que tudo indica (é isso, não é Presidente João Lourenço?), com os Angosat o nosso país deixará de ter 68% da população afectada pela pobreza, ou uma das mais altas taxas de mortalidade infantil no mundo.

Será também graças aos satélites que não mais se dirá que apenas um quarto da população tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, ou que 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos.

Do mesmo modo, com os Angosat não mais se afirmará que a taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino. Ou que 45% das crianças sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Ao contrário do que pensavam os angolanos, não vai trazer comida, nem medicamentos, nem casas, nem escolas, nem empregos, nem respeito pelos direitos humanos. Importa, contudo, compreender que há prioridades bem mais relevantes. E o satélite é uma delas.

Folha 8 com Lusa