A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que Angola poderá ter cerca de 10 mil casos até Julho. Enfermeiros e médicos ouvidos pela DW África dizem que o sistema de saúde é limitado para esse volume de infecções e pode entrar em colapso. Um enfermeiro ouvido pela DW África – que prefere não ser identificado (o que só por si é elucidativo) – diz que o serviço nacional de saúde não está preparado para fazer face a pandemia.

“H á insuficiência de material gastável e não só. Também ainda há falta de treinamento das equipas para dar resposta a pandemia”, afirma. Esta é, aliás, uma radiografia que já tinha validade total mesmo antes do surgimento da pandemia da Covid-19. De facto, nos hospitais falta tudo, desde organização, camas, oxigénio, balões respiratórios, casas de banho, água, sabão, papel higiénico, álcool, lençóis, alimentação adequada, higiene…

A pandemia da Covid-19 apanhou todos países praticamente desprevenidos, mesmo aqueles em que – ao contrário de Angola – a saúde é considerada como uma prioridade. A ministra da Saúde de Angola, Sílvia Lutucuta, reconhece que o país também não está preparado para uma eventual contaminação comunitária do vírus.

“Nenhum país está preparado para o pior, e nós estamos a tomar medidas para que o pior cenário não chegue ao nosso país”, esclarece Sílvia Lutucuta.

O médico e deputado da UNITA, Maurílio Luiele, concorda com o “factor surpresa” salientado pela ministra. Para o parlamentar, o que se passa em Nova Iorque, nos EUA, seria um exemplo disso. “Os países têm que envidar esforços para estar à altura. No nosso caso, é preciso considerar que partimos de uma base bastante fragilizada”, considera Luiele.

Analistas e cidadãos, com um optimismo perigoso, consideram a estrutura sanitária do país bastante débil. Para além da escassez de hospitais, centros de saúde, material técnico e humano, também há problemas de recursos financeiros. Ou seja, não é bastante débil. É, só por si, uma catástrofe.

Segundo Sílvia Lutucuta, uma das medidas que estão a ser tomadas é a aquisição de mais ventiladores para os aparelhos médicos de oxigénio. As autoridades sanitárias também receberão médicos cubanos e decorre uma formação técnica para o uso de ventiladores e outros itens.

“Nesta altura já não estamos a diferencia o sector público e privado de saúde. Estão já em requisição 38 ventiladores para apoiar o país todo e reforçar os existentes. A competição ao nível internacional [para aquisição de ventiladores] é muito grande, mas nós estamos a ter o apoio directo por via diplomática do governo chinês”, garante a ministra.

A população queixa-se de falta de luvas, máscaras e outro material de biossegurança. Muitos socorrem-se de máscaras feitas com panos. O ministro do Comércio, Víctor Fernando, garante que não há ruptura de stock destes meios, apesar de os itens não estarem disponível como estariam em situação normal. Quem quiser pode (mas não deve) acreditar.

“Os operadores continuam a trabalhar. Não temos qualquer informação sobre quebra de stock. Agora, é óbvio que estamos mais atentos e actuantes quanto a alguma eventualidade de especulação ao nível dos preços. Não vamos permitir isso ao nível das farmácias nem nos bens alimentares”, diz Víctor Fernando, numa mensagem apaziguadora mas que reflecte uma forma de tentar tapar o Sol com uma peneira.

O Governo já deslocou 4,5 mil milhões de kwanzas (o equivalente a 8,3 milhões de euros) para a prevenção do Covid-19. Ainda assim, os números de infevções continuam a subir. Entre as mais de dez pessoas infectadas está uma criança de apenas um ano.

Maurílio Luiele sugere (e bem) que o melhor mesmo é ficar em casa e observar o distanciamento social. “Todos estamos a ver que a infecção pela Covid-19 tem uma velocidade de propagação muito alta, mas pode ser mitigada com estas medidas de prevenção”, alerta.

Apesar de não se saber exactamente quando será o fim da pandemia, o mundo já pensa nos seus efeitos para a economia e outras áreas. Luiele, que também é mestre em biociências, não tem dúvidas de que o Estado angolano terá de apostar mais nas Ciências Médicas.

“A partir desta crise da Covid-19, tomem consciência da importância do papel das ciências [para a intervenção] nestas crises e no impulsionamento do desenvolvimento do país. Os países que vão sair desta mais fortalecidos são, sem dúvidas, aqueles que investem em ciência”, considera o político.

Folha 8 com DW África