Uma deputada do Bloco de Esquerda, Sandra Cunha, esteve no dia 25 de Janeiro de 2019 na manifestação de apoio aos moradores do bairro da Jamaica, no Seixal, distrito de Setúbal, onde defendeu que Portugal tem um “problema de racismo institucional”. Esqueceu-se, contudo, de também dizer que Portugal tem em alguns dos seus deputados um problema de nanismo intelectual e civilizacional, para além de um manifesto complexo de inferioridade.

Por Orlando Castro

“O combate à violência passa também pelo combate aos preconceitos, ao racismo, à xenofobia e nós sabemos que Portugal tem um problema de racismo institucional, é um problema estrutural, é um problema que não é só o Bloco que o afirma”, referiu Sandra Cunha. E, a fazer fé no que os bloquistas revelaram na altura, tem também um problema atávico de imbecilidade e nescidade.

A deputada falava aos jornalistas em frente à Câmara do Seixal, onde decorria uma manifestação de apoio aos moradores do bairro da Jamaica, à qual os moradores não compareceram, contra as alegadas agressões, racismo policial e por habitações dignas.

Para Sandra Cunha, deveria haver “uma maior aposta” na educação e formação das forças policiais. É uma boa medida que deveria, inclusive, ser alargada a alguns deputados portugueses (quase todos os do BE) para quem os angolanos são uns matumbos que precisam de cães-guia para saberem onde devem urinar.

“O relatório da equipa contra o racismo e insegurança da Comissão Europeia, que saiu no ano passado, refere precisamente e faz recomendações nesse sentido porque há focos de violência, racismo e discriminação nas forças policiais. O papel das forças policiais é absolutamente crucial para garantir a segurança da população, valorizamos o trabalho dos elementos e consideramos que a sua imagem não pode ser manchada pelo comportamento de alguns”, frisou.

Tem razão. Aliás, se a qualidade intelectual dos deputados portugueses se medir pela de Sandra Cunha, é bem certo que os portugueses também precisam de muitos cães-guia…

Quando questionada sobre as críticas de que o Bloco de Esquerda tem sido alvo, a deputada garantiu que o partido apenas estava a defender o fim da violência. Mentira, senhora deputada. O seu partido está a defender um nicho de mercado (eleitoral) e está a ser racista, passando-nos um atestado de menoridade e matumbez.

“Não é um aproveitamento quando faz parte daquilo que o Bloco de Esquerda sempre fez, estar contra o racismo, contra a discriminação, que é aliás aquilo que todas as pessoas, e ainda mais com responsabilidades políticas, se deviam manifestar por uma sociedade igualitária e sem violência. Estamos aqui a mostrar que esta gente não é violenta”, frisou.

“As pessoas são livres de participar e apoiar aquilo que entenderem. O Bloco de Esquerda sempre esteve do lado da igualdade, do respeito, da luta contra a discriminação, contra a violência e é por isso que estamos aqui também para prestar esse apoio e para dizer que estamos numa manifestação física, como se pode ver, e que exige aquilo que são valores fundamentais da nossa democracia, que são a igualdade, a liberdade, a não violência, o não ao racismo e combate à descriminação”, mencionou.

Sandra Cunha alertou também para a realidade económica e habitacional dos moradores de Vale de Chícharos.

“O bairro da Jamaica tem graves carências económicas, vive em condições de habitabilidade desumanas e o Bloco de Esquerda conseguiu na Assembleia da República que o processo de realojamento fosse feito com os moradores. Esse é um grande passo e esperemos que o processo decorra com toda a tranquilidade e não seja manchado com estes incidentes”, afirmou.

Quando questionada sobre o porquê de uma manifestação à porta da câmara municipal, que está a financiar a maior parte dos realojamentos em Vale de Chícharos, a deputada esclareceu que essa decisão “não foi da autoria do Bloco”.

“Só estamos aqui a apoiar no local onde as pessoas escolheram para isso. A câmara é um órgão do poder local e presumo que seja por isso a escolha, por ser um órgão político que também tem responsabilidades nessa matéria, especialmente nas questões do realojamento”, explicou.

Talvez não tivesse sido má ideia, tal como em 2016, Sandra Cunha apresentar-se com um cartaz com a imagem de Jesus Cristo, não a dizer que “Jesus também tinha 2 pais”, mas a afirmar que Ele era, afinal, racista.

«Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou ainda pela sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar», disse Nelson Mandela.

Apesar dos “progressos na luta contra o racismo” dos últimos 50 anos, “a discriminação racial ainda representa um perigo claro para pessoas e comunidades” em todo o mundo, dizia o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

A intervenção da Polícia de Segurança Pública de Portugal no bairro da Jamaica, no Seixal, em que cidadãos negros foram agredidos foi alvo de uma queixa feita ao Ministério Público português pela associação SOS Racismo.

Alguns desses cidadãos negros agredidos são portugueses. Se, por acaso, o mesmo incidente (rigorosamente o mesmo) fosse apenas entre a PSP e cidadãos portugueses mas… brancos, a SOS Racismo diria o quê?

No final de 2018, numa conhecida sala de espectáculos da cidade do Porto (Portugal), uma senhora negra, acompanhada por dois filhos menores, tentou entrar para a plateia quando o seu bilhete era para a galeria. O funcionário de serviço explicou-lhe que teria de se dirigir a outra entrada. A senhora, aos berros, vociferou: “Você está a fazer isso porque eu sou preta”. Ninguém nos contou. Nós vimos.

Em Dezembro de 2018, durante o debate que antecedeu a aprovação sobre a Lei de Repatriamento de Capitais em Angola, o advogado e fundador da associação Mãos Livres, David Mendes, deputado independente eleito nas listas da UNITA, disse: “Estou farto dos portugueses em Angola”. Não, não disse que estava farto de alguns portugueses. Não disse que estava farto de alguns empresários portugueses. Não disse que estava farto de alguns chulos portugueses. Meteu os portugueses todos no mesmo saco.

Numa mensagem a propósito do Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, o então secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, recordou que, “todos os dias, pessoas de todas as idades suportam ódios, injustiças e humilhação devido à sua cor de pele, origem nacional ou étnica”.

Intitulada “Aprender com as tragédias do passado para combater o racismo hoje”, a mensagem reafirmava o “compromisso” das Nações Unidas “em construir um mundo de justiça e igualdade onde a xenofobia e a intolerância não existem”.

Ban Ki-moon apelava a que se aprenda com os “erros históricos”, como é o caso do colonialismo ou de regimes segregacionista como o do apartheid, na África do Sul, para que se possa “erradicar o preconceito”.

Pessoalmente continuo, por muito que isso custe a alguns, a ficar virado do avesso quando, e em Portugal isso é mais do que comum, africano é sinónimo de negro e angolano é sinónimo de empregado da construção civil ou de mulher da limpeza.

Cada vez que falo deste assunto, explicam-me que não é uma questão de racismo mas, talvez, de ignorância. Na melhor das hipóteses admito que seja uma simbiose das duas.

Também me chateia ver (e chateia que se farta!), por exemplo, alguns angolanos negros, supostamente nada racistas e intelectualmente evoluídos, confundir a vida nas esquinas com as esquinas da vida, advogando a igualdade e praticando a desigualdade, utilizando a cor da pele para justificar – por exemplo – a sua incompetência.

Estou farto de, em Portugal, entre dois eventuais autores – um negro e outro branco – de um qualquer crime, o suspeito principal ser sempre o negro. Estou farto dos discursos e das práticas racistas que, depois de tantos anos de democracia, associam a população negra a toda a criminalidade.

Tal como estou farto de, por manifesto complexo de inferioridade, os angolanos negros julgarem que a cor da pele é livre trânsito para apedrejar (fora de Angola) a Polícia ou para, como acima referi, querer entrar para a plateia quando se tem bilhete para a galeria.

Por último, relembro novamente Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. E, por isso, a “nossa pretensão é ter uma sociedade não racial. Estamos a lutar por uma sociedade em que o povo deixará de pensar em termos de cor. Não é uma questão de raça; é uma questão de ideias”.