Num país de 30 milhões de habitantes e que tem 20 milhões de pobres, é caricato e ultrajante ver a primeira-dama da Reino, Ana Dias Lourenço, defender a necessidade dos cidadãos investirem mais o seu tempo e recursos no aumento dos níveis de literacia financeira. Soubesse a esposa do Presidente da República o que é ser gerado com fome, nascer com fome e morrer com fome e estaria caladinha.

Por Orlando Castro (*)

Ao discursar na abertura da 2ª Feira do Investidor, promovida pela Comissão de Mercado de Capitais (CMC), Ana Dias Lourenço sublinhou que esse investimento permitirá que os cidadãos tenham a capacidade de identificar as oportunidades e os riscos existentes no sistema financeiro, adoptando decisões conscientes.

Pois. Provavelmente deveriam investir nessa informação em vez de procuraram mandioca nas lavras, restos de comida nos contentores do lixo do Palácio Presidencial ou estar de olho nos restos da festa de casamento da filha de Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nandó”, sendo certo que João Lourenço e os restantes ilustres convidados não devem ter comido tudo.

Ana Dias Lourenço exortou os reguladores do sistema financeiro e as instituições bancárias e não bancárias a continuarem a empreender todos os esforços com vista a dar suporte às acções do Plano Nacional de Inclusão Financeira. Em rigor, Plano Nacional de Inclusão Financeira para cidadãos de barriga vazia e para quem só sabe o que é uma refeição por ouvir falar disso.

Ana Dias Lourenço considerou que a inclusão financeira é crucial para o desenvolvimento humano, sendo necessário para o desenvolvimento de qualquer país. Tem razão. Isto, é claro, tendo em contra que humanos são apenas aqueles que o MPLA quer que sejam.

A primeira-dama frisou que num contexto cada vez mais digital, em que os processos se desmaterializam, é imperioso que todos os cidadãos sejam parte integrante do sistema financeiro, utilizando as ferramentas disponibilizadas neste sistema, para gerir de forma adequada os seus rendimentos e poupanças.

Tem razão. Na era digital, vamos apostar tudo para que os nossos 20 milhões de pobres possam ter ferramentas digitais para saber, a todo o momento, quais são os contentores de lixo que têm comida, que tipo de alimentos têm, qual o seu valor nutricional, se têm de pagar IVA para os recolher etc. etc..

De acordo com a primeira-dama, a dinamização do mercado de capitais em Angola, devidamente supervisionada (por entidades controladas pelo MPLA, obviamente), tendo o seu lucro na bolsa de valores, pujante em profundidade e liquidez, fará emergir uma nova geração de empresas angolanas renovadas, com aptidão empreendedora, tecnológica e fortemente vocacionada para elevar, com capacidade de resposta, os novos segmentos de procura no mercado interno e também externo.

Segundo a primeira-dama, um mercado de capitais forte terá sempre na sua base empresas fortes e bem geridas, empresas que pautem a sua actuação por princípios éticos e de boa governação corporativa, que primem pela transparência dos seus actos e pela criação de valor.

De igual modo, disse, estarão nessa base empresas que sejam capazes de criar empregos suficientemente apelativas para atrair investimento estrangeiro.

“Não basta o envolvimento e compromisso do governo para melhor os níveis de qualidade de vida e bem-estar dos cidadãos. Todo esforço será infrutífero se não houver um compromisso de todos os cidadãos para o alcance deste desiderato”, frisou Ana Dias Lourenço. E frisou muito bem, certamente baseada no empirismo do tempo em que exerceu a sua actividade de zungueira… É que isto de falar do Povo tem muito que se lhe diga, sobretudo quando o Povo é visto apenas como uma espécie menor de gente.

Ana Dias Lourenço disse que o reforço das competências e da capacidade de gestão das finanças pessoais dos cidadãos é um objectivo bem presente em todas as economias, pelo que em Angola não poderia ser diferente. “Fianças pessoais”? De quem? Pois, é claro. Dos poucos que têm milhões e não dos milhões que têm pouco… ou nada.

Assim, acrescentou Ana Dias Lourenço, os organizadores (CMC), por força das recomendações da Organização Internacional das Comissões de Valores (IOSCO), são instados a convidar uma personalidade pública de referência (que tal uma zungueira?) para apoiar a divulgação e elevar a importância do evento junto do maior número de pessoas possíveis.

“Foi por isso que decidi juntar-me a esta feira”, justificou Ana Dias Lourenço. E que tal juntar-se, anonimamente, às angolanas que diariamente correm Ceca e Meca para arranjar algum dinheiro para alimentar os filhos?

A Feira do Investidor acontece em simultâneo na Mediateca de Luanda (Largo das Escolas) e na Mediateca “Zé-Dú” (Cazenga), com o objectivo de destacar a importância da educação financeira e da protecção do investidor, ao mesmo tempo que visa proporcionar oportunidades de aprendizagem de temas relacionados com a poupança e o investimento.

A exposição, que conta com a participação de 17 empresas dos sectores financeiro e bancário, enquadra-se nas actividades a serem realizadas durante a Semana Mundial do Investidor (de 1 a 7 de Outubro), iniciativa promovida pela Organização Internacional das Comissões de Valores (IOSCO).

A IOSCO é o organismo internacional que reúne os reguladores do Mercado de Valores Mobiliários, que conta com representantes de mais de 200 países cobrindo quase a totalidade da capitalização do Mercado de Valores Mobiliários Mundial.

A CMC foi oficialmente admitida como membro ordinário da IOSCO em Julho de 2017, concretizando assim um dos objectivos da sua estratégia para dotar o sistema financeiro angolano de um Mercado de Valores Mobiliários transparente, eficiente e credível.

(*) Com Angop

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