O Banco Nacional de Angola (BNA) indicou hoje que vai disponibilizar este mês 700 milhões de dólares (610 milhões de euros) em moeda estrangeira aos bancos comerciais, mantendo a frequência diária de leilões de preços na venda de divisas.

No primeiro comunicado de 2019, o BNA refere que a venda de divisas se destina também a garantir os “plafonds” para cartas de crédito, bem como a liquidação de cartas de crédito, ao atendimento às casas de câmbio e às operadoras de remessas.

Após cada sessão, o BNA divulgará, no seu portal institucional, o montante disponibilizado, o número de participantes, as taxas de câmbio máxima e mínima admitidas bem como a taxa de câmbio média resultante da sessão.

Hoje, as taxas de câmbio mantêm-se inalteráveis face às registadas no último dia de 2018, a moeda europeia está cotada a 354,828 kwanzas/euro (a 1 de Janeiro de 2018 transaccionava-se a 185,4 kwanzas/euro), o que corresponde a uma depreciação de mais de 47%, tendo atingido mínimos históricos há cerca de mês em meio (355,057 kwanzas/euro).

Em relação ao dólar, o kwanza manteve-se estável desde 26 de Dezembro, transaccionando-se a 310,158 kwanzas/dólar (há um ano, quando se situava nos 165,92 kwanzas/dólar, a moeda angolana depreciou-se 46,504%).

Acabadas as sessões de venda trissemanais de divisas em leilão aos bancos comerciais, iniciadas a 9 de Janeiro de 2018, o BNA está desde 1 de Novembro a proceder a operações diárias, tendo, em Dezembro colocado no mercado primário 1.450 milhões de dólares (1.260 milhões de euros).

A consequência mais imediata e mais visível da desvalorização do kwanza é o aumento de preços. A desvalorização de uma moeda fraca como a nossa, sem circulação monetária fora de fronteiras, não afecta apenas os preços dos bens e serviços importados, abalroando também todos os preços internos, inclusive dos bens produzidos no país. Isto porque é preciso mais dinheiro para comprar as mesmas coisas.

Do ponto de vista da barriga dos angolanos, com a desvalorização do kwanza o preço dos alimentos são directamente afectados. Do outro lado da “moeda”, a compra dos nossos produtos pelo estrangeiro torna-se mais barata. Assim, as empresas nacionais que exportam têm de vender mais quantidade para obter o mesmo lucro.

“A desvalorização cambial mexe com toda a estrutura de preços da economia, aumentando a taxa de inflação, reduz o poder de compra dos consumidores, gera aumento das taxas de juro do banco central, encarecendo o preço do dinheiro na banca comercial, entre outras consequências directas e indirectas”, explica Paulo Daniel Q. Sapateiro, fundador da marca “Finanças para Todos”.

Este especialista acrescenta que “sendo o Kwanza uma moeda de circulação fechada, instável, sendo das moedas que mais caiu (…), tal comportamento cambial influencia negativamente a vontade de investir num país com este critério depreciativo”.

Paulo Daniel Q. Sapateiro diz que “se um país desvaloriza continuamente a sua moeda, ele está a mandar um sinal claro aos investidores estrangeiros: mantenham o vosso capital e conhecimento noutros países”. Pelo contrário, “um país de moeda forte e estável envia um sinal bem diferente ao mundo: “tragam o vosso dinheiro; mandem para cá os vossos especialistas; construam as vossas fábricas aqui; ensinem-nos tudo o que vocês sabem; e a riqueza que vocês criarem aqui voltará para vocês multiplicada e numa moeda que mantém seu valor”.

E é exactamente por isso que uma moeda forte e estável é indispensável para o crescimento económico. Quando a moeda é estável, os investidores têm mais incentivos para se arriscar e financiar ideias novas e ousadas; têm mais disponibilidade para financiar a criação de uma riqueza que ainda não existe. O investimento em tecnologia é maior. O investimento em soluções ousadas para a saúde é maior. O investimento em infra-estruturas é maior.

“Quando a moeda é instável — ou passa por períodos de forte desvalorização, os investidores preferem refugiar-se em investimentos tradicionais e mais seguros, como títulos do governo, ouro, etc.. Neste cenário, não há segurança para investimentos de longo prazo, que são os que mais criam riqueza”, refere o especialista, acrescentando que “é exactamente por isso que, em países cuja moeda tem histórico de alta desvalorização, (alta inflação de preços), são raros os investimentos vultosos de longo prazo. É por isso que, em países cuja moeda tem histórico de alta desvalorização, os juros são altos. É por isso que, em países cuja moeda tem histórico de alta desvalorização, os bens produzidos são de baixa qualidade. É por isso que, em países cuja moeda tem histórico de alta desvalorização, as pessoas são mais pobres”.

Folha 8 com Lusa

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