O Presidente angolano apelou a empresários dos Emirados Árabes Unidos (EAU) para investirem “sem medo” em Angola, “país de grandes oportunidades” e que, em pouco tempo, “criou um ambiente de negócios favorável”. Terá criado, igualmente, todas as condições para que sejamos entendidos como um país rico que em vez de riqueza gera ricos, gera milhões de pobres, mas que tanto aceita comprar agora um sistema de dessalinização como, em tempos, aceitou comprar limpa-neves para Luanda.

João Lourenço respondia a questões colocadas num painel sobre o Futuro e Desenvolvimento de África com o seu homólogo do Mali, Ibrahim Boubacar Keïta, na abertura da Cimeira sobre Futuro Sustentável, enquadrada na Semana da Sustentabilidade de Abu Dhabi, iniciada na segunda-feira e que termina no sábado.

Priorizando as áreas de exploração petrolífera, turismo, agricultura e indústria, João Lourenço indicou, porém, que o investimento é bem-vindo “em qualquer outro domínio”. E se alguém inventar que as couves crescem mais e são melhores se forem plantadas com a raiz para cima… o MPLA compra.

O chefe do Estado do MPLA lembrou outra prioridade do executivo que lidera, o “combate efectivo” à corrupção e à impunidade, com o objectivo de moralizar a sociedade e melhorar o ambiente de negócios.

Lidera o quê? Bom. Nos manuais deste combate, o Presidente mandou inscrever o uso de “armas” letais, de modo a assegurar o êxito nas batalhas e na guerra. Não definiu, contudo, os alvos (se o fizesse talvez tivesse de se incluir a si próprio) e por isso os operacionais estão a cilindrar sobretudo os pilha-galinhas, deixando incólumes os donos dos galinheiros e sobretudo os donos dos donos dos galinheiros.

Segundo João Lourenço, a corrupção é um dos “maiores males” com que “a classe política, ou parte dela”, lidava na gestão do erário público e que, como consequência, acabava por afectar a sociedade, no seu geral. Tem, é claro, razão e fala com inequívoco conhecimento de causa. Por alguma razão ele foi (entre outros elevadíssimos cargos) vice-presidente do MPLA na presidência de José Eduardo dos Santos e seu ministro da Defesa.

A aposta na diversificação económica, prometida há 43 anos pelo MPLA, insistiu, “é fundamental” para priorizar a redução da dependência do petróleo, pelo que, no apelo aos empresários dos EAU, o Governo está a incentivar uma maior presença do sector privado na economia do país e “reduzir a excessiva intervenção do Estado”.

Quem sabe… sabe. Todo o mundo ficou rendido a tão paradigmática quanto original descoberta da pólvora feita com os caroços de loengos. Com que então… apostar na diversificação da economia? Reduzir a dependência do petróleo? Rendamo-nos à perspicácia do Presidente, provavelmente “Arquitecto da Diversificação”.

Antes das perguntas do empresariado local, e numa intervenção de fundo na cimeira mais centrada sobre o continente africano, João Lourenço defendeu que, para se desenvolver, África terá de vencer os desafios do analfabetismo, electrificação e industrialização.

“África precisa de vencer três grandes desafios: acabar com o analfabetismo, electrificar-se e industrializar-se para se desenvolver. Para isso, precisamos de (…) mão-de-obra qualificada, quadros superiores, cientistas e investigadores, valorosas peças de arte, matéria-prima em estado bruto, e até fortunas pessoais que deviam servir as nossas economias e que continuam a sair de África para o resto do mundo em condições desfavoráveis”, sublinhou. Aplausos.

Segundo João Lourenço, África precisa de fazer “o inverso”, atrair para o continente o que há de melhor no mundo, como o conhecimento, os avanços da ciência e da tecnologia, o capital, o investimento privado e know-how para transformar localmente as matérias-primas.

“Por outras palavras, precisamos de industrializar o nosso continente. Só assim vamos criar riqueza e bem-estar para os nossos cidadãos e emprego como principal fonte para todas as oportunidades”, sustentou numa nova e igualmente paradigmática descoberta.

Manifestando-se “optimista” em relação ao futuro de África, o Presidente angolano indicou que o sonho do desenvolvimento “é realizável” se se tiver em conta que outros continentes, como a Ásia, conseguiram dar o salto em menos de meio século”, passando de importadores a exportadores de alta qualidade.

João Lourenço esteve desde domingo em Abu Dhabi, onde participou, na segunda-feira, como convidado de honra, na cerimónia de entrega do prémio Zayed para a Sustentabilidade.

Organizado pela Masdar, Holding de Desenvolvimento Sustentável de Abu Dhabi, o encontro contará com a presença de líderes mundiais ligados às políticas públicas e com investidores, que vão discutir e procurar soluções para os desafios do sector da energia.

Angola abriu uma representação diplomática nos EAU em 2004, através de um consulado geral, que passou, quatro anos depois, ao estatuto de embaixada. Os dois países cooperam nas áreas de petróleo, gás, agricultura, entre outras.

Angola e os EAU são membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e rubricaram dois acordos, em Junho de 2015, sendo um de cooperação económica e técnica e outro de criação da comissão mista entre os Estados.

Folha 8 com Lusa

Partilhe este artigo