A política angolana anda de pantanas e os políticos de pantufas, para graça dos actores principais e desgraça da maioria dos autóctones que, cada vez menos impávidos e cada vez mais revoltados, assistem a um drama que os envolve e os ameaça comer… vivos. Falta a essa tribo, principalmente à que está no poder, noção (por mínima que seja) sobre o que é humildade de servir os cidadãos eleitores e a vaidade umbilical de se servirem do cargo que temporariamente ocupam.

Por William Tonet

O Folha 8 face ao interesse manifestamente público e à relevância de um caso sensível, noticiou em primeira-mão ou, como se diz na gíria jornalística, teve o furo, a recusa de apoio protocolar do Estado, consagrado na Constituição (art. 133), por parte de José Eduardo dos Santos, face ao que este considera de múltiplas e permanentes calúnias, sobre o seu consulado (38 anos de poder), mas também de humilhações, ofensas à sua honra e dignidade, principalmente depois de 8 de Setembro de 2018, quando João Lourenço assumiu todos os poderes: presidente do MPLA, Presidente da Republica, comandante-em-chefe das FAA, Chefe de Estado, Titular do Poder Executivo, nomeador exclusivo do Procurador-Geral da República, dos juízes, incluindo presidentes de todos tribunais superiores, controlador absoluto do poder legislativo, entre outros ilimitados poderes.

A repercussão da notícia, não tardou a causar mal-estar, nos corredores palacianos.

De imediato, o Protocolo de Estado por orientação expressa do actual Presidente da Republica (que desde Setembro de 2018, não fala, com o antecessor) determinou diligências urgentes junto de Eduardo dos Santos, para a situação não resvalar.

Mas, talvez pelo (paupérrimo) nível da primeira delegação, esta não obteve os resultados desejados, pelo que foi accionado o plano B; contactar (na ausência de Isabel e Tchize dos Santos), o general Leopoldino do Nascimento, mas ao que tudo indica, nem este conseguiu demover JES, tais são as mágoas, que ainda (ou para sempre) carrega, por ter sido considerado, pejorativamente, “Marimbondo-Mor”, ou seja, chefe de quadrilha criminosa, delapidador exclusivo do dinheiro do erário público.

Ainda assim, o máximo conseguido, pelo lugar-tenente, foi arranjar disponibilidade de um encontro “sine-die” com novos emissários da Presidência da República.

Foi diante deste quadro que, pela primeira vez, João Lourenço terá dado conta, que ser Presidente do maior partido político e de Angola é uma função de maior nobreza do que a de semeador de conflitos, principalmente contra quem lhe deu, por decisão própria, pessoal e exclusiva, o duplo bastão (partidário e de chefia do Estado), afastando-o de uma possível eleição interna (MPLA), onde, seguramente, não ganharia a outros tubarões, melhores cotados, tais como, Fernando da Piedade Dias dos Santos “Nando”, Roberto de Almeida, Isaac dos Anjos, Manuel Vicente. Com o caldo a entornar e a escaldar, ouvindo o conselho de alguns próximos, antes tarde do que nunca, pensou que a sua intervenção pessoal poderia não só atemorizar como a convencer JES a recuar.

Mas, a decisão de, pela primeira vez, ir à residência de JES, no Miramar, sendo que muitos da equipa de JLo o consideram um político medroso, não foi bastante, para o atemorizar, pelo contrário, disse fonte do F8, o presidente da República encontrou um homem sereno e prudente que fez vincar a sua posição, justificada em todos ataques ferozes, vorazes e danosos, para a sua reputação, “desde que livremente, sem pressão de ninguém, lhe indiquei, contra muitas resistências internas, a chefia do partido e do Estado”, terá dito na audiência.

Dos Santos terá confrontado, ainda, o seu alto interlocutor, contra todas as farpas de ter deixado os cofres do Estado vazio, “ou ainda de ele e os filhos, terem sido os únicos beneficiários do dinheiro público. Mas será que o próprio camarada João Lourenço, que está a ser carrasco dos outros, consegue provar a licitude, a transparência do seu património”?

Ora, foi isso que “levou o camarada Presidente a prescindir do apoio do Protocolo, na lógica de se ele prejudicou o país, então não quer continuar a fazê-lo, para não dar mais motivos de receber insultos, nos discursos de João Lourenço, que quer passar a imagem de ser o único dirigente impoluto, que sempre soube gerir os fundos públicos e conseguiu provar, aquando das suas passagens como comissário provincial, governador de província, chefe da Direcção Política Nacional das FAPLA, secretário-geral e vice -presidente do MPLA, ministro da Defesa e ainda como cabeça-de-lista do MPLA, essas mais-valias. Ele alguma vez não participou e não apoiou as decisões que foram sendo tomadas, ao mais alto nível? Inclusive, quando hoje ele fala contra a nomeação do Zenú, para o Fundo Soberano e da Isabel dos Santos, para a Sonangol, é muita hipocrisia, pois ele (JLo) foi dos mais fervorosos apoiantes. Nunca disse, um não, tão pouco, alguma vez, no bureau político do MPLA ou Conselho de Ministros, apresentou, verbal ou por escrito, protesto ou insatisfação, logo ele é cúmplice e tão responsável, quanto os outros. Se chama os outros de marimbondos e também beneficiou, não deixa de ser marimbondo e é tão ou mais criminoso, que os outros, pois tinha consciência que estava a praticar o mal e prejudicar o Estado e não denunciou, pelo contrário, calou a boca para se aboletar”, explica a fonte do F8.

Mais adiante, a mesma fonte acrescentou: “Se o esbanjador era só o camarada Dos Santos e uma vez o Presidente da Republica se considerar o único impoluto ou que o Estado, tal como Luís XIV, na França, é ele (João Lourenço), então que fique com tudo, atemorize, prenda, arbitrariamente, difame, ofenda a honra de quem não gosta, exalte a raiva, o ódio, incluindo a violação da Constituição, por se achar, em dois anos, a eminência parda do país”.

Melhor, depois de se causar um incêndio de grandes proporções, é da mais elementar ingenuidade política, vaticinar ser possível a sua extinção, com um simples extintor de oxigénio, como parece ter sido a iniciativa presidencial.

Este incidente delapida ainda mais a já débil credibilidade e imagem do MPLA, diante dos eleitores, assim como banaliza a instituição Presidência da Republica, que em nenhuma situação pode ser confundida com uma feira de vaidades.

Neste momento pouco importa saber se Dos Santos tem ou não razão, mas seguramente, João Lourenço e o Estado, viram beliscada a imagem, muito por falta de tacto e visão estratégica, com as humilhações públicas e o mérito de ser desde a antiguidade, o primeiro líder de uma organização politico-partidária, a criar epítetos abjectos, contra os seus próprios membros.

Nem os romanos, quando na sede do poder legislativo, assassinaram o imperador César, nem os franceses, quando depuseram Luís XIV, os rotularam, como fez João Lourenço, ao seu mentor, catalogando-o de “Marimbondo-Mor”.

Obviamente, esse erro, longe de simples animosidade, causou feridas profundas, que nenhum tratamento clínico curará, em JES e na ala do MPLA conotada com ele, logo, tudo está ainda muito fresco e daí a impossibilidade de JLo ter conseguido demover Dos Santos.

“O camarada João Lourenço é muito mau e ingrato, quer governar com uma política de terror, quer ser líder por decreto, quando se é por carisma e persuasão. Ele está a perseguir as pessoas, quando deveria unir e apresentar outras políticas económicas, que afinal não tem, pois os seus discursos de tão vazios, apenas estão cheios das palavras; corrupção, prisões arbitrárias e repatriamento de capital, questões importantes, mas que pela forma como estão a ser abordadas, afugentam o capital e o investimento estrangeiro. Logo isso mostra que o programa do Presidente da Republica é um autêntico fiasco, muito pior do que o do camarada José Eduardo dos Santos, que ele quer combater e denegrir”, lamentou a fonte, adiantando que “se as críticas se cingissem às práticas e actos, eventualmente, considerados danosos na gestão passada, onde ele (JLo) se insere, e não a ataques pessoais contra o camarada José Eduardo seria admissível e compreensível, por cada pessoa e equipa pensar diferente da outra, mas não é o caso”, lamentou.

Noutro ângulo, comparou alguns dos actos do Presidente da República, “ao braço direito de um chefe da máfia, que para ascender fez um acordo secreto, com a polícia, fornecendo todos os dados da organização, como ajuda para o assassínio do chefe e ser ele o sucessor, passando a ser chefe dos bandidos e informante ao mesmo tempo”.

Esta assertiva é muito grave, mas mostra o clima no interior do MPLA e do cinismo reinante entre os seus militantes e dirigentes.

Um cenário triste que poderia ser evitado, mas quando as vaidades umbilicais falam mais alto, os resultados, na maioria das vezes, atingem, também, a imagem do País, do partido no poder (MPLA) e de João Lourenço que se apequenou na qualidade de Chefe de Estado, ao que parece mais preocupado em agradar aos estrangeiros do que reconciliar e unir os angolanos, incluindo os seus camaradas de partido, para juntos poderem tirar o país do abismo, em que o colocaram e relançar um verdadeiro programa e política económica, pois o actual modelo, já demonstrou fragilidades primárias, incapazes de ressuscitarem, até mesmo, um burro.

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