O coordenador da comissão instaladora do Partido do Renascimento Angolano – Juntos por Angola (PRA-JA), Abel Chivukuvuku, diz que “não recebeu qualquer tipo de financiamento” da empresária Isabel dos Santos para a constituição do partido. E se tivesse recebido, isso é crime? Nem todos podem receber apoio financeiro ilimitado e a fundo perdido do Estado, como é o caso do MPLA que é ele próprio o Estado.

Por Orlando Castro

“A té ao momento todas as despesas foram custeadas por mim, mas tenho noção que terei levado à exaustão os meus recursos e por isso aceitarei os angolanos de bem e de boa vocação que puderem contribuir”, sublinhou Abel Chivukuvuku.

Não será Isabel dos Santos uma angolana de bem? Ou só o foi (até mesmo para o actual Presidente do MPLA) enquanto José Eduardo dos Santos esteve Poder?

Abel Chivukuvuku recorda que o PRA-JA, apresentado no dia 2 de Agosto, é uma força política visionária e patriótica comprometida com os angolanos.

João Lourenço, enquanto novo proprietário do MPLA e, logicamente, de Angola, conta com aliados de toda a espécie na sua suposta senda de justiceiro, de gigante que cada vez mais mostra que tem pés de barro. Todos (ou quase) os que criticaram – e bem – Isabel dos Santos por décadas de actividades cleptocráticas estão agora rendidos a JLo. Para estes, quem roubou uma vez é ladrão para sempre. E no rol de crimes figuram todos os roubos, mesmo os que não cometeu, mesmo os que o não foram por estarem respaldados na lei. Isabel (dos Santos) passou a ser sinónimo de crime.

O Folha 8 foi dos que mais criticou Isabel dos Santos, sendo por isso um dos seus principais alvos. Continuamos a criticá-la. Mas se ladrão tanto é o que entra no galinheiro como o que fica à porta, quantas vezes o justiceiro João Lourenço, enquanto vice-presidente do MPLA, enquanto ministro, enquanto alto dirigente do partido, ficou à porta?

Seria, portanto, fácil continuar a culpar Isabel dos Santos, tornando-a o único bode expiatório dos enormes crimes cometidos em Angola em dezenas de anos, branqueando os principais responsáveis, entre os quais está – importa não esquecer – o próprio João Lourenço. Desde logo o MPLA (o único partido com funções governativas desde 1975), o seu presidente José Eduardo dos Santos (38 anos no poder) e toda a respectiva hierarquia.

Em tempos a empresária Isabel dos Santos ameaçou levar o Estado angolano (seja lá o que isso for) a tribunal, depois da decisão do Presidente João Lourenço de anular contratos milionários que tinham sido entregues a empresas suas pelo ex-presidente do país, o seu pai José Eduardo dos Santos.

Convenhamos que Isabel dos Santos é suficientemente inteligente para saber que os tribunais angolanos (seja lá o que isso for), nesta como noutras matérias, se limitam a encontrar matéria de facto que consubstancie o veredicto que lhe seja ditado antes mesmo de analisar qualquer queixa. Era assim no tempo do seu pai, é assim agora no tempo de João Lourenço.

Mais do que levar o Estado (isto é, o MPLA) a tribunal, Isabel deveria contar-nos (em livro, por exemplo) tudo o que sabe da promiscuidade criminosa entre dirigentes do partido/Estado/Governo, entre o seu pai e João Lourenço, os acordos firmados, o papel dos serviços de informação etc. etc..

Certo é que quando se perde o Poder a maioria dos acólitos saltam a barricada. Perante alguma resistência de uns poucos marimbondos que poderiam, e deveriam, contar-nos o que sabem sobre João Lourenço, o Presidente e proprietário do país mantém em “prontidão combativa elevada” os agora seus aliados, o que conseguiu graças a uma caça às bruxas no MPLA e a uma lavagem da sua imagem, quase parecendo que JLo nada tem a ver com o MPLA e que só agora chegou à política angolana.

Enfim. Nada nesta novela espanta. Espanta, isso sim, o êxito da estratégia de João Lourenço que, com algumas jogadas de mestre, conseguiu trazer para o seu lado da barricada muitos, quase todos, jornalistas que – tanto quanto parece – só têm por missão acertar contas com o clã Eduardo dos Santos, mesmo que tenham de violar a sua mais importante missão: a verdade.

Mas para isso não contem com o Folha 8.

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